Secretário municipal de Saúde em Manaus, no primeiro ano da primeira gestão do prefeito Arthur Virgílio, Wilson Alecrim disputou o Governo do Amazonas, em 1990, contra ninguém menos que Gilberto Mestrinho. E perdeu por 53% a 47%, com vitória na capital e uma canseira danada no interior, com a impressão de que o grande cacique tombaria se houvesse Segundo Turno. A razão de tudo isso? Mais de 60 bairros da capital, como Zumbi, São José, São Lucas, da Paz, Redenção e Tancredo Neves, até então na lama, asfaltados, além de ruas como a Grande Circular – que era barro puro e intransitável no inverno. O general asfalto fez a diferença.
Em 2014, outra vez, Manaus tende a assistir a momento semelhante. A cidade está esburacada. Virou tábua de pirulito, nas vias principais, e solo lunar nos bairros. O prefeito Arthur Virgílio tem jogado atenção – e tensão sobre sua equipe – para o período do verão, prometendo que lá a cidade vai receber um “banho de asfalto”.
A diferença é que, desta vez, o povo está mais escolado. Não é possível que tenhamos saído dos meros 1,5 mil universitários por ano, recebidos na valorosa, pioneira e então única Universidade Federal do Amazonas (Ufam), para os próximos de 100 mil/ano que ingressam hoje no Ensino Superior, sem que isso represente um mínimo de massa crítica.
Na outra vez ficou célebre a imagem de Arthur, numa rua do bairro Santa Etelvina, raspando com a chave do carro uma finíssima camada do chamado asfalto “morenou”, para mostrar como era ridículo o que se fazia na cidade. Com a drenagem, das águas pluviais e servidas, transformada em marca de seu governo, ele mexeu nessa cultura, embora um ou outro sucessor tenha se quedado à pressão do crescimento estúpido da cidade e voltado a pintar as ruas no lugar de asfaltar.
Agora o povo quer asfalto de verdade. Da classe média ao povão, todos esperam pelo momento em que as ruas voltarão a ficar lisinhas e acabe o asfalto “pula-pula”, responsável pelo aumento exponencial da clientela dos médicos especialistas em coluna vertebral. Querem ver a Prefeitura mexer na sub-base e base de ruas como Djalma Batista, Constantino Nery, Recife/ Mário Ypiranga, Paraíba/ Umberto Calderaro, André Araújo e Ephigênio Sales. E que tal um Parque 10 e uma Cidade Nova “zerados”, com sarjeta e meio-fio, rua inteira aproveitada e não apenas aquela nesga de negritude que sobra depois do inverno?
O general asfalto é decisivo em eleição e Arthur Virgílio está cansado de saber disso. Claro que não é só por isso que a cidade precisa de ruas transitáveis. É uma questão de decência e vergonha na cara mesmo.
Quando um asfalto de má qualidade é produzido, o poder público voltará ao mesmo local no ano seguinte para gastar o mesmo valor e refazê-lo. E será assim nos anos posteriores, enchendo o bolso de empresários inescrupulosos e que insistem em ignorar os novos tempos, onde a qualidade do serviço é cartão de visitas e pressuposto de sobrevivência.
É sempre provável que uma parte da “máquina” municipal trabalhe na base do corpo mole. É por isso que obra da administração direta demora tanto. Falta o cimento e o sujeito cruza os braços. Dois dias depois, quando o supervisor passa para ver como está o andamento do trabalho ele diz: “Chefe, não apareceu ninguém pra trazer o cimento e a gente tá parado”. E lá se vai mais uma semana do distinto público motorizado perdendo horas nos engarrafamentos, provocados pelos tapumes de obra que não anda.
Fazer obra por administração direta sai mais barato, mas não anda. Asfalto “morenou” é mais barato, mas não sobrevive à primeira chuva. O prefeito terá que driblar essas e outras armadilhas, além de contar com a boa vontade da população, que já foi além do limite, para interditar por semanas, talvez meses, algumas das vias principais da cidade, arcando com o ônus dos transtornos que isso provocará, e pagar mais caro para fazer um trabalho decente, que vá além da patifaria atual.
A gente espera. A gente torce. E cobra, se for o caso.
PS: Fechou meio retorno do DB. Ganhou a cidadania. Uma conquista gitinha, mas ganhou.
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