
Epicentro da segunda onda, em janeiro Manaus acumula 28,7% de todas as mortes na pandemia. Foto: Michael Dantas
Ao passar a barreira das 7 mil mortes pela Covid-19, o Amazonas segue o cenário pior do que o visto na primeira onda da pandemia e como o Estado exemplo de maior gravidade da doença no Brasil. Todos os recordes vistos em 2020, em número de casos por dia, de mortes em 24h e internações foram batidos, alguns com números assustadores.
Cenas de desespero de equipes médicas em busca de oxigênio no dia 14 de janeiro vão ficar no registro, memória e lembrança de médicos, intensivistas e de todos que perderam, naquela data, alguém para a luta para o vírus ou por falta de O2. E continuamos com maior demanda de oxigênio do que a produção, mas o socorro chega de vários lugares do Brasil, de anônimos, empresas e artistas, por ar e por terra.
Manaus é o epicentro da segunda onda e até ontem somente a capital tinha o registro de 4.746 óbitos confirmados em decorrência do novo coronavírus. No interior, são 61 municípios com óbitos até o momento, totalizando 2.305. Em meio a corrida desesperada por O2, os óbitos seguem bastante altos na cidade em janeiro.
A capital amazonense teve sua primeira morte confirmada por Covid no dia 24 de março de 2020, oito dias depois de ter o primeiro caso confirmado. As 1.366 mortes registradas na cidade até ontem correspondem a 28,7% durante toda a pandemia, mais de 1/4, ou 19,3% de todo o Estado no mesmo período.
Na cidade-metrópole, que sente os efeitos mais devastadores da Covid, o número alto é facilmente percebido no trabalho incansável dos coveiros que seguem abrindo covas, com escavadoras. A terra vermelha faz divisa com a floresta e já quase não resta espaço em um dos maiores cemitério públicos. A segunda onda e seu impacto de tsunami desmente as teorias de imunidade de rebanho propagada há meses, inclusive com artigos científicos. A realidade bate de frente com os números.
Em Parintins, o médico Daniel Tanaka, à frente do Hospital Jofre Cohen durante um dos períodos mais críticos da pandemia, entre março e abril do ano passado, esteve nos dois lados: na linha de frente do enfrentamento para atender e salvar vidas e como paciente, contaminado pelo vírus e tendo uma reinfecção.
Ainda no enfrentamento, apenas com uma pausa para cuidar do pai, contaminado, para ele o principal fator da explosão no Amazonas foi o excesso de confiança de que a pandemia estava sob controle.
“A população tende a diminuir as precauções de contato quando o Estado flexibiliza as atividades. Há uma confusão indissociável na mentalidade das pessoas. Elas passam a raciocinar que a reabertura das atividades não essenciais configura menor perigo de transmissão, menor risco. No entanto, sabemos que a flexibilização leva em conta um controle dos dados de internações e taxas de ocupação em UTI, e tenta se equilibrar esses dados com a necessidade de reaquecimento da economia, visando um menor prejuízo financeiro à sociedade”, comenta.
É como se fosse uma equação triste, onde se coloca em xeque a possibilidade de aumento de contágio enquanto o sistema de saúde aguenta. “Nada tem a ver com menor risco de contaminação. E as pessoas tendem a achar que a situação voltou ao normal, e se arriscam. São presas fáceis assim, iludidas com a esperança de que o problema já está sendo resolvido”.
Hoje o Amazonas tem a maior taxa de transmissão da Covid no Brasil, em 1,3, o que significa dizer que cada 100 doentes podem contaminar outras 130 pessoas. O médico diz que essa falsa impressão de segurança levou muitas pessoas a se reunirem no final do ano, nas festas, após tanto tempo que algumas passaram em isolamento e com restrições. “Pagaram para ver mesmo que de maneira inconsciente. O resultado é a tragédia anunciada de janeiro, o mês pós festa”.
Além dos números, a questão crítica do Estado é a logística de dependência de insumos e, nesse momento o de oxigênio medicinal. “Se não seguir uma verdadeira força tarefa de escala nacional, para ajudar o Amazonas, a mortalidade vai ultrapassar um cenário de guerra. Não houve planejamento estratégico para essa crise. Desde o início a tendência foi minimizar a magnitude da pandemia. E veio a maior apreensão de não se saber se teremos oxigênio para deter mortes evitáveis”.
As mini usinas de oxigênio são um suspiro, mas com o alto consumo do produto e a demanda crescente de doentes, o abastecimento corre o risco de ficar refém e não ter O2 na mesma escala. Profissionais são castigados na linha de frente com a dúvida ou uma necessidade de precisar racionar oxigênio ou até mesmo vê-lo acabando.
Sobre mutações e novas cepas, Tanaka afirma que a pressão genética é esperada, especialmente após mais de 10 meses de circulação viral maciça. Algumas podem ser menos virulentas, outras mais agressivas, rápidas e letais. No Amazonas, não é incomum ouvir médicos comentando sobre a alta transmissibilidade na segunda onda e com muitos óbitos de jovens, alguns sem comorbidades. Na primeira onda, observou-se excesso de mortalidade geral com a progressão da idade, especialmente em indivíduos com 60 anos e mais, os quais concentraram 69,1%, conforme dados da Fiocruz.
“Temos jovens intubados, graves. Um cenário diferente do início, mas temos que levar em conta que a explosão das contaminações de fim de ano contribuíram para que pacientes com alguma suscetibilidade ainda não esclarecida (sem fatores de risco evidentes, como obesidade por exemplo) começassem a aparecer aos montes nos pronto-socorros. E alguns infelizmente tiveram suas vidas ceifadas pelo vírus”.
Tanaka alerta que todo cuidado é pouco e a irresponsabilidade diante deste cenário pode cobrar um preço alto demais. Manaus, mais uma vez, como ocorrido em meados de maio a junho do ano passado, se destaca como epicentro da pandemia no âmbito nacional. A diferença é que a situação está mais crítica e o sistema colapsou rapidamente.
“E todo o Estado depende justamente da capital. O processo de regionalização do Estado, com a formação de regiões pólo, ainda é uma promessa. A logística de encaminhamentos de pacientes deu um passo muito importante, ficou muito mais organizada. Porém, o investimento de alta complexidade com destinação a tais cidades pólo, como é o caso de Parintins, ainda não se estruturou”.
Sem leitos de UTI disponíveis fora de Manaus, quando a capital colapsa, o efeito dominó é brutal no interior. “Com as medidas de contingenciamento decretadas, tanto estadual como no âmbito municipal, se houver respeito e, principalmente, fiscalização ostensiva, talvez possamos almejar um cenário menos caótico nas próximas semanas, até fevereiro. Senão vamos enxugar gelo nos hospitais”.
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