Há algum tempo os torcedores da Associação Folclórica Boi Bumbá Caprichoso vêm sendo incomodados com os solavancos na história da agremiação. Já foram homenageados como “fundadores”, “primeiro dono” etc., Luiz Gonzaga, Emídio Vieira, Antônio Boboí e, este ano, Roque Cid. Quem, afinal, é o “nosso galardão”, como afirma Chico da Silva, sobre Luiz Gonzaga, na toada “Raízes de um povo”?
Resposta: todos e mais alguns.
Olhe os arquivos. Veja as capas das fitas cassetes, onde estão os primeiros registros gravados das toadas dos bumbás, e veja que o Garantido vinha enfatizando que nasceu em 1912 e o Caprichoso em 1913. O Caprichoso entrou depois na briga e começou a dizer que era o mais velho, como se isso tivesse alguma importância. É assim que os dois comemoram, este ano, os respectivos centenários, quando ambos dificilmente comprovarão que têm 100 anos.
Está faltando compreensão quanto à dimensão do Festival Folclórico de Parintins. Uma festa com transmissão nacional por tantos anos, no período da Band, e promoção feita na máquina publicitária da Coca-Cola, precisaria contratar uma instituição imparcial, o mais distante possível do fanatismo fundamentalista dos bumbás, e encontrar a História real de suas origens.
A História, felizmente, não está sujeita a vontade ou torcidas. Ela precisa de fontes e comprovantes. Ou então será considerada “orelhada”, palpite ou, como diz a Wikipedia, no verbete sobre a “história” do bumbá: “Este artigo ou secção contém uma ou mais fontes no fim do texto, mas nenhuma é citada no corpo do artigo, o que compromete a confiabilidade das informações. (desde abril de 2011) Por favor, melhore este artigo introduzindo notas de rodapé citando as fontes, inserindo-as no corpo do texto quando necessário.”, Ou seja, é preciso dizer onde está escrito ou que documento prova as afirmações contidas na “história”.
O Caprichoso decidiu, sabe lá por qual cargas d’água, concentrar a fundação do bumbá na figura de Raimundo “Roque” Cid. Comete, de saída, uma grande injustiça com Pedro Cid e Felix Cid, irmãos dele, que também participaram da fundação. No texto publicado na Wikipedia, que a agremiação tem a obrigação de contestar e aprimorar, há aberrações como a de que Luiz Gonzaga era um dos irmãos Cid. Não era. Nunca foi. E só será se nascer de novo, algo tão difícil quanto a missão de quem se acha poderoso o suficiente para reescrever a História.
O Caprichoso, pelo testemunho de meu pai, Zé Caiá, irmão de Luiz Gonzaga, falecido ano passado, aos 93 anos, que participou com ele dos primeiros momentos da brincadeira, nasceu dos irmãos Cid, de Emídio Vieira, Antônio Boboí, Luiz Gonzaga e José Furtado Belém. Este, então vice-governador do Amazonas e pai de Júlio Furtado Belém, que dá nome ao aeroporto de Parintins, foi quem incentivou a garotada – sim, os bumbás nasceram como brincadeira de meninos – nos primeiros passos dessa grandiosidade folclórica que existe hoje.
Estava lá, também, o próprio Lindolfo Monteverde, uma vez que o bumbá ainda se chamava Galante. E a competição de Lindolfo não foi com Roque Cid, primeiro amo do boi, mas com Nascimento, pescador, vozeirão, vizinho de Luiz Gonzaga, que chegava primeiro aos ensaios e assumia o posto, deixando o depois fundador do Garantido sem “brincar”.
Alguém dirá: “Marcos, você está contestando Odinéia Andrade”? De jeito nenhum. Ela foi minha professora querida e é minha amiga queridíssima. Tem todo o meu respeito. Mas nem ela, do alto de seu conhecimento e das pesquisas que fez, pode assumir a responsabilidade por fatos não comprovados e mexer na História. Até mesmo ela, como eu e qualquer outro que se debruce sobre o tema, precisa de documentação e pesquisa científica antes de afirmações que mexem com a história das famílias parintinenses mais tradicionais e desrespeitam memórias tão caras.
Luiz Gonzaga tem sob sua árvore frondosa dona Izolina, esposa dele, minha carinhosa tia, falecida aos 108 anos, em 2008. Tem Chico da Silva, também sobrinho, compositor e intérprete que o País reverencia com justiça. Tem Rubem dos Santos, falecido presidente e apresentador do Caprichoso. Tem tia Osmarina, tantas vezes organizadora dos bastidores da brincadeira e em cujo terreno se criou a mística do “Esconde” (rua Sá Peixoto). Tem tio Santarém, o artista da Dona Aurora e o tocador de banjo da Marujada de Guerra. Tem Teca, a primeira vaqueira. Tem tanta história que a lata de lixo onde, de vez em quando, tentam colocar seu nome não cabe. De jeito nenhum.
O Caprichoso faz muito bem em homenagear Roque Cid. É justo. Dos irmãos dele, que estão na origem do bumbá, a Ednelza Cid, Peta Cid, Regina Cid Fernandes e tantos outros, membros de uma das maiores e mais tradicionais famílias parintinenses, todos merecem. O que não pode é querer transformá-lo em “único”, “fundador solitário” etc., na esteira do que o Garantido fez com Lindolfo Monteverde.
O Caprichoso sempre foi feito pelas mãos de muitos. Isso é motivo de orgulho, jamais de vergonha. A História grita por justiça.
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