Pesquisa sobre a inveja

Felix Valois

Felix Valois

Remexendo meus apontamentos, à cata de material para escrever estas mal traçadas, deparou-se-me o seguinte texto, publicado pela BBC Brasil, no ano de 2009:

“Uma equipe de cientistas japoneses conseguiu identificar a região do cérebro que controla o sentimento de inveja. A descoberta poderá ajudar os profissionais da área de saúde a lidar melhor com pessoas que sofrem do problema.

A inveja pode levar uma pessoa a praticar um ato destrutivo e até criminoso para conseguir o que deseja, explicou Hidehiko Takahashi, 37 anos, pesquisador-chefe do Departamento de Neuroimagem Molecular do Instituto Nacional de Ciência Radiológica, localizado no subúrbio da capital japonesa.

Ao entendermos como funciona esse mecanismo neurocognitivo poderemos prevenir e tratar esse tipo de conduta, disse o cientista à BBC Brasil.

A pesquisa, que durou um ano e meio, estudou o comportamento de 19 pessoas em boas condições de saúde. Durante os experimentos, eles tiveram os cérebros monitorados por aparelhos de ressonância magnética.

Antes de monitorarmos as atividades cerebrais, pedíamos aos participantes para se imaginarem integralmente nas situações descritas, como se fossem reais e estivessem acontecendo com eles, explicou Takahashi. As pessoas eram induzidas a imaginar um cenário que envolvia outras três personagens. Duas delas seriam hipoteticamente mais capazes e inteligentes do que os voluntários da pesquisa.

Quando os voluntários sentiam inveja, a parte do córtex dorsal anterior do cérebro era ativada. “Pessoas muito invejosas tendem a ter uma grande atividade nessa região do cérebro, que é responsável pela dor física e também é associada à dor mental”, contou o pesquisador.

Os cientistas também perceberam que outra parte do órgão, o corpus striatum, que é associado a sentimento de alegria ao recebermos um prêmio, por exemplo, era também estimulado quando as cobaias liam um capítulo que descrevia problemas com outras personagens.

Segundo os especialistas, isto indica que as pessoas invejosas sentem mais prazer com a desgraça alheia. O resultado da pesquisa foi publicado na última edição do American Journal of Science”.

Mais de um lustro se passou e não sei se os nipônicos avançaram nesse esmiuçar científico da inveja. De uma coisa tenho certeza: cobaia não pode estar faltando porque o que existe de invejoso neste mundo é algo assombroso. Tem invejoso rico e invejoso pobre; tem invejoso bonito e invejoso feio. Há o que jura nunca ter sentido inveja de ninguém, assim como há o do outro tipo que proclama sua inveja abertamente, exibindo uma espécie de orgulho estúpido, como se a própria inveja fosse um galardão. Em todas as espécies, um ponto comum: a mesquinharia. Todo invejoso é mesquinho por definição e necessidade, não se podendo estabelecer se é a mesquinharia que causa a inveja, ou se, ao contrário, esta é a fonte primária daquela. Eis aí um ponto que pode ser relevante na pesquisa japonesa, ficando de graça a sugestão para os cientistas do Sol Nascente.

Tenho por primário que a inveja não ostenta nenhuma face de relacionamento com o orgulho, de tal sorte que o tipo de invejoso acima descrito por minha conta e risco há de ser uma deformidade entre os seus iguais. Cuido que nem mesmo com a vaidade pode a inveja ombrear, mesmo admitida a distinção feita por Guerra Junqueira, para o qual “o orgulho é a vaidade dos gênios, enquanto a vaidade é o orgulho dos imbecis”. Vai daí podermos concluir que o invejoso não é nem orgulhoso nem vaidoso, sendo apenas uma figura patética que se alimenta de um rancor inextinguível.

Fica esta outra conclusão que escapou aos japoneses: todo invejoso é, também, rancoroso e, mesmo quando manifesta alegria diante da desgraça alheia, como estabeleceu a pesquisa, não se trata da alegria sã, daquela alegria que faz rir e que deve ser compartilhada. Nada disso. É o que se poderia chamar, se permitida a contradição entre os termos, da alegria sem graça, que esboça um sorriso, mais esgar do que sorriso, e que apenas camufla o ódio, só contido por pura conveniência.

Como o tratamento para a moléstia ainda não foi disponibilizado pelo SUS, o cordão dos invejosos só faz aumentar. É lamentável.

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída pelo Senado Federal para elaborar a proposta de reforma do Código de Processo Penal.

Um comentário para “Pesquisa sobre a inveja

  1. Alirio Fernandes disse:

    Quando um cidadão deseja ardentemente que um gestor público corrupto pague, sem compaixão, pelo seu erro na cadeia, isso é rancor, inveja ou um sentimento de prazer com a desgraça do outro?

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