
Troca-troca de itens alvoroça a torcida, com a chegada de Caetano Medeiros (foto) ao Caprichoso, mas não passa de rotina
* Por Marcos Santos
O anúncio oficial de Caetano Medeiros como Amo do Boi trouxe uma série de críticas dentro e fora do Caprichoso. É um tal de “ele é Garantido roxo” e “não vai se adaptar”, que envolve alguns apaixonados. E os haiters, aqueles que ligam o celular bem cedinho pela manhã, todo dia, diariamente, pensando “quem é que eu vou odiar hoje?”, fazem a festa. Falta memória. Bora recordar.
Zazá, pai de Carlinhos Pato, torcedor apaixonado do Caprichoso, trocou a francesa pela baixa. Foi aí que Raimundinho Dutra escreveu: “É triste, um homem mentiroso/ é doloroso, um homem sem moral/ tem duas caras, cada qual a mais feia/ cabra bom de peia tem que apanhar como animal…”. Um negócio duríssimo, inadmissível nos dias atuais, só que estamos falando da década de 1960, o que prova que radicalismo é coisa antiga. Zazá depois voltou à casa paterna e ficou tudo certo.
No troca-troca de itens, o Garantido também levou outro item destacado do Caprichoso, simplesmente David Assayag, quando este mal havia gravado o primeiro vinil da história dos bumbás no azul e branco. David retornou ao Caprichoso e já está de volta ao Garantido.
A fila é grande. O boi Caprichoso é produzido e conduzido por Alexandre Azevedo, filho do saudoso Marquinho Azevedo, que aprendeu o ofício do lendário Jair Mendes. Jair foi para o azul em 1988, depois de produzir o “Boi biónico”, no Garantido, e, quando voltou à Baixa, Marquinho ficou e se eternizou no item.
Cantores? Edilson Santana, que foi Amo e Levantador oficiais no Caprichoso, começou na Baixa. Patrick Araújo, o levantador atual, estava entre os “cantores oficiais” do vermelho, quando o azul o fixou.
Artistas? É onde mais tem troca-troca de itens. Entra ano e sai ano, os bumbás saem à caça de artistas. É difícil um nome que não tenha circulado nos dois. Não tem cor. O que vale é o melhor contrato, a melhor equipe, o projeto que encante mais.
Compositores? Depois daqueles idos de 1960, com Zazá indo da Francesa para a Baixa, Emerson Maia, o autor da eterna “Lamento de raça”, também se tornou compositor do Caprichoso. Chico da Silva escreveu “Vermelho” e “Sonho de liberdade” (“Brinca, brinca, Garantido/ Como o teu mestre mandou/ Mostra pra nossa galera/ Que o mais querido chegou/ Fazendo inveja ao contrário/ Que sempre te invejou/ Fazendo inveja ao contrário/ Que sempre te invejou”). E fez coisas lindas no Caprichoso, onde começou, como “Raízes de um povo” e tantas outras. Foi o único que, no troca-troca de itens, ficou com os dois, concorrendo em Toada Letra e Música por ambos (“Escudeiros do meu boi bumbá” contra “Dois prá lá, dois pra cá”).
Inaldo Medeiros, que partiu os corações parintinenses esta semana, ao falecer de infarto súbito, orgulhava-se de nunca ter entrado no troca-troca de itens. Mas já havia anunciado que torceria pelo filho, isto é, pelo Caprichoso, no Festival 2025. E ia ajudá-lo, ou seja, faria uns versinhos para empurrar o rebento.
Prince do Boi fez o nome. Caetano Medeiros é bem-vindo. Nasceu na Sá Peixoto, rua de Santarém, o cara da Dona Aurora e do banjo, de Acinelson Vieira, do Urubuzal e de José Carlos Portilho. O Festival de Parintins não vive sem novidades, principalmente nos itens. Gente fundamental, considerada insubstituível, já se despediu e foi substituída na boa – o caso mais conhecido é o do inesquecível Paulinho Faria, que Israel Paulain substituiu muito bem.
Será um belo duelo entre João Paulo Faria, o Amo do Garantido, e Caetano Medeiros. São dois jovens que trazem dentro de si o produto mais importante do Festival de Parintins: o orgulho de ser parintinense. Improvisem. Desfrutem. Curtam esse período curtíssimo da vida útil como item. Haters não pensam. Viva o povo de Parintins.
Marcos Santos é radialista e jornalista. Começou em rádio, narrando futebol, aos 12 anos, na Rádi...