21/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Roy Rodgson, Ottmar Hitzfeld e o ‘clima caluniado’ do Amazonas, no histórico ‘Discurso do rio Amazonas’ de Getúlio Vargas

Publicado em 19 de fevereiro, 2014

O clima amazônico, amazonense, manauara está na cena mundial por conta da Copa do Mundo. Os técnicos da Inglaterra, Roy Rodgson, que enfrenta a Itália, na Arena da Amazônia, dia 14/06, e da Suíça, Ottmar Hitzfeld, que pega Honduras, também em Manaus, no dia 25 de junho, reclamaram da temperatura. A Fifa alterou os horários dos jogos para 18h. Getúlio Vargas, no famoso “Discurso do rio Amazonas”, proferido no dia 09/10/1940, no Ideal Clube, mostra que essa polêmica é antiga.

Chegamos ao “Discurso do rio Amazonas” pelo poeta e grande historiador Elson Farias. Getúlio, que havia começado a governar em 1930 e estenderia até 1945 o Estado Novo, estava no auge. Viram o que aconteceu na recente visita da presidente Dilma Housseff? A paparicação, o fechamento do trânsito etc. etc. etc.? Imagine tudo isso multiplicado pela província que era Manaus e, mais ainda, dada à imponência ditatorial do presidente de então. Foi um acontecimento.

O Ideal, na Praça do Congresso com Eduardo Ribeiro, estava lotado pelos barões da Borracha, autoridades estaduais e plebeus. Quem escrevia os discursos de Getúlio era um jornalista, grande intelectual, chamado José Soares Maciel Filho. Mas isso é um detalhe: todos ficaram embasbacados pelo conhecimento da região apresentado no texto, hoje um documentos histórico do Amazonas.

O ditador afirma, no discurso, que o “clima caluniado”, isto é, os exageros a respeito do clima da região, acabaram dificultando o povoamento da Amazônia. “Até agora, o clima caluniado impediu que de outras regiões com excesso demográfico viessem os contingentes humanos de que carece a Amazônia. Vulgarizou-se a noção, hoje desautorizada, de que as terras equatoriais são impróprias à civilização. Os fatos e as conquistas da técnica provam o contrário e mostram, com o nosso próprio exemplo, como é possível, às margens do grande rio, implantar uma civilização única e peculiar, rica de elementos vitais e apta a crescer e prosperar”, diz o texto.

Verdade é que os dois treinadores não levaram em conta a existência de um aparelinho chamado ar-condicionado, que usamos em casa, no carro, no trabalho. Nem a eventual friagem, que na última semana manteve a temperatura em Manaus abaixo dos 30 graus centígrados, enquanto a fria Porto Alegre rondava os 40 graus. A tecnologia empregada na construção da Arena da Amazônia, por fim, a mesma da construção dos melhores estádios do mundo, na Alemanha, criou tuneis de vento que tornam o estádio bem ventilado e afastam o fantasma do “clima caluniado”. Exceto na canícula, quando o vento para e não mexe uma folha. Mas isso é, felizmente, exceção.

O Brasil foi tricampeão na altitude do México. Não que estejamos torcendo para que Inglaterra ou Suíça ganhe a Copa. Claro que não. Queremos o hexa porque a Itália é tetra e está sempre nos nossos calcanhares. Mas vamos aceitar as desculpas dos dois treinadores, torcendo para a Itália civilizadamente, e tomara que a cidade fique atupetada de ingleses, italianos, suíços, portugueses, hondurenhos e norte-americanos… E que haja o mínimo de organização para que eles não se tornem propagandistas negativos de Manaus.

