06/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Compromisso de poucos faz de conta de muitos

Publicado em 26 de maio, 2013

Uma das principais ferramentas de gestão é a que afere os resultados. Dela saem indicadores com a fotografia do momento e permitem ao gestor tomar decisões necessárias para corrigir inconformidades e definir caminhos.

Em meados da década de 1990, a área de educação brasileira a incorporou aos seus procedimentos. Hoje não faltam indicadores. Mede-se, praticamente, tudo. Da educação infantil à universidade essa ferramenta mostra o desfavorável quadro da educação brasileira.

Por qualquer medição que se faça mundo afora o País está sempre na rabeira. Uma lástima! Mas quando entra em ação o pessoal do marketing governamental a sensação é de desempenho extraordinário. Esses vendedores de ilusões embrulham avanços medíocres na melhor embalagem do sucesso e nos fazem acreditar que ao paraíso se chegará amanhã. Convencidos, nos acomodamos. Afinal, convencidos já fomos de que este é o país do futuro. Coisas do inconsciente coletivo.

Apesar disso não se pode negar que o avanço no diagnóstico ajudou a sociedade a tomar consciência da realidade do nosso ensino, embora não se mobilize para exigir as necessárias melhorias, como acontece de modo geral.  Há décadas a Nação caminha sem rumo, incapaz de encontrar o remédio que torne a educação um instrumento de contribuição ao nosso desenvolvimento, única forma de melhorar o nosso processo civilizatório.

O que está faltando? Um mistério! Quem está ou esteve no comando diz que o assunto é complexo e os resultados só podem vir no longo prazo. Enquanto isso, o sistema particular, que se abastece da mesma matéria prima, mostra avanços a cada avaliação. Mesmo no sistema público, como já se mostrou por mais de uma vez neste espaço, há ilhas de excelência, até mesmo nos distantes rincões do país, o que contradiz as vozes que vêm de cima.

Aqui mesmo no nosso Estado há exemplos fenomenais. Há professoras que por esforço próprio, descobriram e aplicam conhecidos remédios que o país teima em desconhecer. Nada complicado como se prega. Ao contrário, muito simples, de fácil aplicação e ao alcance de qualquer profissional: compromisso profissional.

Exatamente isto: compromisso profissional. Esse foi o ingrediente do remédio aplicado pela Escola Estadual Dom Bosco, para mudar um jogo que parecia perdido. Localizada na parte mais carente da periferia da cidade de Eirunepé, município pobre do rio Juruá a 1,2 mil quilômetros de Manaus, que vive da pesca e da agricultura precárias. Mais de 70% dos seus 340 alunos, do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental 1, recebem ajuda do programa Bolsa Família, o que já identifica a precariedade em que vivem. São pais sem preparo algum, sendo muitos deles analfabetos. A pobreza é tanta que alunos guardam parte da merenda para levar o que comer para os irmãos. Ou seja, uma cruel sentença de fracasso.

A média de 2,7 da escola no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), em 2005, era a confirmação dessa sentença. Felizmente, ao tomar conhecimento do resultado, a diretora Maria de Fátima Libânio não aceitou esse vaticínio. Inconformada, como todo empreendedor, reuniu sua equipe, analisou a situação e traçou alguns planos de ação a começar por aproximar as famílias da escola; promover a disciplina e implantar o reforço escolar. Este, com especial atenção aos alunos mais atrasados, programa que apelidou de “Brincando também se aprende”. Tudo dentro do conhecido figurino das escolas campeãs.

Pois bem, com essas iniciativas, em apenas quatro anos saiu da média de 2,7 de 2005 para 8,7 em 2009. Aconteceu o que a “Revista Escola” intitulou de “O Grande Salto”. Foi o maior crescimento jamais visto na história do Ideb. Com essa média foi a quarta melhor escola do Brasil naquele ano. Vou repetir: quarta melhor escola do Brasil dentre as mais de 38 mil que participaram do exame do Fundamental 1. Essa média é parelha com a das melhores escolas coreanas, finlandesas e de tantos outros países de ponta.

