12/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Questões do transporte coletivo e tráfico de drogas não são resolvidas porque a classe média, ignorante e alienada, se recusa a participar da solução

Publicado em 20 de agosto, 2013

O grande sonho do jovem manauara, no ambiente de consumo atual, é ter um carro e fugir da maldição do ônibus. Ao volante do veículo próprio, ele se julga imune às greves, à absoluta irresponsabilidade dos empresários e tudo o que envolve o trânsito caótico das grandes cidades. No ambiente estudantil e nas baladas, ao mesmo tempo, a droga circula febril. Não é à toa que popularizaram-se expressões como “careta”, como é chamado o não usuário, e a máxima de que “um tapinha não dói”, com seu dúbio sentido.

Qualquer empresário sério, por menor que seja, treme só de ouvir falar em fiscalização da Receita Federal ou do INSS, agora fundidos num só órgão, a Super-Receita. Empresário de ônibus em Manaus, porém, é flagrado quase diariamente sem depositar a parte da previdência social ou o FGTS, mas passa incólume. Basta usar o argumento de que, se falir, o pobre operário vai ficar sem transporte para ir ao trabalho e pronto. Parece que pode tudo.

A Super-Receita parece ignorar o péssimo efeito didático que ocorre no seio empresarial. Todos sabem que os fiscais, em número pequeno, não conseguem fiscalizar tudo. Trabalham por amostragem ou com base no cruzamento de dados. Se todos sonegarem ao mesmo tempo, a receita do País cairá brutalmente, mas a fiscalização não será capaz de chegar a tantos sonegadores e a maioria escapará incólume. E aí é comum se ouvir, do pequeno varejista que trabalha em tempo integral para ganhar uns poucos caraminguás de lucro e pagar as despesas no fim do mês: “Se ele pode por que eu não posso?”

A falta de um transporte coletivo decente obriga todo mundo que tem carro em Manaus a tirá-lo da garagem diariamente. Chova ou faça sol. Com as facilidades de financiamento e a melhoria da renda na classe média, não é incomum que marido e mulher tenham um veículo cada. Isso aumenta o número de carros no trânsito e o resultado são os engarrafamentos que tumultuam a vida de todos e diminuem drasticamente a qualidade de vida na cidade.

Quando os trabalhadores descobrem que a empresa não deposita o FGTS e o INSS, como ocorre agora na impune Global Green, e param os ônibus, o jovem classe média que comprou o carro e paga a gasolina com tanta sacrifício se une ao operário usuário do transporte coletivo e ao bacana que têm até motorista, nos engarrafamentos quilométricos que se formam.

A sonegação de FGTS e INSS se tornou crônica há dez anos. O Sindicato dos Rodoviários, que deveria fiscalizar e denunciar o problema, em nome da defesa da categoria, tem preferido usá-lo como moeda de troca. Ou torna o empresário refém ou explode contra ele uma greve como a que ocorre agora na Global Green, usando o problema como justificativa diante da opinião pública.

A sociedade precisa se perguntar também por que Ministério do Trabalho e Super-Receita não conseguem alcançar essas empresas e esses empresários? Ah, os empresários! Nenhum deles, diante da penúria em que vivem as empresas do transporte coletivo de Manaus, vive numa casinha humilde, num bairro da periferia, como seria  natural, mas nos melhores condomínios e mansões da cidade ou fora daqui.

O usuário de droga, por outro lado, é o freguês do tráfico. É ele que financia o traficante, com o seu inocente “tapinha” no cigarro de maconha ou a cheirada na carreira de cocaína. Pior é que não são todos os usuários que descem a ladeira e ficam jogados na sarjeta. Há aqueles que conseguem manter as aparências, mas estão igualmente alimentando a corrente sanguínea dessa indústria, só equiparada à armamentista em opulência e faturamento, mas superior à Coca-Cola em pontos de venda.

A sonegação de direitos trabalhistas joga na lata de lixo conquistas sociais fundamentais, obtidas com sangue, suor e lágrimas. A droga não poupa ninguém com a violência que gera.

A sociedade, alienada ou não, precisa refletir mais sobre isso.

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