
O diálogo dos pensamentos do austríaco Martin Buber (esquerda) e o norte-americano Marshall Rosenberg (preto e branco) mostra como elevar o nível da comunicação
* Jorge Henrique de Freitas Pinho
A filosofia e a espiritualidade não nascem no vácuo. Não pertencem ao vazio. Elas se constroem como uma vasta cadeia, formando uma verdadeira teia interconectada, tal como a World Wide Web, onde cada pensador expande as ideias daqueles que vieram antes.
Se antes o conhecimento repousava exclusivamente nos livros, hoje ele se espalha pelos vastos meios digitais, tornando-se acessível a um número sem precedentes de pessoas. Mas será que o acesso facilitado significa compreensão aprofundada?
Independentemente da época e dos meios, é sempre nos ombros dos gigantes que podemos enxergar mais longe, aprofundando a compreensão da vida e do ser humano.
É sob esse viés que podemos construir um diálogo filosófico entre Martin Buber (1878-1965) e Marshall Rosenberg (1934-2015) – embora talvez nunca tenham trocado palavras diretamente, o pensamento de um ecoa no outro, conectando-se como um fio invisível que tece pontes e atravessa gerações. Daquilo que Buber lançou como uma visão profunda sobre a natureza do encontro humano, Rosenberg extraiu a essência e sintetizou um método prático e objetivo para sua aplicação na comunicação avançada entre os seres humanos, dando mais efetividade às reflexões de Buber, performando mais uma bela dança de ideias poderosas.
Minha jornada pessoal reflete esse caminho: ao estudar Cabala Judaica, deparei-me com Buber e fui profundamente tocado por sua abordagem espiritual, que une uma lógica impecável a uma compreensão transcendente da existência. Foi ele quem me abriu as portas para o Hassidismo Judaico, revelando-me a riqueza de um pensamento que vê a relação com o outro como um espelho da relação com o divino.
Anos mais tarde, influenciado por Lúcia Helena Galvão, conheci a Comunicação Não Violenta (CNV) de Rosenberg. Ao estudá-la, percebi algo surpreendente: embora Rosenberg não cite direta e expressamente Buber, ele o inclui na bibliografia de sua obra, o que permite concluir que a essência de sua abordagem já vem impregnada do pensamento buberiano. Esse reconhecimento despertou uma pergunta instigante:
Se o pensamento de Buber nos revela o poder do encontro, e a CNV de Rosenberg nos dá ferramentas para realizá-lo, como podemos aprofundar essa fusão para construir um diálogo verdadeiramente transformador?
É essa a questão que exploraremos a seguir.
O diálogo autêntico não é uma simples troca de palavras; é um encontro de essências. Ele não acontece quando falamos, mas quando realmente escutamos e nos deixamos afetar pelo outro.
Em uma era onde a comunicação adquiriu a velocidade dos mega-hertz, não se pode descuidar do fato de que, no mais das vezes, revela-se superficial e agressiva. Impõe-se, portanto, resgatar o verdadeiro diálogo não apenas por uma necessidade ética – mas fundamentalmente por uma necessidade existencial.
Ao me debruçar sobre os grandes pensadores da comunicação, vejo uma linha contínua de reflexões que vão de Aristóteles e Cícero, ao nos ensinarem a persuadir, passando por Wittgenstein e Saussure, que revelaram como a linguagem estrutura o pensamento. Mais adiante, McLuhan e Habermas analisaram o impacto dos meios de comunicação. Dentro desse vasto campo, há dois pensadores objeto deste artigo cuja contribuição considero essencial: Martin Buber, filósofo da relação humana, e Marshall Rosenberg, criador da Comunicação Não Violenta (CNV).
Embora tenham vindo de contextos e épocas diferentes, extrai-se do pensamento de ambos a certeza de que a qualidade de nossas relações define a qualidade de nossas vidas e, principalmente, que um encontro genuíno transforma os envolvidos.
Se há algo que Buber e Rosenberg nos ensinaram, é que comunicar não é apenas transmitir palavras – é criar encontros humanos.
