
Ouro no Amazonas, retirado do rio em dragas como essa (foto), foi apreendido no Careiro da Várzea e resultou na prisão do titular da Inteligência no Amazonas
Numa tarde modorrenta, dia 25/01/2021, por volta das 13h, um Jeep Troller azul foi abordado por 16 homens. Acabara de atravessar os rios Negro e Solimões na balsa da Ceasa. Trafegava na rodovia BR-319, a caminho de Porto Velho. Já havia passado a barreira da Polícia Rodoviária Federal (PRF), no Careiro da Várzea. Eram policiais que, alegando possível tráfico de drogas, revistaram o carro e encontraram 38,581kg de ouro, em 52 barras, avaliados em R$ 10,928 milhões. O portal teve acesso a outros detalhes da trama.
A partir daí se desenrolaram diversas investigações. A Polícia Civil, por exemplo, fez o Inquérito Policial 039/2021-10, do 10º DIP, sob responsabilidade do delegado Denis Alves Pinho. O Ministério Público do Amazonas (MPAM) e a Polícia Federal (PF) fizeram a Operação Ouro Urbano. Ocorreram várias prisões. A principal delas foi a do secretário executivo-adjunto de Inteligência (Seai) do Amazonas, delegado Samir Freire.
O carro era dirigido por José Franciney da Costa, com escolta do coronel PM da reserva Daniel Picolotto Carvalho. Picolotto negou, afirmando que contratou Ney para ir buscar a sogra, com suspeita de Covid-19, em Humaitá. O autor da denúncia, Heliomar Moura Ribeiro, porém, disse que o coronel aposentado fazia o transporte há um ano e nunca tivera problema. Heliomar é sócio do proprietário da draga Mistureba, que garimpou o ouro no rio Jutaí, Raimundo José Cruz Junior.
Picolotto, segundo Heliomar, teria ficado com o documento que autorizava o transporte legal do ouro.
O enredo novelesco continua quando Picolotto e Franciney foram levados até a sede da Seai, no shopping Via Norte. Interrogados separadamente, na saída, o PM assinou um documento afirmando que recebeu todo o ouro de volta. No dia seguinte, ele ligou para Heliomar, marcou encontro na Cavalaria da PM e devolveu apenas 11 das 52 barras. O encontro foi testemunhado pelo cunhado de Heliomar, José Siqueira Neto.
A PF teria entrado na investigação poucos dias depois. Tanto que Daniel Picolotto disse a Heliomar que estava indo à sede da PF no dia 28/01, três dias após a apreensão e sumiço do ouro. Policiais suspeitam que, pressionado, ele teria fornecido os elementos para a continuação da investigação.
O esquema de desvio de ouro estaria ocorrendo há muito tempo e já teria subtraído em torno de 600kg, segundo uma fonte policial. O problema é que a apreensão do Careiro da Várzea foi de ouro legal. Os envolvidos não contavam que os proprietários apresentariam documentos do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) e Permissão de Lavra Garimpeira (PLG) da Agência Nacional de Mineração (ANM). E que exibiriam contrato de parceria com a Cooperativa dos Garimpeiros da Amazônia (Coogam), que trabalha no leito do rio Jutaí, no Município de Jutaí (AM).
A draga Mistureba é registrada junto à Marinha do Brasil e a única autorizada a trabalhar na área do contrato. Toda a produção tem que ser vendida, obrigatoriamente, em Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM).
O titular da Seai, delegado Samir Freire, está preso e custodiado na Delegacia Geral da Polícia Civil do Amazonas. A prisão temporária dele foi de 30 dias. Trata-se do maior período dessa modalidade de prisão, que pode ser de 5 a 30 dias.
Samir foi preso na Operação Garimpo Urbano, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MPAM. O Gaeco pediu ajuda da PF para executar quatro mandados de prisão e outros de busca e apreensão, para evitar vazamentos.
Entre outras coisas, a PF teria feito um backup, isto é, copiado todos os dados, do equipamento conhecido como Guardião. É ele que executa os mandados de escuta telefônica no Amazonas. O backup abrangeu todo o período da gestão de Samir, à frente da Seai.
A Operação Garimpo Urbano deverá ter novos desdobramentos, nos próximos dias.
Veja mais notícias em Geral