20/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Taxista do Careiro leva internet via satélite e expõe falha de programa público

Publicado em 03 de novembro, 2025

Taxista do Careiro leva internet via satélite e expõe falha de programa público

Esse ponto branco na traseira do táxi de Carlos (foto) é a Starlink que inovou nas corridas de táxi dentro da Amazônia mais erma (Foto: Divulgação)

No interior do Amazonas, onde o asfalto cede aos buracos e a floresta fecha o horizonte, o taxista Carlos Cleimerson decidiu enfrentar a desconexão de um jeito inusitado: levou a internet para dentro do carro. Atuando no município de Careiro da Várzea, ele faz fretes até Careiro Castanho, Manaquiri e Autazes, percorrendo trechos de 100 a 140 quilômetros praticamente sem cobertura de sinal. Agora, seus passageiros viajam com Wi-Fi via satélite — um serviço garantido pela antena da Starlink, instalada no veículo.

Segundo Carlos, a ideia surgiu da necessidade de oferecer conforto e modernidade a quem enfrenta horas de estrada sem comunicação. “A ideia de trazer a Starlink foi pra melhorar o conforto de passageiro e a conectividade da estrada, né? Porque às vezes a gente passa muito tempo na estrada e, para nossos passageiros, foi uma novidade muito boa. A gente pode oferecer mais conforto. A conectividade hoje em dia deixa tudo mais fácil, e o pessoal aqui às vezes passa uma hora, uma hora e meia no táxi sem conectividade. Aí pra eles foi bom. Está todo mundo reagindo bem, todo mundo elogiando a gente por ter essa iniciativa. A gente tem que inovar, né? Acompanhar a modernização”, explicou o motorista.

A iniciativa de Carlos chama atenção por mostrar o contraste entre a eficiência de um serviço privado e os resultados tímidos das políticas públicas de conectividade na Amazônia. Lançado em 2015, o programa federal Amazônia Conectada prometia levar internet de alta velocidade a regiões remotas por meio de cabos ópticos instalados no leito dos rios. Coordenado pelo Exército Brasileiro em parceria com os ministérios da Defesa, Comunicações e Ciência e Tecnologia, o projeto recebeu sucessivos aportes desde então. Em 2020, o governo anunciou investimento de R$ 70 milhões para os primeiros 1.200 quilômetros de cabos, e, segundo dados do Ministério das Comunicações, outros R$ 94 milhões foram aplicados em um trecho de 770 quilômetros entre Macapá e Santarém.

Apesar dos recursos, a cobertura ainda é limitada. Relatórios oficiais mostram que até 2021 haviam sido instalados cerca de 1.900 quilômetros de fibra óptica, beneficiando nove municípios amazonenses, sobretudo ribeirinhos. No entanto, as zonas de estrada, como as rotas percorridas por Carlos Cleimerson, continuam à margem da conectividade. Para quem depende dessas vias, o “internet para todos” do governo ainda é uma promessa distante.

Enquanto isso, o sistema Starlink, serviço pago e operado pela empresa de Elon Musk, vem se espalhando rapidamente pelo interior da Amazônia. Mesmo com custo elevado — a assinatura mensal pode ultrapassar R$ 200 —, moradores e trabalhadores de regiões isoladas têm aderido por um motivo simples: funciona. O caboclo que antes vivia desconectado agora assiste aos mesmos filmes da Netflix, participa de videochamadas e acessa serviços online como qualquer usuário das capitais.

O contraste revela uma lição evidente: o gratuito, quando depende do poder público, pode sair caro e ineficiente. O contribuinte paga duas vezes — uma pelo imposto que financia o programa e outra, quando precisa recorrer à iniciativa privada para ter o serviço de fato. No caso da Amazônia, onde a infraestrutura estatal avança lentamente e a manutenção é irregular, o modelo privado acabou se mostrando mais ágil e adaptável.

A história do taxista do Careiro da Várzea sintetiza a realidade de milhares de trabalhadores que cruzam o interior amazonense em trechos onde o Estado ainda não chega. Entre buracos, lama e longos períodos de isolamento, a conectividade via satélite se tornou mais que um luxo: virou ferramenta de segurança, trabalho e inclusão. Enquanto o Amazônia Conectada segue submerso em promessas e relatórios, o sinal particular de Carlos Cleimerson viaja firme — de dentro do carro, pela estrada adentro, atravessando o vazio digital da floresta.

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