03/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

O Encontro da Linguagem, da Amizade e da Aceitação (Primeiro diálogo)

Publicado em 12 de março, 2025

O Encontro da Linguagem

O Encontro da Linguagem e a importância do diálogo são tema de Jorge Pinho neste artigo, numa conversa com Lourival Holanda

* Jorge Henrique de Freitas Pinho

Querido Lourival Holanda,

Sua mensagem sobre meu artigo “O Diálogo que nos Torna Humanos: O Encontro Filosófico entre Martin Buber e Marshall Rosenberg” me tocou profundamente. Há nela algo que ultrapassa a simples resposta – ela se insere como um belo eco na mesma conversa inacabada que mantemos há tempos, aquela que travamos não apenas um com o outro, mas também com a própria vida.

Apresento ao leitor a sua mensagem:

“Os poetas do hassidismo me tocam tanto quanto os sufis e os do barroco espanhol, pelo empenho em fazer valer a linguagem, em seus lances e seus limites. Quando trabalho a linguagem penso muito nessa direção, a da acolhida precedendo mesmo a compreensão; é maluquice pretender “com/preender/apreender/prender o (outro) na nossa rede; a compreensão cabe só a Deus, a nós, coube o mais difícil: a “aceitação” do outro; no discurso diário a gente rejeita, exclui o que não compreende; e o outro traz sempre uma dimensão de singularidade que nem ele mesmo entende, menos ainda quem o ouve; daí porque o esforço de ouvir é uma ascese — quase como a do amor: a gente aceita e assume, porque ama; vai entendendo, depois. Isso pede muita conversa, Jorge; o assunto me fascina. Seu pensar é certeiro, sim.”

Se nossa conversa é inacabada, talvez seja porque todas as conversas que importam jamais se encerram. Elas mudam de ritmo, mudam de tema, mudam de cenário, mas continuam ecoando, como uma partitura que nunca chega à última nota.

Você traz à tona algo essencial: a limitação da linguagem diante do encontro humano. Isso me remete imediatamente à relação entre Buber, a CNV de Rosenberg bem como aos temas de  amizade e liberdade, desenvolvidos em meu artigo “A Amizade é o Território da Liberdade”.

Você menciona que os poetas do hassidismo, do sufismo e do barroco espanhol lhe tocam pelo empenho em fazer valer a linguagem, em seus lances e seus limites. E eu vejo que, na amizade, esse limite da linguagem se manifesta da forma mais pura e paradoxal: não precisamos compreender plenamente o amigo para acolhê-lo, pois a amizade é o espaço onde o outro pode simplesmente ser.

  1. A Linguagem e seu Fracasso Glorioso: O Outro é Sempre um Mistério

Você disse algo de uma verdade avassaladora: “A acolhida precede mesmo a compreensão.”

Essa afirmação ecoa diretamente a visão de Martin Buber, que nos ensina que o verdadeiro encontro humano acontece no nível do Eu-Tu, não do Eu-Isso. O Tu nunca pode ser completamente reduzido a conceitos, pois sua essência transcende definições. Ao tentar compreender o outro como um sistema fechado, não o encontramos – apenas o catalogamos.

Isso me faz lembrar da distinção entre ouvir para responder e ouvir para compreender, que Marshall Rosenberg tanto enfatizou. Mas talvez haja ainda um terceiro nível, ainda mais essencial, brilhantemente enfatizado por você: ouvir para acolher, sem a necessidade de compreender totalmente.

No meu artigo sobre amizade, escrevi:

“A amizade é a liberdade de ser quem somos, sem máscaras ou artifícios. Nela, não projetamos ideais nem buscamos completude; simplesmente desfrutamos da companhia do outro, respeitando sua individualidade.”

Aqui, encontro um eco direto no que você disse: “O outro traz sempre uma dimensão de singularidade que nem ele mesmo entende.”

Se nem ele próprio se entende completamente, quem somos nós para aprisioná-lo em nossa rede de significados? Quem somos nós para exigir que o outro seja inteiramente decifrável, quando a própria condição humana é feita de mistério e de abertura ao desconhecido?

Viktor Frankl argumenta que o ser humano não pode ser totalmente compreendido nem por si mesmo, pois sua existência é uma permanente busca de sentido. Se o próprio indivíduo está sempre em processo de revelação, o que dizer das relações? Não é função da amizade reduzir o outro a um conceito, mas permitir que ele seja um enigma vivo, um horizonte sempre se expandindo.

