25/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Questão de gênero

Publicado em 21 de julho, 2016

Temos como certa a lição dialética de que “uma coisa é ela mesma e o seu contrário”, resultando a evolução do permanente atrito entre esses opostos, sempre na busca da superação do velho pelo novo. É assim na vida de relação e tem sido assim na História, coisa que aprendemos a partir dos ensinamentos daquele judeu barbudo que nasceu na Alemanha no século 19. Não há, pois, como negar as diferenças. Elas existem e estão aí aos olhos de todos, até porque sem elas não haveria possibilidade de ter sido formulada a teoria da “luta dos contrários”. Se assim é, imperioso também é respeitar essas diferenças. Desconhecê-las já seria atitude censurável, eis que não se pode ter como positiva a postura do avestruz. Negá-las, chegaria bem perto dos domínios da insensatez, pois a ninguém é dado desconhecer o óbvio. Combatê-las, como se perniciosas fossem, revelaria altíssimo grau de periculosidade, a exigir, cuido, intervenção psiquiátrica.

Estou apenas querendo me situar, talvez de maneira pretensamente filosófica, no quadro que se nos depara no mundo atual. A todo momento, surgem bandeiras de luta contra as variadíssimas formas de discriminação. Aqui, levanta-se uma voz contra o racismo, esse câncer capaz de destruir qualquer sociedade, mesmo, e talvez principalmente, aquelas que se pretendem civilizadas. Acolá, o grito que se faz ouvir é contra a homofobia, palavra com a qual a modernidade quer significar a “rejeição ou aversão a homossexual ou à homossexualidade”. Tudo, no final, podendo ser traduzido na singela compreensão de que ser diferente não exige juízo de valor. Quero dizer: por ser diferente, alguém ou alguma coisa não é necessariamente melhor nem pior. É apenas diferente. E pronto.

Talvez bem por isso, o Sistema Integrado de Gestão Acadêmica da Universidade Federal do Rio de Janeiro fez realizar, no dia 11 deste mês, um “ato pelo reconhecimento de nossa diversidade”. Foi a academia mandando seu recado contra a discriminação, com esta ponderação inicial muito sensata: “Nossa universidade é maior do que muitas cidades. E como toda cidade, ela é feita de gente. Gente que tem muito em comum. Gente que guarda muitas diferenças. Diferenças que são a nossa riqueza. Mas que nem sempre são reconhecidas ou valorizadas como deveriam”. Bom começo, seguido da advertência: “Nossa universidade mudou. E continua mudando. Se tornando mais democrática, mais plural. Mais negros, mais estudantes de escola pública, mais moradores da periferia, gente de todo o Brasil chegando pra fazer da UFRJ a sua casa”. No meu modesto sentir, não precisaria mudar tanto a ponto de iniciar um claro desrespeito a norma elementar de linguagem, já que o vernáculo agradeceria o não início de uma frase como pronome pessoal do caso oblíquo. “Tornando-se mais democrática”, não feriria em nada a ânsia de igualdade. E estaria correto.

O bom combate da UFRJ contra a discriminação parece disposto a não dar trégua a qualquer deslize. Prova disso é a visível transposição da incógnita “x” para linguagem escrita, como forma de deixar induvidoso o desejo de que cada um receba como bem entender a mensagem. É a matemática a serviço dos novos tempos. Assim é que o direcionamento da mensagem a que aludo está grafado desta forma muito original: “Prezadxs”. Viram só que avanço? Quem quiser que substitua incógnita pela vogal adequada a seu caso, transformando a palavra em masculina ou feminina a seu bel prazer. Nada da ultrapassada fórmula de usar parênteses para expressar a mesma intenção. Por que? Ora por que. Porque se você escrever, como se fazia antigamente “Caro (a) amigo (a)”, estará dando prioridade ao gênero masculino, o que é inadmissível, já que não lhe seria possível explicar a razão de ter colocado o “a” e não o “o” entre parênteses. Que sutileza genial! Reiterada na afirmativa de que transformar a universidade “em um lugar de todxs é um compromisso institucional”. Perceberam? “Todos” já não tem o condão de englobar o gênero humano. Seria criminosa discriminação com “todas”.

Aceito (e quem sou eu para não aceitar) o avanço radical nas normas da linguagem escrita. Suponho que a esta se restrinja, já que “todxs” é impronunciável. Mas, se o aceito, em mim pessoalmente a novidade causou profunda (e acho que justificável) apreensão. Explico-me: o meu nome próprio é grafado como “Felix”. Com essa nova nomenclatura (digamos assim), será que isso significa que, daqui por diante, eu estarei livre para trocar o “x”? Quero dizer: se eu amanhecer como uma carga exagerada de testosterona terei que me assinar como “Felio”? E se (égua!) eu desmunhecar estarei autorizado a usar “Felia”? Vai azarar outro (ou eu deveria ter escrito “outrx?). Arrenego-te. Aqui mesmo essa inovação não vai vingar.

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.