09/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

O dia da leseira

Publicado em 26 de janeiro, 2024

Por Felix Valois

Desde o dia 5 de setembro de 2000, há quase cinco lustros, portanto, está em vigor a lei federal com o emblemático número 10.000. Os brasileiros todos havemos de ter sentido já os efeitos benéficos do diploma, que, revelando profunda preocupação e cuidado meritório com os problemas que afligem a nacionalidade, dispõe, com precisão e clareza, no primeiro dos seus dois artigos: “É instituído o “Dia Nacional do Choro”, a ser comemorado no dia 23 de abril, data natalícia de Alfredo da Rocha Viana Junior, Pixinguinha”.

São Jorge, que no calendário católico é festejado na mesma data, há de ter tido sérias dificuldades para explicar ao seu cavalo como é que um outro, aqui na terra, conseguiu ofender a inteligência dos eqüídeos, não só parindo semelhante pérola, mas, ainda por cima, se intrometendo nos domínios do santo guerreiro.

Nada contra o Pixinguinha. Merece ele homenagens verdadeiras (pelo menos da parte de quem se cansou de ser agredido pelas duplas sertanejas). Não é justificável, contudo, que o Congresso Nacional, teoricamente repositório das esperanças do povo, perca o seu tempo e gaste o nosso dinheiro para aprovar uma tolice desse porte.

O pior é que a coisa faz escola nos mais variados matizes. Na Assembléia Legislativa de Minas Gerais, segundo o terra.com.br, um deputado apresentou projeto de lei, que visa a “impor a lei do silêncio para cães, após as 22 horas”. O autor, por certo, não quer a concorrência dos coleguinhas nas belas serestas que há de entoar nas madrugadas mineiras.

Um outro propôs a “criação de cartão de identificação para transexuais e travestis junto ao SUS”, devendo constar “o nome feminino adotado pela pessoa, a data de nascimento, dados da carteira de identidade original e uma foto atualizada, em trajes de gala”. Neste caso, o infeliz há de querer exibir para a plebe ignara seus luxuosos e parisienses modelos, recobertos de plumas e paetês.

Para não ficarmos confinados ao regionalismo, voltemos à Câmara Federal. Ali, um gênio da raça propõe que os presidiários, condenados a penas de 30 anos de reclusão ou superiores, sejam obrigados a doar um dos órgãos duplos (pulmão, rim ou córnea), além da medula ou um terço do fígado, para os necessitados de transplante. Se fosse prevista, também, a doação de parte do cérebro, o autor da proposta, mesmo condenado a mil anos, podia ficar tranqüilo que ninguém iria querer receber a sua inutilidade.

Há um projeto que proíbe animais ferozes, como leões, elefantes, girafas ursos e gorilas, em circos. Aqui, o palhaço não quer concorrência e pretende dominar o espetáculo inteiro.

Já se propôs a regulamentação da prática de brincadeiras como empinar papagaios ou pipas, assim como, no setor de homenagens, está prevista a criação dos seguintes Dias: “da Baiana do Acarajé”, “do Sacerdote da Cruz Vermelha Brasileira”, “da Gratidão”, “da Esperança” e “do Sono”.

O deputado Lincoln Portela (PSL-MG) justifica: “o dia da Baiana do Acarajé é específico para determinado grupo, mas o Dia do Sono todo mundo poderá comemorar e, além do mais, ele é ligado à saúde”.

Uma proposta modesta: instituam o Dia da Leseira, a ser comemorado no primeiro domingo de outubro, quando nós elegemos semelhantes figuras.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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