Talvez seja por isso que a verdadeira amizade não exige explicações, não força entendimentos, não demanda justificativas. Ela aceita o outro como um território misterioso, sempre em movimento.

“Acolher sem compreender totalmente não é um déficit intelectual, mas um ato de respeito e amor.”

Mas essa aceitação não é um salto no escuro, nem uma entrega sem critério.

Aceitar não significa renunciar ao discernimento, mas reconhecer que conhecer o outro é um processo gradual, um caminho percorrido com tempo, presença e diálogo.

O mesmo vale para o amor e o acolhimento.

Não amamos sem conhecer, mas também não conhecemos sem um mínimo de abertura ao amor. O encontro verdadeiro acontece quando permitimos que o outro se revele no tempo próprio da amizade, sem a pressa de rotulá-lo ou encaixá-lo em categorias prévias.

“O respeito antecede a compreensão. O amor não nasce da certeza absoluta, mas do desejo genuíno de conhecer o outro em sua singularidade.”

Essa é a arte do encontro: manter-se aberto ao que o outro é, sem pressa de defini-lo, mas também sem ingenuidade em acolhê-lo.

 

  1. A Ascese de Ouvir: A Escuta como Amor

Você refere com maestria que “o esforço de ouvir é uma ascese – quase como a do amor: a gente aceita e assume, porque ama; vai entendendo, depois.”

Essa afirmação ressoa profundamente, pois ouvir, no sentido mais pleno, não é apenas um ato de cognição, mas um gesto de amor e uma disciplina da alma. A escuta verdadeira não se dá apenas com os ouvidos, mas com a totalidade do ser, e exige de nós um compromisso raro: estar diante do outro sem pressa de responder, sem necessidade de julgar, sem a ansiedade de encaixá-lo em nossas próprias categorias de compreensão.

Isso me fez lembrar da distinção entre paixão, amor e amizade, que desenvolvi em meu artigo sobre a amizade:

✔ A paixão é um espelho – queremos ver no outro nossas próprias projeções, e por isso rejeitamos o que não compreendemos.

✔ O amor é um compromisso – ele exige entrega, mas também uma busca mútua de entendimento.

✔ A amizade é liberdade – porque nela a compreensão vem depois da aceitação, e não antes.

No amor, buscamos compreender para aceitar.

Na amizade verdadeira, aceitamos para, quem sabe um dia, compreender.

Essa inversão de ordem muda completamente nossa postura diante do outro. Ouvir, nesse sentido, não é um ato passivo, mas uma decisão ativa de permitir que o outro exista plenamente diante de nós.

 

Ouvir é esvaziar-se de si mesmo

A tradição oriental e a Cabala Judaica ensinam que o ato de escutar vai além da cognição – ele é uma prática espiritual, um exercício de autoesvaziamento.

Wu Hsin nos alerta que a mente humana está constantemente ocupada com sua própria voz interna, interpretando, julgando, distorcendo o que ouve. O verdadeiro ato de escutar exige que calemos essa voz e nos esvaziemos de nós mesmos para que o outro possa entrar.

A Cabala Judaica reforça essa ideia ao ensinar que a sabedoria nasce no silêncio e na escuta (shemá Israel – שְׁמַע יִשְׂרָאֵל – “escuta, ó Israel”). O verbo shemá significa mais do que simplesmente ouvir: significa absorver, permitir-se ser transformado pelo que é dito, acolher com o coração.

A escuta, portanto, não é um ato de poder, mas de humildade. Não ouvimos para afirmar nossa posição, mas para abrir espaço ao outro. Escutar não é apenas entender palavras – é permitir que o outro exista dentro de nós.

“Ouvir não é meramente receber informações, mas criar um espaço onde o outro possa ser plenamente.”

E talvez aí resida o grande desafio e a grande beleza da escuta verdadeira: só pode realmente ouvir quem está disposto a sair de si para encontrar o outro.

 

  1. A Essência da Amizade: O Elo que Une os Iguais

Você escreveu que “a amizade é o território onde a aceitação mútua floresce sem as pressões ou expectativas que frequentemente acompanham outras formas de relacionamento”.

Mas o que exatamente torna esse laço tão especial? O que sustenta essa conexão que faz com que certos vínculos se aprofundem enquanto outros jamais chegam a se formar?

A resposta, como nos ensinam tanto a filosofia clássica quanto a Cabala Judaica, está no compartilhamento de valores e virtudes. Não é um mero acaso que amigos se encontrem – há entre eles um elo essencial, uma sintonia que vai além da mera convivência e se enraíza na afinidade de princípios.

