24/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

A curiosidade da Helena

Publicado em 10 de fevereiro, 2017

A um mês de completar quatro anos de vida, Helena Beatriz tem pisado fundo no acelerador da curiosidade. A fase dos “porquês” aflorou em toda a sua exuberância e as perguntas desconcertantes se sucedem. Caía um temporal tipicamente amazonense e ela, toda faceira e aconchegada no meu colo, lançou-me este verdadeiro desafio: “Vô, por que a gente chama chuva de chuva”? Sábios de todo o mundo, eu os convoco para a solução do enigma. Seria eu um rematado cretino se tentasse explicar a origem latina da palavra, tentando convencê-la de que, com a evolução da língua, o “pluvia” acabou se transformando na nossa velha e cansada “chuva”. Simplesmente me calei, na esperança de que a volubilidade da criança se impusesse à cobrança da resposta, que o adulto não sabia dar. O milagre aconteceu e eu fui salvo do vexame por um membro da “patrulha canina”, uma cadelinha bombeira chamada Marshall, pela qual ela tem especial predileção, a ponto de usar uma fantasia da personagem.

Às vezes a pergunta é curiosa, mas, com o mínimo de esforço é possível encontrar uma explicação lógica. Deitada, mas embromando para não dormir, Helena se vira para a avó e ataca: “Vó, por que quando a gente pensa, pensa em shopping”? Bingo. A própria avó, se ficar uma semana sem ir a um shopping, passa mal e tem que ser acudida com sais aromáticos para evitar um delíquio. A mãe, a Lucinha, tinha dezesseis anos quando foi inaugurado o primeiro shopping de Manaus. Frequentou tanto a nova casa que eu lhe mandei fazer um cartão de visitas, dando como endereço o do empreendimento comercial. Temos, pois, que aí a genética é suficiente para dar a resposta adequada, conquanto os desdobramentos da curiosidade possam ter consequências catastróficas: já pensou se a pirralha pergunta “o que é genética”?

É melhor ficar por aí mesmo e torcer para que a Heleninha vá mantendo sua curiosidade voltada para coisas triviais que, mesmo quando não permitem uma resposta plausível, também não embaraçam muito. Deixemos que o verdadeiro tirocínio científico da criança venha na hora certa, de tal maneira que ela possa entrar na Universidade, sendo capaz de ter uma visão completa do mundo, entendendo-o como um todo e na sua integralidade. Não quero – e nem vai acontecer – que ela chegue ao nível superior precisando de que alguém lhe explique o alcance de um princípio básico como o da solidariedade, do qual decorre a postura fraterna com que temos o dever de encarar a humanidade. Evitará que ela se julgue (fenômeno que infelizmente não é raro), o centro do universo, assim como se de todos devesse esperar deferências, aquinhoando-os, quando muito com um aceno de condescendência.

Mas a verdade é que, fôssemos nós dar vazão à curiosidade que também nos assalta, inúmeras perguntas restariam sem uma resposta adequada. Por exemplo: por que Donald Trump é presidente do país que se auto intitula xerife da civilização ocidental e cristã? Na sequência: o que, diabos, vem a ser a civilização ocidental e cristã? Como eu não sei responder a nenhuma das duas indagações, ficam elas postas aí para que os de inteligência mais acurada e de cultura mais ampla possam esclarecer as dúvidas do meu rarefeito leitor.

Aliás, em matéria de leitura, forçoso é relembrar a figura do saudoso Umberto Eco, um dos homens mais eruditos dos últimos tempos. A partir da polêmica que ele criou na Itália, caberia formular outra pergunta: por que há tantas azêmolas que usam a internet para dizer coisas estapafúrdias sobre assuntos que não conhecem? É impressionante como a rede mundial de computadores passou a servir de nicho para essa gente. Numa linguagem incompreensível, as mais das vezes chula, tais opiniões vão do risível ao estúpido, revelando uma pobreza de espírito que causa dó.

Deixem-me, por favor, formular só mais duas perguntas. Por que o PT nunca fez um “mea culpa”? Se for de múltipla escolha, assinale sua opção: a) porque acha que nunca errou; b) porque o Lula não deixa; c) porque não se manca; d) todas estão corretas. E a derradeira: por que existem idiotas que, com um gosto musical deplorável, colocam o aparelho de som no volume mais elevado? Alternativas: a) acham que todo o mundo é estúpido e gosta das mesmas porcarias que eles; b) são sádicos; c) são surdos; d) são apenas idiotas mesmo.

Cartas para a redação com as respostas. Heleninha agradece.

 

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.