
Açúcar, Cultura e Permanência, no discurso de Jorge Pinho (foto), na Academia Pernambucana de Letras.
* Por Jorge Pinho – para o Encontro com os Imortais da APL
Senhor presidente Lourival Holanda,
Senhora Margarida Cantarelli, em nome de quem saúdo as demais senhoras e senhores acadêmicos aqui presentes.
Permitam-me começar com dois agradecimentos que me vêm do coração:
Ao meu querido mestre e amigo Lourival, por seu convite carinhoso e generoso, que me honra profundamente nesta tarde entre gigantes. De quem recebi, graciosamente, um dos mais importantes incentivos que moldaram minha carreira profissional e minha vida: a arte de pensar e de escrever.
E à ilustre Margarida Cantarelli, por sua acolhida afetuosa e por algo ainda mais importante: por representar, com sabedoria, graça, força e elegância, a superioridade feminina no desdobramento das mais altas funções intelectuais ao longo de toda sua profícua existência.
Compartilhamos, Margarida e eu, um amor incondicional não apenas pelo Direito e pela Cultura, mas, no seu caso, destacam-se principalmente sua atuação em instituições representativas, como esta casa, o IAHGP, a UFPE, a UNICAP e o TRF 5 – com a diferença de que eu não ouso competir com sua energia e vitalidade.
Atuar, simultaneamente, nesta Academia e no Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, como um verdadeiro motor dessas instituições é, por si só, um feito digno de louvor. Mas ela o faz com leveza, com brilho e, acima de tudo, com uma naturalidade que nos lembra que as mulheres não apenas participam da história — elas a nutrem e a sustentam.
Estar em Pernambuco, durante esta última semana, tem sido mais do que uma viagem: tem sido uma travessia sensível, um reencontro com algo familiar e, ao mesmo tempo, ancestral.
O calor úmido me lembra Manaus; a natureza exuberante, a culinária carregada de alma, os sabores, os saberes, os gestos, a linguagem, a herança indígena: tudo me convida a um tipo de pertença que não se explica — apenas se sente.
E essa sensação me levou a uma profunda reflexão que desejo compartilhar com os senhores:
Será que a experiência da riqueza natural, vivida em momentos distintos da história por Pernambuco e pelo Amazonas, não nos legou — mais do que prosperidade material — uma marca cultural quase invisível, porém essencial ao ser humano: a hospitalidade?
Pernambuco conheceu sua pujança já no século XVI, com um ciclo açucareiro de longa duração, que moldou não apenas sua economia, mas também as instituições, os modos de vida e as manifestações culturais mais profundas, bem como permitiu ainda a diversificação econômica vivida na atualidade.
Por sua vez, o Amazonas viveu sua maior expressão econômica séculos depois, com o ciclo da borracha que durou do final do século XIX até o fim da primeira guerra mundial — um apogeu interrompido, retomado apenas, primeiro com um leve suspiro durante a II Guerra Mundial, e depois com a implementação da Zona Franca de Manaus, dos anos 1970 até os dias atuais, compondo um novo ciclo econômico que demanda revisão, mas isto não é tema para este momento.
Entretanto, em ambos os casos: o de Pernambuco e o do Amazonas, o que se percebe é que onde houve abundância da natureza, floresceu também a generosidade humana traduzida em hospitalidade.
E talvez seja essa hospitalidade — essa capacidade de acolher o outro com alegria e com honra — o verdadeiro elo que une nossas terras e nossas culturas.
Vou me esforçar para demonstrar minha tese em quatro pontos:
Pernambuco foi um dos primeiros centros de colonização do Brasil, com um dos mais poderosos, longos e estáveis ciclos econômicos da nossa história colonial: a cana-de-açúcar, presente até os dias de hoje.
Não foi por acaso que isso gerou cobiça internacional, invasão estrangeira e guerra contra os holandeses.
A pujança econômica e a centralidade geopolítica de Pernambuco, no Brasil colonial, o transformaram não apenas em território estratégico, mas em núcleo formador de identidade cultural, intelectual e política.