Aristóteles, em sua concepção de amizade na Ética a Nicômaco, distingue três tipos de amizade: por interesse, por prazer e pela virtude. Apenas a última é verdadeira e duradoura, pois se baseia no reconhecimento mútuo da bondade no outro. Ele afirma que os amigos virtuosos são “uma alma em dois corpos”, pois compartilham uma visão comum do bem. Esse pensamento ressoa fortemente na tradição judaica, onde o vínculo entre amigos é visto não apenas como uma afinidade emocional, mas como uma conexão espiritual profunda, um reflexo da unidade superior do universo.

Na Cabala Judaica, essa conexão é explicada pelo conceito de chavruta (חַבְרוּתָא), que significa tanto “amizade” quanto “parceria no estudo”. A palavra chaver (חָבֵר) significa “amigo”, mas sua raiz, chibur (חִבּוּר), significa “união, ligação”. Ou seja, a verdadeira amizade é mais do que um sentimento – é uma fusão de almas, uma ligação que se fortalece pelo compartilhamento de ideais e pela busca conjunta da verdade.

Essa ideia também encontra eco na máxima cabalística de que “os iguais se aproximam, os diferentes se repelem” (min ha’dome, dome; min ha’hefekh, hefekh – מין הדומה דומה, ומין ההפך הפך). Assim, não basta amar a humanidade para que sejamos amigos de todos os seres humanos. O amor universal pode nos levar a respeitar e acolher o outro, mas a verdadeira amizade só floresce onde há harmonia de valores e alinhamento ético.

Edgar Morin, ao falar sobre a complexidade das relações humanas, reconhece que o verdadeiro vínculo entre as pessoas não se dá pela uniformidade externa, mas pela coerência interna – pela comunhão de princípios que transcende as diferenças superficiais. Viktor Frankl, por sua vez, sustenta que o sentido da vida se revela nas conexões autênticas que estabelecemos, e essas conexões não podem ser impostas ou forçadas, pois emergem naturalmente da afinidade de propósitos.

Essa compreensão nos leva a um ponto essencial: amizade não é sobre quantidade, mas sobre qualidade. Podemos desejar o bem a todos, mas o laço verdadeiro se dá apenas com aqueles que compartilham nossa visão de mundo, nossos valores fundamentais e nossa busca pelo que consideramos justo e belo.

Assim, a amizade não é simplesmente um acaso ou um afeto espontâneo – é um alinhamento de almas, um pacto silencioso entre aqueles que enxergam o mundo sob a mesma luz.

 

  1. A Conversa Inacabada: O Chamado ao Diálogo

Você conclui dizendo: “Isso pede muita conversa, Jorge; o assunto me fascina. Seu pensar é certeiro, sim.”

E eu vejo, nesse chamado, um dos maiores aprendizados que Buber e Rosenberg nos deixaram: o diálogo nunca se encerra, pois é na continuidade da troca que nos tornamos plenamente humanos.

Se tudo fosse compreensível, a conversa seria desnecessária. Mas a natureza do encontro humano é justamente a de um mistério que se revela aos poucos, jamais de uma equação que se resolve. O outro nunca se esgota – e é por isso que seguimos conversando.

Hegel, ao estruturar sua dialética, nos ensina que a verdade não é um ponto fixo, mas um movimento contínuo, um processo onde cada ideia se refina pelo embate com o seu oposto. Edgar Morin, com sua visão transdisciplinar, nos lembra que o conhecimento não se dá em linhas retas, mas em redes, tecidas pela complexidade do real.

Já Wu Hsin e os mestres do pensamento oriental nos mostram que as palavras são mapas, nunca o território; são setas, nunca o alvo. O essencial não pode ser capturado, apenas indicado.

A amizade, assim como a comunicação verdadeira, é uma obra aberta, um diálogo que nunca chega a um ponto final, porque aquilo que é vivo jamais se cristaliza. É esse fluxo que nos mantém despertos, inquietos, aprendendo.

E que bom que seja assim.

Porque se a amizade é o território da liberdade, então o diálogo é a estrada infinita onde essa liberdade se exerce. Uma estrada que nunca se fecha, mas sempre se expande, sempre se renova, sempre se reescreve – assim como essa troca escrita e refletida entre nós.

Sigamos conversando, especialmente no texto, meu amigo. Pois há diálogos que não têm fim – apenas novos caminhos a serem traçados.

 

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Autor
Jorge Pinho

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