Os bumbás Caprichoso e Garantido conseguiram, em 48 edições do Festival Folclórico de Parintins, criar um admirável patrimônio, cujos principais “ativo” são as torcidas – fanáticas, participativas, animadas, criativas, espetaculares – e o desenvolvimento da inspiração e transpiração criativas do parintinense. Têm também, ao mesmo tempo, um inacreditável passivo acumulado de erros, a começar pelo recurso a empréstimos, com juros que fariam corar o mais voraz agiota da capital, passando pelo vale-tudo da política interna e, sobretudo, na fórmula de julgamento. Os jurados, enfim, são o calcanhar de Aquiles da festa tupinambarana.
Ninguém pode achar normal que se invistam dezenas de milhões de reais, cerca de R$ 16 milhões entregues diretamente às diretorias dos bumbás, entre investimentos estaduais, municipais e privados, envolvendo estrutura e patrocínio direto, fora o desgaste emocional dos dois grupos, para meia dúzia de representantes dos bumbás saírem, uma semana antes da festa, catando jurados por Estados sorteados em cima da hora. Achar que isso vai resultar em acerto é como pedir que um goleiro defenda pênalti batido a meio metro da linha do gol.
Soube que, este ano, houve até dados falsos divulgados na plataforma lattes, do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), apenas para que determinado jurado fosse escolhido. Logo em seguida, já que os dados são de responsabilidade do autor, tais informações foram retiradas.
Um corpo de jurados com todos escolhidos no Amazonas, contemplando as diversas especialidades apresentadas no Bumbódromo – música, artes plásticas, coreografia, história, antropologia etc. –, com seminários mensais, iniciados 10 meses antes da festa, envolvendo esse grupo e os artistas, seria uma saída. Os escolhidos diriam o que esperam em suas áreas e os artistas o que deve ser julgado. A síntese daria no regulamento do júri.
Jurados remunerados e com os votos abertos também pode ajudar. Eles teriam que, após a festa, defender o que votaram e conviver com isso no cotidiano, bem diferente do sistema atual, quando os jurados são retirados sorrateiramente da cidade, logo após a última noite.
Isso pode sair caro. Mas é a melhor maneira de ter um julgamento à altura da grandiosidade do espetáculo de Caprichoso e Garantido.
Os bumbás podem e devem, no mínimo, corrigir de imediato um defeito verificado há anos e que avultou este ano: alegorias (lendas, rituais, figuras típicas) são hoje o que há de mais grandioso no festival e não podem ter o mesmo peso de nota que os itens individuais. Isso faz com que um boi invista milhões em estruturas grandiosas, que enchem os olhos do público e da imprensa, enquanto o outro envereda por coisas mais simples, menores, economizando recursos, ao mesmo tempo em que exige o máximo de seus itens.
Ora, dirão os mais fanáticos, e por que o outro boi também não enfatiza seus itens individuais? A resposta contém um enorme perigo. Se os dois bumbás resolverem economizar em alegorias, o brilho do festival vai diminuir. São elas que enchem os olhos do espectador. Mas, respondendo à pergunta, ainda que os dois bumbás ofereçam o mesmo peso aos itens individuais permanecerá a injustiça quanto ao tamanho do investimento para produzir alegorias e o necessário à evolução dos itens.
Só para registro, o Caprichoso, este ano, fez a Rainha do Folclore desfilar, na segunda noite, com duas toadas que não eram aquela com a qual passou o ano inteiro ensaiando e para a qual tinha uma coreografia cuidadosamente estudada. Os itens do azul e branco, aliás, entram e saem da frente do jurado com uma rapidez irritante, enquanto os do Garantido demoram um tempão no ponto de julgamento e voltam lá várias vezes, ao longo de toda a apresentação.
David Assayag, na hora de defender toada, letra e música, além do seu próprio item, como levantador, “passou a bola” para a torcida no meio da interpretação, recurso típico de artista quando está cansado num show, grava um ‘remake’ ou pressente dificuldade em atingir determinada nota. Claro que nenhum dos casos se aplica ao “imperador”, mas ele deixou espaço para que o jurado, especialista em música ou mal intencionado, transferisse à nota essa impressão.
Sebastião Jr. está cada vez melhor. David Assayag, porém, fica ainda mais afiado, à medida que os anos passam. No conjunto das apresentações deste ano, o jurado deveria dar o 10 para o David e esperar para ver o quanto Sebastião se aproximaria dele, para ser justo.
O Festival Folclórico de Parintins, fruto da criatividade dos meninos parintinenses, lá no início do Século XX, e dos diretores da Juventude Alegre Católica (JAC), nos anos 1960, é uma grande festa, mas ainda pode melhorar.
Será inaceitável, por exemplo, em 2014, ano de Copa do Mundo no Brasil e de milhares de estrangeiros no País, que o radicalismo e o egocentrismo de dirigentes impeçam a transmissão nacional da festa ou repitam as trapalhadas deste ano.
Ano que vem é ano de eleição estadual e nos bumbás. As facções políticas se espalham em Caprichoso e em Garantido. Que os sócios tenham sabedoria para escolher os melhores presidentes, afastando a interferência de quem manda votar e depois some, deixando o boi entregue à própria sorte.
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