Martin Buber propõe, no meu sentir com muita propriedade, que existem dois modos fundamentais de relação:
✔ Relação “Eu-Tu” – Quando nos conectamos ao outro como um ser vivo, único e irrepetível, sem reduzi-lo a uma função ou um meio para nossos fins. Aqui Buber reverbera ensinamentos estoicos dos quais se pode depreender e enfatizar a singularidade de cada indivíduo.
✔ Relação “Eu-Isso” – Quando tratamos o outro como um objeto, algo a ser usado, manipulado ou categorizado, o que é igualmente condenável sob a perspectiva estoica.
Na relação Eu-Tu, não há máscaras ou estratégias de controle – há presença real e reciprocidade. Fusão de almas. Esse encontro verdadeiro não deixa ninguém igual ao que era antes, pois algo de um fica no outro.
Marshall Rosenberg, por sua vez, criou a Comunicação Não Violenta (CNV) como uma ferramenta prática para não apenas possibilitar, mas conferir excelência a esses encontros. Segundo ele, nossa comunicação cotidiana foi criada em hábitos de linguagem que a tornam repleta de julgamentos, acusações e exigências, criando verdadeiras barreiras para o entendimento.
Para evitar isso, é preciso elevar o nível de comunicação. Algo semelhante ao que precisamos fazer para subir uma escada: vencer a resistência e se elevar para alcançar um nível mais alto.
Assim, a CNV propõe quatro passos essenciais para um diálogo autêntico:
✔ Observação – Focar nos fatos, sem julgamentos.
✔ Sentimentos – Expressar emoções sem culpar o outro.
✔ Necessidades – Revelar as necessidades profundas que motivam esses sentimentos.
✔ Pedidos – Fazer solicitações claras e respeitosas, sem exigências.
Se Buber ensina que o diálogo é um espaço sagrado, Rosenberg mostra como abrir esse espaço na prática, eliminando as barreiras que impedem o verdadeiro encontro.
Um ponto central une Buber e Rosenberg: o encontro genuíno, aquele que permite a fusão das almas pela síntese de ideias formuladas em um diálogo perfeito, não apenas transmite informações – ele transforma os envolvidos de maneira irreversível.
✔ Para Buber, um diálogo real altera quem somos, pois sempre carregamos algo do outro dentro de nós após um encontro verdadeiro.
✔ Para Rosenberg, a escuta empática e a linguagem não violenta constituem ferramentas propícias à construção desse espaço de transformação, permitindo que as pessoas se reconheçam e se afetem mutuamente.
O verdadeiro diálogo não é unilateral, mas recíproco. Não basta falar e ser ouvido; é preciso estar presente e permitir que a presença do outro nos toque e nos transforme. Mas não se impõe que essa presença seja necessariamente física, o essencial é que seja uma presença cognitiva, realizada no âmbito da própria alma, ou seja, aquilo que nos permite dialogar com os gigantes filosóficos que nos precederam ao lermos atentamente seus textos. Ou, em menor escala, aquilo que mais me agrada nos leitores, que é quando o que escrevo reverbera em suas almas, num diálogo interno, despertando suas reflexões sobre o sentido e o propósito de suas vidas…
A comunicação moderna nos treina para a lógica do Eu-Isso, uma visão utilitarista deturpada, na qual o outro deixa de ser um sujeito de encontro e passa a ser apenas um objeto de nossa argumentação.
Com efeito, ao aplicarmos essa lógica à comunicação, o outro se torna um meio, um instrumento, um recurso a ser explorado. O diálogo, que deveria ser um encontro, reduz-se a um cálculo de utilidade, onde cada palavra serve mais à persuasão do que à compreensão. Não buscamos entender, mas vencer. Não ouvimos, apenas esperamos nossa vez de falar – quando não atropelamos o outro com nossos argumentos, diante da incapacidade de conter nossas emoções.
Essa lógica não nasce do acaso. Ela é filha de um utilitarismo deturpado que, ao invés de buscar o bem comum, instrumentaliza tudo o que toca – como um Midas da modernidade, que transforma relações vivas em mecanismos frios de interesse.
A comunicação, outrora ponte, torna-se ferramenta; o outro, outrora mistério, reduz-se a função. Assim, as relações se transformam em transações, e a troca de ideias, em disputa de território.
