
Entre o Direito e o Mar, a homenagem de Jorge Pinho à obra de Oldeney de Sá Valente
* Jorge Henrique de Freitas Pinho
“O que é suave vence o que é duro.
O que é maleável triunfa sobre o que é rígido.
Como a água que molda a pedra sem jamais lutar com ela.”
Para Oldeney Valente, mestre das leis, das cores e da vida — que me estendeu a mão como professor, colega e exemplo de grandeza silenciosa.
Há quadros que se impõem pelo traço. Outros, pela força do tema. Mas há aqueles que se insinuam como brisa leve, conduzindo o olhar a um estado de alma. A pintura de Oldeney Valente é desse último tipo: não grita, mas chama. Não exige, mas convida. E o convite, nesse caso, é para reencontrar a serenidade — essa virtude rara que só a maturidade pode ofertar sem vaidade.
A tela que hoje me inspira, datada de 29 de março de 2025, poderia ser apenas mais uma paisagem litorânea. Mas não é. Há nela uma tensão quase imperceptível entre o movimento das águas e a firmeza do horizonte, entre a fluidez da espuma e o silêncio verdejante da mata ao fundo. Como bem ensinava Heráclito, tudo flui — e, no entanto, ali está o que permanece.
Essa dualidade me remete, do meu ponto de vista, à própria figura de Oldeney: no início, o jovem e operoso serventuário da Justiça; depois, o advogado íntegro; em seguida, o Procurador do Estado do Amazonas, ao mesmo tempo em que era o justo, rígido e emblemático Professor de Direito Comercial (com quem, graças à minha atenção e dedicação às aulas, sempre logrei obter excelentes notas); até se tornar Procurador-Geral do Estado do Amazonas em dois mandatos diferentes. Hoje, também aposentado da PGE, é um advogado que é, principalmente, um poeta do pincel.
Tive a honra de intuir que nasceria nele essa transformação silenciosa ao longo dos anos de convivência na Procuradoria-Geral do Estado, quando, ao lado de Sérgio Cardoso — outro jurista das tintas —, Oldeney deixava escapar, entre uma conversa e outra, a admiração que nutria pelas habilidades artísticas do colega. Como quem deixa entrever que também carrega seus sonhos, ele revelava, mesmo nas críticas bem-humoradas, uma sensibilidade estética que se percebia na maneira como falava das cores — com a mesma propriedade com que analisava um contrato ou uma cláusula de concessão pública.
Mas o tempo, que a tantos endurece, a ele refinou. E a tela de hoje é testemunha dessa depuração. O mar pintado por Oldeney não é o da juventude rebelde que desafia a terra; é o da maturidade, que a beija com doçura. A linha que divide a praia da água não é uma fronteira, mas um abraço. As nuvens, que em outros quadros seriam dramáticas, aqui são apenas testemunhas da paz que se alcança depois das tempestades — e que só os sábios conseguem traduzir com tanta leveza.
Há algo de Lao-Tsé nessa obra: o valor do não-agir que tudo transforma. A serenidade não como ausência de movimento, mas como harmonia entre os contrários. O azul do mar não tenta competir com o céu — ele se dissolve nele. A areia não resiste ao toque da água — ela o acolhe.
Ver essa tela é revisitar minha própria história. Porque foi Oldeney quem, com sua generosidade e firmeza, me convidou a assumir o cargo de Subprocurador-Geral — e, mais tarde, a me preparar para substituí-lo. Foi ele, junto a Elson Rodrigues Andrade — meu professor à tarde e meu aluno à noite na Aliança Francesa —, quem me inspirou a trilhar o caminho rumo ao comando da Procuradoria do Estado. Não foram apenas mestres do Direito. Foram arquitetos do meu destino.
E o destino, que não erra, agora me devolve a imagem de Oldeney como pintor. Um artista maduro, sereno, mas ainda instigante. Suas pinceladas despertam em mim o desejo antigo — há muito adormecido — de voltar a pintar. Meu último quadro data de 1991. Talvez, se a Providência me permitir, e se Oldeney ainda aceitar um novo aluno, eu me sente diante da tela mais uma vez. Porque, como dizia Platão, “a beleza é o esplendor da verdade”. E a verdade é que, mesmo calado, o pincel de Oldeney continua ensinando.
Não me surpreende que ele tenha trocado a militância ativa da OAB por esse chamado silencioso das cores. O que me emociona é ver que ele não abandonou a Justiça — apenas a reencontrou em outra linguagem. Na pintura, ele não precisa mais convencer. Basta revelar.
E o que revela essa paisagem? Talvez a mesma lição que ouvi, ainda jovem, nas aulas ensinamentos passados quando dividimos o comando da nossa saudosa PGE: que há um tempo para a batalha e um tempo para a contemplação. Que a vida, como o mar, só é bela porque se move. E que a maturidade não é o fim da criação, mas seu ápice.
A pintura de Oldeney é como o pôr do sol visto do convés: não anuncia o fim, mas o esplendor da travessia. Cada pincelada é como uma vela erguida ao vento da memória — não para voltar ao passado, mas para seguir adiante com mais leveza, sabedoria e silêncio.
Oldeney, tua tela é tua voz. E hoje, mais uma vez, eu te escuto.
Confesso, porém, que ao terminar este texto, fico imaginando a reação do próprio Oldeney ao ler tudo isso. Vai franzir a testa, dar aquela risada contida e resmungar algo como: “Jorge, exageraste! Isso é coisa tua, esse lirismo todo…”
E talvez tenha razão. Mas é também coisa dele, ainda que ele não admita: esse traço refinado que vai além do Direito, essa alma silenciosa que agora pinta o que antes argumentava. E se por acaso ele ficar constrangido com tanto elogio, já deixo a solução: basta me aceitar como aluno novamente. Aí sim, estarei ocupado demais com as tintas para escrever novas crônicas sobre ele.
Mas até lá — e mesmo depois —, seguirei pintando com palavras aquilo que sua arte me inspira.
Veja mais notícias em Colunas