Isso, no meu entendimento, propiciou:
E, como não poderia deixar de ser, forjou também um traço marcante e inconfundível: a proverbial e propalada falta de modéstia pernambucana — um certo orgulho altivo, que não é excesso, mas consciência histórica.
Porque quem participou da fundação de um País não pode se contentar com a condição de coadjuvante.
Confesso que me identifico profundamente com essa imodéstia — e tenho até brincado com minha querida Margarida Cantarelli, instando-a, com toda a ousadia de um forasteiro encantado, a usar de sua amizade e prestígio para cavar para mim o título de cidadão pernambucano.
Alego, em minha defesa, que, apesar da falta de méritos para essa honraria, carrego esse traço em mim como distorção do espírito, mas confesso que nos pernambucanos isso ressoa como um charme inato e irresistível.
Perdão, querida Margarida, pela minha pretensão — e entenda aqui o duplo sentido da palavra: o da ousadia e também o da aspiração elevada, por querer de alguma forma me ombrear, por um mínimo que seja, aos pernambucanos de alma nobre como a sua.
Mas há outro ponto que gostaria de destacar: tanto a riqueza de Pernambuco quanto a do Amazonas têm origem na natureza.
Com uma diferença que considero reveladora:
Esse dois Estados, que entendo irmãos, revelam uma relação profunda com a terra e com a natureza.
Mas é curioso — e bonito — perceber que dessa ligação com a natureza também pode haver nascido mais um traço comum: a hospitalidade.
Aqui me permito invocar uma imagem bíblica: a hospitalidade de Abraão, que acolhia o estrangeiro como um mensageiro divino, mesmo sem saber de onde vinha ou para onde ia.
Sinto isso aqui, com os Senhores.
Sinto-me em casa, em Recife, como tenho certeza de que meus amigos pernambucanos assim também se sentem quando estão em Manaus.
Talvez esse seja o traço mais nobre que resta das civilizações verdadeiramente enraizadas e forjadas por economias ricas e pujantes: a capacidade de acolher, de abrir as portas, de sentar à mesa com o outro — e reconhecer nele um irmão.
E, tenho certeza: essa hospitalidade — essa capacidade de acolher o outro com alegria e com honra — é o verdadeiro elo que une Pernambuco e o Amazonas.
Mas há um traço específico da hospitalidade amazônica que merece ser destacado: ela nasce também do isolamento.
No vazio demográfico da floresta, onde a presença humana é rara e o encontro é exceção, o amazonense desenvolveu uma alma sertaneja — no melhor sentido que essa palavra pode ter.
Ele sente que cada forasteiro é uma oportunidade de diálogo, de troca e de permanência.
Como no sertão de Guimarães Rosa, onde “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe é no meio da travessia”, o encontro com o outro é sempre um milagre que interrompe a solidão ancestral — e, por isso, merece festa, fogueira e mesa posta.
Essa disposição para o acolhimento tem raízes não apenas culturais, mas também biológicas.
Nossa herança indígena, forjada nesse isolamento secular, aprendeu a valorizar a chegada do outro, não só como presença afetiva, mas como necessidade vital.
Em grupos pequenos, dispersos na vastidão da floresta, o novo sangue era — e ainda é — condição para a continuidade, para evitar a degeneração genética e para perpetuar a própria vida.
Por isso, o amazonense não apenas acolhe: ele adota, ele integra, ele cativa e ele seduz.
Porque no Amazonas, mais do que receber, é preciso fazer com que o outro queira ficar.
E talvez aí resida o mistério de uma hospitalidade que não é apenas cordialidade: é sabedoria ancestral e poética travessia.
Entretanto, em Pernambuco, essa hospitalidade não se limita à esfera privada.
Ela se manifesta em instituições que acolhem a memória coletiva como quem recebe um hóspede ilustre.
