25/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Velhice e patriotismo

Publicado em 19 de maio, 2016

O tempo nos faz pagar um preço muito alto pela sobrevivência. Gonzaguinha cantava, com razão, que “ninguém quer a morte, só saúde e sorte”. É verdade, mas, convenhamos que, se é bom viver, conviver com determinadas parvoíces se torna extremamente penoso. Quem, por exemplo, ainda não se cansou de ouvir a enfadonha repetição da palavra “golpe”? Que chatice! Golpe, poderia eu dizer, é a minha gônada esquerda, amenizando assim o surto de vulgaridade com o emprego de tão erudita palavra que, confesso, fui faiscar no bom e generoso Houaiss, esse amigo inseparável de quem, bem ou mal, tem que escrever.

Também não é prazeroso ligar o rádio e perceber que a emissora está iniciando a transmissão de um programa especial com a dupla sertaneja que se auto intitula Idiota e Cretino. Sei que é impossível a divulgação apenas de música de boa qualidade. Muito menos pretendo o esnobismo de que as sonatas de Mozart, as sinfonias de Beethoven ou as missas de Bach sejam o carro chefe das programações radiofônicas, conquanto isso, por incrível que pareça, seja realidade em nosso país, como pode atestar qualquer ouvinte da rádio MEC FM. Mas, se não almejo a tanto, cuido que não haveria mal algum em sermos poupados da sandice em alta escala, que nada mais é, além disso, o repertório das tais duplas. Reconheço, é certo, que a coisa pode ser pior. Para isso é suficiente que se mude para o axé. Assim já é demais.

Dentro dessas especulações quase filosóficas em que devaneio, vem à lembrança, de forma imperiosa, a advertência cruel que o rinoceronte fez à mente conturbada de Braz Cubas: “Vives. Não quero outro flagelo”. E olha que Machado de Assis nunca foi obrigado a conviver com os arremedos de música a que fiz alusão. Mas tinha outras preocupações o Bruxo do Cosme Velho. Ou não seria angustiante ao extremo a dúvida implantada em Bentinho sobre a fidelidade de Capitu? Ou, na mesma linha de raciocínio, a consequente baixeza de caráter de Escobar? E o que dizer da loucura de Rubião com as suas fixações napoleônicas? Tudo coisas que a vida, em se prolongando, vai impondo ao vivente com implacável frieza.

Ainda ontem, só para lembrar uma dessas coisas ruins e reais, fui informado da partida definitiva do doutor Rogélio Casado. Abalou-me a notícia. Se não me falha esta anciã memória, conheci aquele notável psiquiatra há coisa de quarenta anos, reunidos que fomos, acredito, na luta comum contra a ditadura militar. Daí às cervejas no Bar do Armando e aos desfiles da Bica foi um passo, tudo permeado, quase sempre, pelo som da gaita com que Rogélio extravasava seus pendores musicais. Quando fui Secretário de Justiça, convidei-o, e ele aceitou, para a direção do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico do nosso combalido sistema penitenciário. Deu gosto vê-lo trabalhar, mesmo com a estrutura ridícula do órgão que passou a dirigir. Ali, acredito, houve um fortalecimento definitivo das convicções em que sustentava sua batalha contra os manicômios, defendendo com exaltação e firmeza a necessidade de revisão e redirecionamento da forma como são tratados os doentes mentais.

Perdemos Rogélio e isso é lamentável. Pelo menos ele foi poupado de ler hoje, nos jornais, que o deputado Platiny Soares apresentou um projeto à Assembleia Legislativa do Amazonas que é o exemplo perfeito e acabado de como tem início a gestação daquilo que pode vir a ser uma lei estúpida, inconstitucional, retrógrada e sem sentido. Pretende-se que os professores da rede estadual de ensino, em qualquer nível, sejam proibidos de abordar, em sala de aula, temas que digam respeito, por exemplo, à sexualidade e às opções religiosas e/ou filosóficas dos alunos. Foi difícil digerir essa notícia. Não dá para acreditar que possa passar pela cabeça de alguém a ideia (se assim se pode chamar) de que a divulgação do conhecimento venha a ser limitada por algum tipo de preconceito ou, o que é pior, de um pudor falso e anacrônico.

Fico a imaginar o jovem perguntando “Mestre, o que o senhor acha da homossexualidade?” e o professor tendo que replicar mais ou menos nestes termos: “Cala a boca, menino, que esse tema é proibido e está no índex da lei Platiny”. Ou então esta indagação: “Professor, é verdade que o ser humano é produto da evolução dos primatas?” A resposta teria que ser necessariamente a seguinte, conforme os rígidos critérios da nova “lei”: “Claro que não, meu jovem. Você foi feito do melhor barro, devidamente soprado, sua irmãzinha aí ao lado foi tirada da sua costela e ambos vocês foram entregues à sua adorável genitora por uma das cegonhas mais lindas que eu já conheci”.

Francamente. Não sei se foi por terem ciência dessa e de outras iniciativas do mesmo tope que vinte por cento dos habitantes da região norte afirmaram, segundo recente pesquisa, que “têm vergonha de ser brasileiros”. O percentual vai a cinquenta no sul. Se foi, só posso dizer que uma estupidez não justifica outra. Minha Pátria (gostaria de dizer Nossa Pátria, mas os renegados talvez não gostem) está muito acima de todas essas tolices. Eu, pessoalmente, dela tenho profundo orgulho e se vejo, na velhice, desfilar tamanha sequência de insensatez, isso em nada abala a tranquilidade com digo aos meus netos: “Sou velho e sou brasileiro. Modéstia à parte”. Era só o que faltava eu me deixar abalar nos alicerces pela tolice do “golpe”, pela chatice dos sertanejos e axés e pela elevada noção de cultura do deputado Soares. Eu, hein!

 

 

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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