Mas se reduzimos o outro a um “Isso”, não estaríamos, no fundo, reduzindo também a nós mesmos?
Se cada palavra dita é apenas um meio, se cada gesto serve apenas a um propósito, o que resta de genuíno em nós?
Um mundo onde tudo é apenas útil transforma-se, paradoxalmente, em um lugar onde nada tem verdadeiro valor.
Eis mais uma razão para o vazio existencial da modernidade, que, no meu sentir, decorre dessa instrumentalização de tudo – fruto de um utilitarismo deformado e de um materialismo histórico que reduz o espírito a mero reflexo das forças materiais.
A verdadeira dialética, impregnada na história do pensamento filosófico, não é um jogo de forças cegas, mas um diálogo eterno voltado ao desenvolvimento do espírito humano.
Hegel, longe de reduzir a dialética à matéria, via nela o motor do pensamento vivo, onde cada tese não é aniquilada, mas elevada.
Recuperar a lógica do Eu-Tu não é apenas um gesto ético, mas um ato de redenção. É lembrar que falar, e eu prefiro a expressão pela escrita, não é apenas transmitir, mas revelar-se. Que escutar, ou ler atentamente o texto do outro, não é apenas absorver, mas acolher. Que o verdadeiro diálogo, verbal ou escrito, não é uma arena, mas um espaço sagrado, onde dois universos se encontram – e, por um instante, tornam-se um.
Mas se reduzimos o outro a um “Isso”, não estaríamos, no fundo, reduzindo também a nós mesmos?
✔ Entrar no diálogo, escrito ou oral, com uma atitude Eu-Tu, vendo o outro como um ser humano, e não como um rótulo ou um obstáculo.
✔ Praticar escuta ou leitura ativa e empática, deixando de lado a necessidade de estar certo ou de responder rapidamente. Daí minha predileção pela escrita, principalmente, porque ela permite revisão e autorreflexão.
✔ Substituir julgamentos por observações concretas, e deixar de formular críticas para expressar ideias objetivas e sinceras apontando os sentimentos e as necessidades que pretendemos alcançar.
Perceba que há uma diferença entre sentir uma emoção e pensar sobre ela. Só de refletirmos sobre os nossos sentimentos, já avançamos um passo significativo em direção a uma melhor comunicação.
✔ Evitar a linguagem que desumaniza, buscando sempre a conexão antes da argumentação.
Aqui é território do respeito pela humanidade do outro. É preciso retirar o outro da relação Eu-Isso e o colocar na relação Eu-Tu.
A trajetória da comunicação humana é marcada por gigantes que nos ensinaram a convencer, estruturar, interpretar e ampliar nossa interação com o mundo. Mas, se quisermos transcender a mera transmissão de informações, precisamos aprender com aqueles que nos mostraram que a comunicação é, acima de tudo, um encontro humano.
Martin Buber e Marshall Rosenberg nos lembram que não basta falar, ou, no meu entendimento, simplesmente escrever, é preciso se conectar. Não basta argumentar, é preciso ouvir ou ler com presença e empatia. Não basta persuadir, é preciso encontrar o outro como um ser único e irrepetível, o que só se consubstancia na relação Eu-Tu.
Vivemos tempos de velocidade, polarização e ruído. Em meio a isso, a lição desses dois pensadores ressoa com ainda mais força: comunicar é reconhecer no outro um mundo tão vasto e profundo quanto o nosso, e, no verdadeiro encontro, permitir que algo de um permaneça no outro para sempre.
Se há um desafio fundamental para o futuro da humanidade, talvez seja este: transformar cada interação em um espaço de compreensão, onde as palavras não sejam armas, mas pontes. Onde o diálogo não seja disputa, mas descoberta. Onde a comunicação não apenas informe, mas transforme.
Pois, no fim das contas, somos tão humanos quanto a qualidade de nossos diálogos e dos nossos textos.
Lembrem que no princípio era verbo…
(João, I, 1).
(*) Ofereço este artigo a Tricia e especialmente aos nossos filhos Beatriz e Luiz Eduardo que ao crescerem e se desenvolverem lindamente nos ensinaram a importância de uma comunicação não violenta.