10/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Célio Antunes, o venerável e condestável paradigma da TV de alto nível no Amazonas

Publicado em 19 de abril, 2012

Célio Antunes

Célio Antunes apresentou telejornal antes do teleprompter, que permite aos apresentadores ler as notícias e parecer que não estão lendo, mas decorava tudo, com memória prodigiosa

Quando cheguei a Manaus, em 1980, não conhecia ninguém. Minhas referências na profissão eram os jornais, o que conseguia ouvir pelas antenas de recepção do rádio de meu pai e a TV Ajuricaba, a Globo da época em Manaus, que acabava de ser instalada em Parintins. E lá despontava Célio Antunes, na época o único apresentador de telejornal do Amazonas.

Sempre me intrigou ver o Célio apresentando as notícias sem olhar para o papel. Melhor que Sérgio Chapelin e Cid Moreira. Mais tarde, convidado pela Hermengarda Junqueira, então diretora de jornalismo da Ajuricaba, para a emissora, vi que ele decorava os textos enquanto redigia. Uma memória espetacular.

O mundo do jornalismo apresentava Célio Antunes como “o filho da Nega Charuto”. A mim, isso soava como um elogio à superação, por ele se ter tornado intelectual tão robusto, vindo de berço humilde. O irmão, professor Pedro Antunes de Freitas, 63, quinto filho da família, esclarece: “Minha Mãe nasceu em Minas Gerais. Se mudaram para Londrina, Norte do Paraná. Nunca saiu de lá para outra cidade. Ela faleceu de infarto, no dia 4 de julho de 1973. Eu vim para Manaus por meio deste meu irmão, em 1975. Estou a disposição para esclarecer a qualquer momento tudo sobre minha mãe. Nome dela era Maria, apelido Belina”.

Flashes de Célio:

Redigia muito rapidamente; lia todos os jornais do dia (Manaus chegou a ter seis) e memorizava cada linha (um de nossos passatempos era testá-lo, falando como quem não quer nada de algum fato escondido numa ponta de coluna qualquer. E ele fazia charme: “Tá aí, num desses jornais, o fulano falando sobre isso”); tinha mania de limpeza e, quando ia ao banheiro, lavava as mãos e não pegava em mais nada, nem para enxugá-las; limpava as teclas da máquina de escrever com as laudas de texto; pegava uma lauda do meio do calhamaço e ia amontoando as demais ao lado da mesa; ninguém podia mexer na mesa dele, especialmente para tentar arrumá-la, porque sabia exatamente, no meio de uma bagunça infernal, onde estava tudo; quando ficava impossível conviver com a bagunça, Hermengarda pedia para limpar a mesa e Célio entrava na redação praguejando contra tudo e contra todos – era o único momento em que perdia o bom humor.

Não conheço ninguém que tivesse tanto desapego às coisas. Caled Hauache, esposo de Sadie Hauache, proprietário da TV Ajuricaba, dava todo ano um carro zero para ele. E não era um fusquinha. Era, simplesmente, o carro da moda.

Célio não lavava, não trocava o óleo e só colocava gasolina porque sem isso não conseguiria sair do lugar. Fumante compulsivo, jogava as carteiras de cigarro vazias dentro do carro, como fazia com as latas e garrafas de cerveja. Até que um dia, o carro parava e ele deixava numa rua qualquer, imprestável.

Certo dia, alguém resolveu virar de cabeça para baixo uma santinha que pendurava na janela da redação. Entrava na sala e, às vezes, antes mesmo de dar bom dia, ia até ela e rezava baixinho, concentrado, num ritual carregado de fé e respeitado pelos colegas. Até que, nesse dia, ele chegou, começou a rezar e então notou que a imagem estava de ponta cabeça. No lugar das preces, uma chuva de  imprecações: “Pai nosso que est… Quem foi o fdp, o e… que fez essa m… aqui? Isso é muita p…!!!”

Célio, enfim, era uma inacreditável figuraça.

Estrela da TV, num tempo em que bastava a alguns radialistas mandarem “um alô” ao comerciante da esquina para garantir o rancho grátis, nunca tratou ninguém mal. A mim, tateando no veículo, recebeu-me como se fosse veterano, dizendo que me ouvia narrando futebol, fazendo perguntas sobre Parintins etc., deixando-me, afinal, completamente à vontade.

Diante da morte do Célio, neste 18/04/2012, como diria o narrador esportivo Fiori Gigliotti, “fecham-se as cortinas de mais um grande espetáculo”. Ficam, para a história do jornalismo amazonense, o talento refulgente e o exemplo de humildade e dedicação extremada à profissão.

Saudades.

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