Por Daniel Sales
Tudo começou quando o samba ganhou status de música “oficial”. Foi em 1916 que “Pelo telefone” foi gravado. De lá para cá “muita água rolou debaixo da ponte”. Surgiram as escolas de samba e foi a Praça XI o berço dos primeiros desfiles das agremiações. Ora, os desfiles eram realizados em círculos, tal qual numa arena. Tempos depois até mesmo num estádio de futebol (São Januário), e em tablado – como o da Bola da Suframa de tempos atrás. O desfile nas avenidas veio com o gigantismo crescente das escolas, tomando aos poucos o lugar dos ranchos (que eram compostos por centenas de pessoas). Isso tudo no Rio de Janeiro.
Avenida Presidente Vargas, a do Presidente, Marquês de Sapucaí… Na Marquês foi em 1978 que o desfile das grandes escolas foi para lá. Em Novembro de 1983, já com o Gaúcho Leonel Brizola no poder carioca, é que a pedra fundamental do revolucionário Sambódromo foi fincada. Centenas e centenas de trabalhadores colocaram a “mão na massa” e em apenas quatro meses entregaram a grande obra. Desde lá, o Sambódromo do Rio de Janeiro tornava-se a referência para que noutras cidades houvesse outras passarelas do samba. Na maior cidade da Amazônia, em 1990 se iniciava a obra de também um grande Sambódromo. Em Manaus, desde 1905, o logradouro que encobria quase toda a extensão do Igarapé do Espírito Santo é que deu vazão a todos os matizes de desfiles. A avenida Eduardo Ribeiro recebia desfiles carnavalescos, cívicos, passeatas, comemorações diversas… Com a chegada das escolas de samba manauaras na década de 1940, eis que houve um aumento do contingente de foliões a desfilar por esta avenida. Antes disso, quando era carnaval, blocos, corsos, foliões isolados etc… é que faziam a festa na mais tradicional artéria baré.
Em 1979 foi realizado o último desfile na Eduardo Ribeiro. A partir de 1980 haveria subsídios financeiros às agremiações. Urgia-se também melhorias técnicas para foliões e públicos mais exigentes. Manaus, à época possuía 600 mil habitantes e havia crescido bastante já para o Norte da época (Parque 10, Flores e adjacências) a antiga rua João Alfredo (aberta na época do prefeito, ex-presidente da Unidos da Selva, Jorge Teixeira) é que seria agora o palco dos desfiles. Seria batizada depois como Avenida Djalma Batista. O primeiro desfile nesta artéria deu-se em 1980. O sentido dos desfiles era bairro-centro: iniciando de onde hoje é o Amazonas Shopping até na direção do Boulevard Amazonas. A partir de 1981 a concentração dos blocos de enredo, batucadas, cordões e escolas de samba seria no Boulevard. Até mesmo os barracões improvisados de algumas agremiações eram feitos ali mesmo no canteiro central ou no asfalto da Senador Àlvaro Maia. O desfile em si iniciava-se já li próximo do atual Posto 700 e ía 500m adiante. Desde a Eduardo Ribeiro, de 8 a 10 degraus de arquibancadas de tábuas de madeira comportavam o público. Na Djalma não foi diferente. Somente em 1983 é que pintaram o asfalto na cor branca. Aumentaram a ornamentação carnavalesca sobre a passarela e puseram divisórias de madeiras separando o público da área de desfile. Mesmo assim dava para se tocar nas fantasias dos foliões ou brincantes.
Com o crescimento do público e também das escolas de samba, eis que faz-se mister também um Sambódromo na terra de Ajuricaba. A ex bucólica, cheirosa e cosmopolita Paris dos Trópicos possuía por essa época 1 milhão de habitantes. Existiam mais de 60 agremiações (entre escolas e blocos). O governo do estado iniciava as obras do futuro Sambódromo, ou Centro de Convenções. Em seu projeto previa-se a construção de oito módulos, sendo seis retangulares e dois semi-circulares. Com uma área na forma de geral e outras para logística de funcionamento dos trabalhos em si. A área de concentração seria pelo bairro do Alvorada e a dispersão em frente à avenida Pedro Teixeira. A extensão total desta passarela seria de cerca de 400m e comportaria um público máximo de 100 mil pessoas. Em 1991, no carnaval somente as duas arquibancadas semi-circulares (a famosa ferradura) é que estava construída. Neste ano as agremiações não receberiam as subvenções necessárias para os seus desfiles. Houve uma quebradeira generalizada na plataforma carnavalesca de Manaus: Escolas desapareceram, outras se fundiram, blocos sumiram, somente alguns sobreviveram. Neste ano foi criada a AGEESMA. Em 1992, finalmente o sambódromo abre sua portas para as escolas de samba, mas com tão somente a ferradura construída. Toda a extensão sobrante era de madeira. Em 1993 construíram dois blocos retangulares e finalmente em 1994 todos os oito módulos estavam construídos. Foi neste ano que houve o recorde de público no maior sambódromo do Brasil, 100 mil pessoas. Sobre a ferradura fora construída uma base de ferro galvanizado, tal qual uma semi-cúpula gigantesca de mais ou menos 1.000 m2 que seria coberta para o carnaval de 1995. Infelizmente alguns meses depois do carnaval esta base de cobertura ruiu, caindo e enterrando parte do projeto inicial.
Para que houvesse uma melhoria técnica do sambódromo em sua estrutura logística sugeria eu que fossem construídas frizas, em toda a extensão do desfile na parte de baixo, onde hoje é a geral e que estas frizas fossem vendidas, pois com certeza há consumidores que procurariam estes setores com maior conforto. Suprimiriam-se as mesas e o ganho seria incomensuravelmente maior em todos os sentidos.
* Daniel Sales é pesquisador cultural.