No mais, para quem ainda não leu, fica abaixo o “Discurso do rio Amazonas”. Qualquer semelhança com as promessas dos políticos atuais não é mera coincidência – e Getúlio Vargas era caracterizado pelo populismo, como todos sabem:

 

“Discurso do rio Amazonas”, proferido pelo presidente Getúlio Vargas, no dia 09/10/1940, no Ideal Clube, em Manaus:

“Senhores, ver a Amazônia é um desejo de coração na mocidade de todos os brasileiros. Com os primeiros conhecimentos da pátria maior, este vale maravilhoso aparece ao espírito jovem simbolizando a grandeza territorial, a feracidade inigualável, os fenômenos peculiares à vida primitiva e à luta pela existência em toda a sua pitoresca e perigosa extensão. É natural que uma imagem tão forte e dramática da natureza brasileira seduza o povo e as imaginações moças, prolongando-se em duradouras ressonâncias pela existência em fora, através dos estudos dos sábios, das impressões dos viajantes e dos artistas, igualmente presos aos seus múltiplos e indizíveis encantamentos.

As lendas da Amazônia mergulham raízes profundas na alma da raça, e a sua história, feita de heroísmo e viril audácia, reflete a majestade trágica dos prélios travados contra o destino. Conquistar a terra, dominar a água, sujeitar a floresta foram as nossas tarefas. E, nessa luta, que já se estende por séculos, vamos obtendo vitória sobre vitória. A cidade de Manaus não é a menor delas. Outras muitas nos reserva a constância do esforço e a persistente coragem de realizar.

Do mesmo modo que a imagem do rio-mar é, para os brasileiros, a medida da grandeza do Brasil, os vossos problemas são, em síntese, os de todo o país. Necessitais adensar o povoamento, acrescer o rendimento das culturas, aparelhar os transportes.

Até agora, o clima caluniado impediu que de outras regiões com excesso demográfico viessem os contingentes humanos de que carece a Amazônia. Vulgarizou-se a noção, hoje desautorizada, de que as terras equatoriais são impróprias à civilização. Os fatos e as conquistas da técnica provam o contrário e mostram, com o nosso próprio exemplo, como é possível, às margens do grande rio, implantar uma civilização única e peculiar, rica de elementos vitais e apta a crescer e prosperar.

Apenas – é necessário dizê-lo corajosamente – tudo quanto se tem feito, seja agricultura ou indústria extrativa, constitui realização empírica e precisa transformar-se em exploração racional. O que a natureza oferece é uma dádiva magnífica a exigir o trato e o cultivo da mão do homem. Da colonização esparsa, ao sabor de interesses eventuais, consumidora de energias com escasso aproveitamento, devemos passar à concentração e fixação do potencial humano. A coragem empreendedora e a resistência do homem brasileiro já se revelaram, admiravelmente, nas “entradas e bandeiras do ouro negro e da castanha”, que consumiram tantas vidas preciosas. Com elementos de tamanha valia, não mais perdidos na floresta mas concentrados e metodicamente localizados, será possível, por certo, retomar a cruzada desbravadora e vencer, pouco a pouco, o grande inimigo do progresso amazonense, que é o espaço imenso e despovoado.

É tempo de cuidarmos, com sentido permanente, do povoamento amazônico. Nos aspectos atuais, o seu quadro ainda é o da dispersão. O nordestino, com o seu instinto de pioneiro, embrenhou-se pela floresta, abrindo trilhas de penetração e talhando a seringueira silvestre para deslocar-se logo, segundo as exigências da própria atividade nômade. E ao seu lado, em contato apenas superficial com esse gênero de vida, permaneceram os naturais à margem dos rios, com a sua atividade limitada à caça, à pesca e à lavoura de vazante, para consumo doméstico. Já não podem constituir, por si sós, esses homens de resistência indobrável e de indomável coragem, como nos tempos heroicos da nossa integração territorial, sob o comando de Plácido de Castro e a proteção diplomática de Rio Branco, os elementos capitais do progresso da terra, numa hora em que o esforço humano, para ser socialmente útil, precisa concentrar-se técnica e disciplinadamente. O nomadismo do seringueiro e a instabilidade econômica dos povoadores ribeirinhos devem dar lugar a núcleos de cultura agrária, onde o colono nacional, recebendo gratuitamente a terra desbravada, saneada e loteada, se fixe e estabeleça a família com saúde e conforto.

