17/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Amazonino

Publicado em 19 de fevereiro, 2023

Por Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas 

Têm sido muitas, e por certo ainda o serão pelo menos por algum tempo, as homenagens a AMAZONINO ARMANDO MENDES, sentidas em sua grande maioria, certamente, algumas poucas convenientes, talvez, mas são vozes que se levantam, até em pranto, para falar do político mais importante deste tempo e nesta terra de Ajuricaba.

Ainda jovem, advogado e empresário do ramo imobiliário, Amazonino uniu-se a Gilberto Mestrinhoprimeiro governador eleito após a redemocratização do País, nos idos de 1982, em pleito que disputou com o jovem deputado Josué Cláudio de Souza Filho, hoje Conselheiro aposentado do Tribunal de Contas do Estadoe com  extraordinária capacidade política que demonstrou ao nosso Boto Governador,  como Gilberto ficou conhecido, o Caboco, que depois viria a ser o Negão, foi indicado para assumir a Prefeitura  de Manaus, com a exigida aprovação da Assembleia Legislativa, chegando ao Paço da Liberdade em 28 de março de 1983, para suceder o empresário João de Mendonça Furtado.

Amazonino levava para ali, nos primeiros passos do segundo governo de Gilberto – chefe do Executivo entre 1959 e 1963 e  que devolveu o leme a Plínio Ramos Coelho, afastados ambos da vida pública pela denominada Revolução de 1964boa experiência na política estudantil, que liderou desde o hoje chamado ensino médio, articulando a condução à presidência da União dos Estudantes Secundaristas do Amazonas, nossa UESA – em eleição disputada com Manoel Neuzimar Pinheiro, agoradesembargador aposentado de nosso Tribunal de Justiça –de TARCILA PRADO DE NEGREIROS, com quem viria a casar-se, sua companheira por longos anos,  que se faria advogada, juíza e desembargadora federal do Tribunal Regional do Trabalho e cujo nome atribuímos, em 2018, a escola estadual de tempo integral que construímos em Humaitá. E também foi líder na Faculdade de Direito da hoje UFAMuma das três primeiras escolas dessa espécie no Brasilno Diretório Acadêmico, contribuindo para  eleição de candidatos de Mário Haddad, depois deputado estadual e federal, como João Coelho Maciel, e na Associação Atlética, onde  fez oposição a Roberto Gesta, que viria a ser presidente da instituição mundial de atletismo.

No comando da Prefeitura que dispunha de parcos recursos financeiros previstos no orçamento municipal, o Negão criou solução ousada para a carência de escolas que atendessem às crianças dos primeiros anos de ensino, e construiu tendas, usando ferro e lona, em várias praças de Manaus, dotadas de condições para receber alunos e professores em aulas nos dois turnos do dia. Era a primeira e eloquente demonstração de sua preocupação com o direito do pobre à educação, que o acompanharia por toda a longa vida pública. Sua força de trabalho e a coragem política que sempre demonstrou terminaram por fazerAmazonino apoiado por Gilberto para disputar o governo do Estado, que assumiu a 15 de março de 1987, dali saindo para candidatar-se ao cargo de Senador da República e passando o timão estadual para o vice-governador, que fora deputado federal e professor de Direito Vivaldo Barros Frota, de quem fui Secretário de Justiça.

Na Prefeitura, Amazonino foi sucedido por Manoel Henriques Ribeiro, candidato apoiado por Gilberto, de quem era vice-governador e que em seguida foi vencido pelo Negão em sua pretensão de candidatar-se a sucessor de Mestrinho. Ribeiro foi eleito em 1985 na primeira eleição direta em Manaus para aquele cargo e permaneceu prefeito até quando, no exercício de seu primeiro  mandato de governador, Amazonino decretou intervenção municipal, levando ao comando da Prefeitura seu aliado e fiel companheiro Alfredo Nascimento, que mais adiante ele apoiaria para eleger-se Prefeito com a ajuda de Eduardo Braga.

