O espírito revolucionário de Careca e os 30 anos do Bar de Boi

Careca foi um torcedor incondicional do Caprichoso e um dos fundadores do Bar do Boi. Foto: Divulgação

Nesses 30 anos de fundação do evento Bar do Boi, fruto do espírito revolucionário de seus criadores, dispostos a fazerem a diferença, típico da juventude cabocla dos anos 80, que curtia Renato Russo, Cazuza, Freddie Mercury mas também Chico da Silva, as lembranças voltam-se para um personagem da época, fundamental na história do boi bumbá de Parintins em Manaus, e na própria história contemporânea do Boi Caprichoso.

João do Carmo, o imortal Careca. Devoto de N. S. do Carmo e ao mesmo tempo anárquico, suas aparentes ambiguidades faziam dele um gênio. Torcedor incondicional do Caprichoso, defendia ardentemente a participação de amigos torcedores do Garantido na coordenação do Bar do Boi. Sabia ele que o evento só vingaria se existisse rivalidade entre os seus frequentadores. Uma sacada de mestre, mas que encontrou forte resistência interna, superada apenas por um detalhe. O fiador era João do Carmo, insuspeito torcedor do Caprichoso.

Ativista, Careca fundou em Parintins, em 1985, o Grupo Ala Jovem, primeiro movimento organizado de oposição à diretoria do Caprichoso, que pregava renovação para fazer frente ao avanço do boi contrário, na disputa por títulos. Bem sucedido na causa, por despertar consciência crítica na coletividade bovina, trouxe para Manaus a semente que fez brotar o Bar do Boi, dando origem ao Movimento Marujada.

Altruísta, Careca dedicou-se à causa do Caprichoso e a Parintins, fazendo de sua casa uma república, com total desprendimento, o que fazia dele uma liderança natural, indispensável para manter a motivação e a unidade do grupo, que crescia e se firmava como movimento cultural sem precedentes na história de Manaus. Não sem propósito, passou a ser chamado Movimento Marujada, em 1990, após célebre reunião que João do Carmo coordenou em sua residência, na Rua Ramos Ferreira.

Visionário, Careca apostava no triunfo do Movimento Marujada, em fazer do Bar do Boi uma trincheira do Boi de Parintins, e um entretenimento saudável para se ouvir, cantar e dançar toadas de boi, ao som dos tambores da Marujada de Guerra.

Tradicionalista, em 2001 Careca idealizou e organizou o primeiro Boi de Rua em Parintins, à frente do Conselho de Arte do Caprichoso. O desejo de resgatar a Velha Guarda, as toadas de raiz e as tradições do Touro Negro, e fazê-los passar e brincar nas ruas e em frente das casas, junto com os torcedores azul e branco, é hoje uma realidade e um componente do Boi de forte participação popular. Era a sua maior satisfação pessoal. Valeu, João do Carmo!

Caprichoso, sou eu!

Afrânio Viana

Afrânio Viana

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