Talvez não seja por acaso que neste solo tenha nascido o Instituto Ricardo Brennand — um espaço onde a arte, a história e a arquitetura dialogam com o tempo, como se dissesse ao visitante: “Aqui, preservamos não só objetos, mas o espírito de uma civilização.”
O Instituto é, de certo modo, a materialização estética da hospitalidade pernambucana em sua esfera privada, fruto de sua prosperidade econômica.
Só uma cultura marcada por uma riqueza econômica duradoura — alicerçada na liberdade econômica, no respeito à propriedade privada, na livre iniciativa, no sentido profundo de continuidade e num respeito visceral à memória — poderia gerar uma instituição tão grandiosa e generosa como o Instituto Ricardo Brennand, que, ao que me consta, não encontra paralelo no Brasil, ou mesmo no Hemisfério Sul.
E é com emoção que ressalto: essa grandeza cultural é também feita de gestos pessoais — silenciosos, mas memoráveis.
Como o da própria Margarida Cantarelli, que, em um gesto de afeto por sua terra e amor pela cultura, doou ao Instituto Brennand sua notável coleção de mais de 1.200 xícaras bigodeiras, reunidas ao longo de décadas em viagens pelo mundo afora.
Com essa doação, Margarida não apenas partilhou objetos: ela partilhou história, beleza e pertencimento.
E mostrou, mais uma vez, que a verdadeira hospitalidade é aquela que transforma o privado em público, o singular em legado, e o tempo vivido em memória partilhada.
A cana criou mais que economia: criou um estilo de vida.
Como nos ensinou Gilberto Freyre, o engenho era mais que uma máquina de moer cana — era um microcosmo da civilização brasileira, onde conviviam o trabalho, o afeto, o rito, o símbolo e o poder.
E como dizia Ariano Suassuna, o Nordeste não é apenas uma região: é uma civilização à parte, com raízes profundas e universos próprios.
Essa cultura não se dissolve — ela se adensa.
Não se quebra — ela se cristaliza.
Não se curva ao tempo — ela o integra.
E sobrevive porque foi construída com permanência, com símbolos, com instituições duradouras — como esta linda Academia, que, pela força de seus membros, é guardiã e farol dessa herança em tempos de dispersão e de liquidez da sociedade.
Mas essa permanência só é possível quando a memória se torna gesto.
Quando o afeto se transforma em legado.
Quando o amor pela cultura se expressa não apenas em palavras — mas na partilha do tempo, da presença e da amizade.
E é por isso que, antes de encerrar, agradeço de coração a Lourival e a Margarida.
Não apenas pelo convite e pela acolhida, mas por algo ainda mais precioso: por me doarem, nesta semana, o que há de mais precioso, escasso e essencial — o tempo de qualidade, recheado de afeto, traduzido em passeios memoráveis por alguns dos pontos mais belos, históricos e simbólicos de Recife.
Num tempo em que tudo é pressa, eles me ofereceram convívio, afeto e contemplação.
E isso, sim, é hospitalidade em seu grau mais elevado.
Por isso, encerro com uma pergunta — e com uma certeza.
A pergunta é: será que o ciclo do açúcar nos deu apenas uma base econômica ou nos deu, na verdade, uma alma coletiva, feita de memória, de estética e de generosidade?
E a certeza é: onde houver memória viva, haverá permanência.
E onde houver permanência, haverá cultura.
E onde houver cultura, haverá hospitalidade — daquela que transforma o tempo em civilização, e o gesto generoso em eternidade.
Por último, quero acrescentar: juro que me esforcei ao máximo para fazer um discurso que fosse poderoso, conciso, poético, belo — e acima de tudo, curto.
Como os textos de Lourival.
Ou como o potente Estado de Pernambuco.
Mas, como amazônida que sou, logrei apenas realizar mais um dos meus textos, tão extensos e diversos quanto o meu Amazonas.
Ele até começou pequeno, juro!
Mas à medida que fui relendo, refletindo — e, claro, revisitando as maravilhas desta terra — ele foi crescendo… crescendo… até que saiu este, pelo qual peço desculpas.
Muito obrigado a todos.