29/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Resumo da história do Festival de Parintins para principiantes e neofanáticos

Publicado em 10 de junho, 2012

Quando se fala na História dos bumbás Caprichoso e Garantido, os fatos propriamente ditos quase nunca são levados em conta. A rivalidade acaba prevalecendo. Há, porém, uma linha que ninguém contesta e é nessa que vamos trafegar.

Noves fora o “tapa olho” do fanatismo, há um “tronco” comum entre o azul do Caprichoso e o vermelho do Garantido que se chama Boi Galante.

Fundado por jovens estivadores e pescadores parintinenses, incentivados por José Furtado Belém, influente político da época (pai do deputado estadual Júlio Belém, nome do aeroporto de Parintins), o Galante reunia os festeiros da cidade. Lindolfo Monteverde atravessava a cidade, de sua casa, na Baixa da Xanda (Xanda era esposa dele, e o local foi depois transformado em Baixa do São José), local onde ainda existe o chamado “curral tradicional” do Garantido, até a avenida Rio Branco, para tirar versos nesse bumbá.

Parintins era praticamente uma vila. Não havia ruas, só veredas para serem percorridas a pé, no meio da mata. Para piorar, quando Lindolfo chegava ao curral do Galante, seu principal adversário, o pescador Nascimento, havia ocupado o lugar de amo e tirava os versos que eram o ponto forte do bumbá.

Chegou uma hora que Lindolfo e seus companheiros – a “viagem” da Baixa à Rio Branco era feita em grupo – decidiram criar o próprio bumbá. Nascia o Garantido. No ano seguinte, percebendo que o nome tinha apelo popular, os integrantes remanescentes do Galante decidiram mudar a denominação para Caprichoso. Estavam postos os rivais que fazem a história do Festival de Parintins.

A maior polêmica está no ano em que isso aconteceu.

O Garantido comemorou o centenário de Lindolfo Monteverde em 2002, ou seja, ele nasceu em 1902. A linha oficial adotada pelo bumbá é que a criação do mesmo ocorreu em 1913. Ora, isso significaria que Lindolfo o fundou aos 11 anos de idade.

Chico da Silva, na toada “Sonho de Liberdade”, de 2002, afirma: “Boi Garantido/ É histórico, é sabido/ que mestre Lindolfo Monteverde/ aos 18 anos de idade contigo sonhou/ Boi Garantido, sonho de Lindolfo Monteverde/ Do poeta a oitava maravilha/ Se realizou”.

Aí tudo vira uma questão matemática: 1902 + 18 = 1920.

O Galante deve ter sido fundado por volta de 1918, o Garantido em 1920 e o Caprichoso em 1921. É possível dizer, como o azul e branco é herdeiro do bumbá original, que ele é o pioneiro da cidade. Mas como o vermelho e branco foi o primeiro a adotar o nome atual, também ele pode afirmar ser o primeiro da Ilha Tupinambarana. Logo, essa história de 1912-1913, como datas de fundação dos bumbás, é mero fanatismo, sem qualquer base histórica.

O que não dá para ignorar é que, ambos, têm em suas raízes pescadores e estivadores, pessoas muito humildes, responsáveis por cultivar a semente da árvore frondosa que hoje é o Festival de Parintins.

Há ainda outros fatos que marcam a linha de tempo da festa parintinense.

A Igreja Católica de Parintins está na base de tudo. Disposta a arrecadar recursos para a construção da Catedral de Nossa Senhora do Carmo, imponente construção erguida na “Broadway” (trecho da Avenida Amazonas, a principal de Parintins), a Juventude Alegre Católica (JAC) criou o Festival Folclórico, em sua quadra de esportes. O local ficou pequeno e a festa “passeou” pela quadra do Ipasea, Parque das Castanholeiras e o estádio de futebol municipal Tupy Catanhede.

O bumbódromo teve a sua primeira versão em madeira. O aeroporto da cidade ficou bem no meio da área residencial e foi transferido para o local atual. Sobrou uma área de terra imensa, sem qualquer utilização, que o prefeito de então, Gláucio Gonçalves, conseguiu matricular no patrimônio da cidade.

Gláucio ofereceu a cabeceira que dá para o lado “de cima” da cidade ao Garantido, para a construção de seu curral, enquanto o “lado de baixo” foi ofertado ao Caprichoso. Fiel à toada que diz “Nunca mudou de fazenda/ nem de dono ou de curral”, o vermelho recusou. O Caprichoso aceitou na hora a área que hoje é o curral Zeca Xibelão. Mais tarde, percebendo o erro cometido, o Garantido recebeu ajuda dos seus simpatizantes mais endinheirados e governamental para comprar a Cidade Garantido, no local atual, onde antes funcionou a Fabriljuta, indústria de tecelagem de juta.

Em 1988, mesmo diante do ceticismo dos que achavam a obra faraônica, o governador da época, Amazonino Mendes, hoje prefeito de Manaus, construiu o Bumbódromo atual, com capacidade para 12 mil espectadores. O local recebeu mais de 30 mil pessoas e, depois da festa, os ferros retorcidos da estrutura mostraram como o Festival Folclórico de Parintins cresceu além das expectativas. Por pouco o Bumbódromo não caiu no ano da estreia.

O Garantido cultiva muito bem a memória de seu fundador, Lindolfo Monteverde. Ao Caprichoso falta um pouco mais de respeito às memórias de Boboí, dos Cid e de Luiz Gonzaga. Este, da década de 1930 até a de 1960, quando faleceu, embaixo da Dona Aurora, foi o grande responsável pela manutenção do bumbá.

Tire-se o fanatismo. E o resumo da História dos bumbás é isso aí.

Veja mais notícias em Opinião

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.