O empolgante movimento de reconstrução nacional consubstanciado no advento do Regime de 10 de Novembro não podia esquecer-vos, porque sois a terra do futuro, o vale da promissão na vida do Brasil de amanhã. O vosso ingresso definitivo no corpo econômico da nação, como fator de prosperidade e de energia criadora, vai ser feito sem demora.

Vim para ver e observar de perto as condições de realização do plano de reerguimento da Amazônia. Todo o Brasil tem os olhos voltados para o Norte, com o desejo patriótico de auxiliar o surto do seu desenvolvimento. E não somente os brasileiros, também estrangeiros, técnicos e homens de negócio, virão colaborar nessa obra, aplicando- lhe a sua experiência e os seus capitais com o objetivo de aumentar o comércio e as indústrias, e não, como acontecia antes, visando formar latifúndios e absorver a posse da terra, que legitimamente pertence ao caboclo brasileiro.

O vosso governo, tendo à frente o interventor Álvaro Maia, homem de lúcida inteligência e devotado amor à terra natal, há de aproveitar a oportunidade para reerguer o estado e preparar os alicerces da sua prosperidade.

O período conturbado que o mundo atravessa exige de todos os brasileiros grandes sacrifícios. Sei que estais prontos a concorrer com o vosso quinhão de esforço, com a vossa admirável audácia de desbravadores para a obra de reconstrução iniciada. Não vos faltará o apoio do governo central para qualquer empreendimento que beneficie a coletividade.

Nada nos deterá, nesta arrancada, que é, no século vinte, a mais alta tarefa do homem civilizado: conquistar e dominar os vales das grandes torrentes equatoriais, transformando a sua força cega e a sua fertilidade extraordinária em energia disciplinada. O Amazonas, sob o impulso fecundo da nossa vontade e do nosso trabalho, deixará de ser, afinal, um simples capítulo da história da Terra, e, equiparado aos outros grandes rios, tornar-se-á um capítulo da história da civilização.

As águas do Amazonas são continentais. Antes de chegarem ao oceano, arrastam no seu leito degelos dos Andes, águas quentes da planície central e correntes encachoeiradas das serranias do Norte. É, portanto, um rio tipicamente americano, pela extensão da sua bacia hidrográfica e pela origem das suas nascentes e caudatários, provindos de várias nações vizinhas. E, assim, obedecendo ao seu próprio signo de confraternização, aqui poderemos reunir essas nações irmãs, para deliberar e assentar as bases de um convênio em que se ajustem os interesses comuns e se mostre, mais uma vez, com dignificante exemplo, o espírito de solidariedade que preside às relações dos povos americanos, sempre prontos à cooperação e ao entendimento pacífico.

Senhores, o acolhimento afetuoso que tenho encontrado entre vós não só me toca o coração, porque já vos sabia leais e hospitaleiros, como fortalece, ainda mais, o meu sentimento de brasilidade.

Passou a época em que substituíamos pelo fácil deslumbramento, repleto de imagens ricas e metáforas preciosas, o estudo objetivo da realidade. Ao homem moderno está interdita a contemplação, o esforço sem finalidade. E a nós, povo jovem, impõe-se a enorme responsabilidade de civilizar e povoar milhões de quilômetros quadrados. Aqui, na extremidade setentrional do território pátrio, sentindo essa riqueza potencial imensa, que atrai cobiças e desperta apetites de absorção, cresce a impressão dessa responsabilidade, a que não é possível fugir nem iludir.

Sois brasileiros, e aos brasileiros cumpre ter consciência dos seus deveres, nesta hora que vai definir os nossos destinos de nação. E, por isso, concito-vos a ter fé e a trabalhar, confiantes e resolutos, pelo engrandecimento da pátria.”

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