Em 1 de fevereiro de 1991, o Negão assumiu o Senado da República, ao tempo  em que o Amazonas voltou a ser  governado por Mestrinho, eleito para segundo mandatoposterior à redemocratização, em verdade o terceiro, eManaus tinha como prefeito o ex-deputado federal Arthur Virgílio do Carmo Ribeiro Neto, com quem fui Procurador-Geral do Município e que derrotara Gilberto no pleito municipal. Logo depois, em 1992, Amazonino enfrentou nas urnas para o comando da Prefeitura o ex-deputado federal José Cardoso Dutra, que foi apoiado por Gilberto e por Arthur,  e, derrotando Dutra, renunciou  ao Senado, entregando o mandato a Gilberto Miranda,recebendo de Virgílio a direção do Município em 1 de janeiro de 1993. Naquele pleito, teve como candidato a vice-prefeito o jovem ex-vereador e deputado federalEduardo Braga, a quem entregou a Prefeitura em abril de 1994, desimpedindo-se para disputar, pela segunda vez e com igual êxito, o Governo do Estado, chegando novamente ao Palácio Rio Negro no primeiro dia de janeiro de 1995, tendo como vice-governador o ex-prefeitointerventor Alfredo Nascimento. Participei com ele dessa jornada exercendo o cargo de Secretário de Administraçãoe depois o de Administração e Gestão.

Em 1998, Amazonino disputou a reeleição, novidade garantida pela chamada Constituição Cidadã cuja elaboração teve a relatoria do deputado amazonense José Bernardo Cabral, promulgada em festa política histórica e singular pelo Congresso Nacional a 5 de outubro daquele ano presidida pelo Deputado Ulisses Guimarães. Era a primeira reeleição que por aqui se dava e dessa feita foi companheiro de chapa o ex-secretário de finanças do Estado, doutor Samuel Hanan, tendo como adversário o deputado estadual e radialista Nonato Oliveira, que depois assumiria a Secretaria de Ação Social de Amazonino para, ao final,  abandonar a política.

No exercício do segundo mandato de governador, o Negãocriou os centros especializados em saúde da criança, como os do idoso, o 3º Ciclo com que buscou desenvolvimento econômico alternativo à Zona Franca, construiu centenas de escolas e de postos de saúde em todo o Estado, além de hospitais, como o Francisca Mendes, o 28 de Agosto ou o João Lúcio, e delegacias de polícia na capital e nos 61 municípios interioranos, o que terá contribuído para o sucesso de sua mantenção rumo ao terceiro mandato,quando   teve como adversário o antigo aliado Eduardo Braga, ex-prefeito de Manaus. Naquele pleito, o Negão apoiou com sucesso a eleição de Gilberto Mestrinho para o Senado da República.

Em 1 de janeiro de 2003, entregou o governo estadual a Eduardo Braga, que apoiara como candidato, e na eleição que se seguiu, em 2006, disputou contra o  já ex-aliadoque terminou reeleito. Amazonino, então, foi disputar seu terceiro mandato de prefeito da Capital, derrotando o titular Serafim Fernandes Corrêa, que havia sido vereador e viria a ser deputado estadual. Em 2017, o ex-deputado José Melo de Oliveira teve cassado seu mandato de governador, que obteve em pleito disputado com Eduardo Braga, e o presidente da Assembleia, deputado David Almeida, assumiu o governo com o dever constitucional de convocar nova eleição. Foi o que permitiu a Amazonino chegar a seu quarto mandato de governador do Amazonas, o único de nossa História até aqui, que assumiu em 4 de outubro de 2017 e onde permaneceu até 31 de dezembro de 2018, derrotando Almeida que pretendeu reeleger-se. Fui, nesse governo, por ele convocado para dirigir a Secretaria de Educação.

No primeiro mandato, Amazonino criou o Instituto Superior de Estudos da Amazônia, que se compunha de representantes dos diferentes Estados da região e que chegou a ser dirigido por Luís Maximino de Miranda Correa. Com sede no prédio onde passou a funcionar o Teatro da Instalação, em Manaus, o ISEA não chegou a avançar significativamente na condição de embrião de uma universidade, centro de altos estudos e pesquisas como pretendia o governador que, retornando ao Executivo, constituiu, no segundo mandato, comissão incumbida de planejar a criação da Universidade do Trópico Úmido, quando contou com a contribuição de Randolpho Bittencourt, Aldemir Ramos e José Seráfico, dentre outros professores de nossa Universidade federal. Por motivo que desconheço, a ideia não avançou e o projeto nem mesmo chegou a ser encaminhado à apreciação da Assembleia Legislativa.  