Há de se pensar que a “Dom Bosco” tem algumas condições favoráveis. Engano. Pela sua localização de logo se conclui que as adversidades são rotineiras. As aulas de reforço, por exemplo, são ministradas no contraturno, muitas vezes embaixo de uma frondosa árvore, por falta de espaço. Nesse horário, a merenda sai da contribuição dos próprios professores e de frutas trazidas pelos pais, que hoje são parte importante no processo educacional da escola.

A participação dos pais na educação dos filhos tem a capacidade de influenciar positivamente o desempenho dos alunos. Todos que militam na área sabem disto. Mesmo assim, em muitos casos, a única estratégia do sistema é reclamar que as famílias não participam. Entre o discurso e a ação foi interposta uma barreira que tem se mostrado intransponível. A barreira da inércia. Acredita-se no milagre de colher sem plantar. Espera-se pela iniciativa de pais despreparados, muitos dos quais nunca cruzaram a porta de um colégio para estudar, portanto, incapazes de compreender a sua importância no processo, mas, como se tem provado, são muito colaborativos quando mobilizados.

A esperança de avançar, na velocidade que o mundo exige hoje, reside apenas na iniciativa individual das, ainda, poucas professoras como a diretora Libânio. São professorinhas (no sentido carinhoso da palavra) que ao tomarem conhecimento do diagnóstico das suas escolas não se acomodam. Com os brios feridos vão à luta. Não acreditam nesse tal de “longo prazo”. Ao contrário, metem a mão na massa no aqui e agora, pois creem que o tempo é uma abstração humana e, como tal, pode ser construído pelos que vão à busca de vitórias consideradas impossíveis.

Há outros casos de sucesso no nosso interior. São cinco as escolas que no exame daquele ano se colocaram entre as 50 melhores do Brasil. Vejam bem: das 50 melhores 10% delas estão em longínquos municípios no longínquo interior do longínquo Estado do Amazonas (perdoem a repetição). E é bom dizer: estão na primeira metade das 50. Mais ainda: 6% delas “São José” (sexto lugar), “N. S. de Guadalupe” (décimo terceiro lugar) e “Zulmira Lins” (vigésimo sexto lugar) estão no Município de Fonte Boa. As outras são a já mencionada escola “Dom Bosco” e a “Balbina Mestrinho” (vigésimo lugar) de Novo Airão.

No artigo “Basta atravessar a rua” me estranhava muito que os casos de sucesso de escolas ficavam escondidos, mesmo nos pequenos municípios onde todos se conhecem, o que tornaria mais fácil a troca de experiências. Em Fonte Boa parece não ser assim. Os resultados indicam que há uma grande interação entre as escolas da rede estadual, pois, das suas cinco escolas, três ficaram entre as 50 melhores do Brasil. É um feito extraordinário.

Enquanto isto, na cidade de Manaus o ensino é muito incompatível com a renda e o desenvolvimento da cidade. O secretário Pauderney não terá tarefa fácil para mudar esse jogo. Quem sabe fosse o caso de mandar ver o que acontece em Fonte Boa. Prestigiar a sua conterrânea de Eirunepé seria, também, uma boa prática, afinal, ela já sabe como ganhar um jogo, praticamente, perdido. E já faz tempo que a rede municipal vem perdendo.

Ambos os casos, aliás, são exemplos para o Brasil. Eles, talvez, pudessem mostrar que só o compromisso profissional pode remover o conhecido “faz de conta” que se pratica na grande maioria das escolas brasileiras.

Para o Blog do Marcos Santos – maio de 2013.

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Autor
Francisco Cruz

* Francisco R. Cruz é empresário e trabalhou muitos anos na área de tecnologia e, entre 2001 e 20...

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