Em 2000, fui por ele convocado a retornar à equipe de governo, de que Robério participava com extraordinário trabalho realizado à frente da Pasta da Cultura, cuidando da restauração de prédios históricos, principalmente do Teatro Amazonas, do Palácio Imperial, do Palácio Rio Negro e do Largo de São Sebastião, além de criarorquestras e festivais, como   o de Ópera que para aqui atraiu os olhos do mundo da música e das demais artes, e instituindo, por sugestão de José Braga, o Cláudio Santoro, escola de formação de músicos jovens que operou verdadeira revolução aqui e no Interior, principalmente em Parintins, para onde foi levado no governo de Omar Aziz – apoiado pelo Negão desde quando foi eleito vereador e Presidente da Câmara Municipal de Manaus, depois deputado estadual e vice-governador de Eduardoe que chegou a ter mais de 20 mil alunos no centro de artes que Amazonino ali construiu e que ficou conhecido como Bumbódromo, incentivando e exponenciando o maior festival folclórico de que se tem notícia, hoje conhecido em todo o planeta.

Fui chamado para implantar, com status de Secretaria de Estado, a Comissão Estadual de Licitação, onde fizemos do Amazonas o primeiro estado da federação a implantar a novidade do pregão como procedimento licitatório então em teste no governo federal. Pouco depois, sem prejuízo da responsabilidade com a Comissão, fui incumbido de assumir novamente a Secretaria de Administração, que  era também de Planejamento e Coordenação Geral, em virtude da saída, a pedido, de Isper Abrahim Lima, que foi integrar o corpo diretivo da SUFRAMA.

Foi quando tomei  conhecimento do entusiasmo de Amazonino com experiência de formação de médicos a que assistira em Havana, Cuba, inspirando-o a criar uma faculdade de medicina, o que também animava o doutor Wilson Alecrim, diretor do Hospital de Doenças Tropicais, respeitado aqui e alhures como instituição de pesquisa. E fui incumbido, juntamente com Vicente Nogueira, secretário de educação, Ruy Cantanhede, secretário particular, Robério, secretário de cultura, e José Pacífico, chefe da casa civil, de negociar com faculdades e universidades particulares a compra de vagas para servidores públicos e seus dependentes. Em uma manhã de sábado do final do ano 2000, o Negão reuniu em sua casa os secretários Vicente Nogueira, Francisco Deodato, Robério Braga, Ruy Cantanhede, João Coelho Braga, José Alves Pacífico e eu, e foi quando, sabendo da impossibilidade de comprar vagas nas instituições privadas e por nossa instigação, decidiu criar a Universidade do Estado, bem mais que a escola de medicina, desde logo determinando que deveria cumprir papel essencial de interiorização, conforme já registrei em artigo anterior. Foi  o que Pacífico e eu, incumbidos de elaborar o projeto, registramos, e a 12 de janeiro do primeiro ano do milênio o Negão sancionou a lei que autorizou  o Poder Executivo a criar a nossa UEA, o que se consumou por via de decreto assinado, em reunião sem qualquer pompa, a 2 de fevereiro seguinte. No dia 3, nomeou a mim para a missão de primeiro reitor, acumulando com a de secretário de administração e presidente da Comissão.

Essa, de entre tantas, é a grande obra de uma vidavencedora de quatro décadas na política, porque, como registrei no dia seguinte à passagem de Amazonino para outros planos da vida, é possível derrubar todos os prédios construídos, os viadutos, as passagens de nível, tudo enfim, mas, à maneira do que se dá com os formados pelo Cláudio Santoro, o que a Universidade construiu, e continua a fazer, na consciência de cada caboclo, de cada cabocla, de cada índio, de cada índia, que já ultrapassam os 70 mil diplomados, não há força humana capaz de destruir. É obra eterna.

Agora, chamado pelo Pai, segue em paz, meu irmão.

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Lourenço Braga

* Lourenço Braga é advogado, professor de Direito, ex-secretário estadual de Educação, exc-procur...

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