05/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

IEA

Publicado em 11 de novembro, 2012

O Instituto de Educação do Amazonas completou cento e trinta e dois anos. Profícua existência. Frequentei o imponente casarão do cimo da avenida Eduardo Ribeiro desde o longínquo ano de 1948, quando, com cinco de idade, ingressei no Jardim da Infância do Grupo Escolar “Princesa Isabel”, que, anexo ao Instituto, funcionava na parte térrea do edifício. Ali cursei até a quinta série do primário, passando por professoras da melhor qualidade, como dona Olga Rocha e dona Neuza Lemos, sem esquecer as sabatinas, as tabuadas e a palmatória, com a qual éramos gentilmente lembrados de que escola foi feita para ensinar, com a contrapartida da necessidade de aprender.

Tempos em que o livro-texto “Nosso Brasil” passava de irmão para irmão, sem necessidade de satisfazer uma lista infindável de material escolar, incapaz de ser suportada por uma família de classe média. Não havia “bolsa” de coisa nenhuma pela simples razão de que o ensino público funcionava. Também não existia essa coisa absolutamente estúpida de que não se pode reprovar. Não estudava, não passava, era a equação simples a orientar o ensino, sem a exigência de estatísticas de aprovação, mera fórmula artificial de comprovar uma suposta boa qualidade da escola.

Pois muito que bem. Já em 1954, subi as escadarias e me tornei aluno do Instituto propriamente dito, orgulhosamente frequentando o curso ginasial. Não sem antes, é claro, me submeter ao “exame de admissão”, espécie de micro vestibular a que eram submetidas as crianças. Apesar da pouca idade dos “vestibulandos”, nunca se viu nas provas nenhuma resposta genial como a fornecida por um cliente do ENEM: “As estrelas servem para esclarecer a noite e não existem estrelas de dia
porque o calor do sol queimaria elas”. Galileu iria à loucura e, por certo, se deixaria queimar por tamanha estupidez, como, aliás, era forte desejo da Inquisição.

No ginasial, estudávamos (como isso parece distante!) latim. Os professores Lúcio Cavalcante e Miguel Duarte (não esquecendo o professor Agenor Ferreira Lima) eram os responsáveis pela transmissão dos conhecimentos básicos da língua-mãe. Hoje, se se falar em latim para um estudante do ensino médio, ele há de pensar que está sendo ofendido, imaginando uma alusão à “voz do cão e de alguns canídeos”. O estudo do latim foi simplesmente banido da grade curricular, assim como o foi a filosofia, considerados, talvez, supérfluos pelo Ministério da Educação, ávido em preparar gerações para um bom desempenho no Big Brother.

Matemática, pelo menos no meu caso, ficava a cargo da professora Iza Brito, que, sem refrescar, brindou com uma sonora e humilhante nota “três” minha reconhecida e insuperável ignorância na ciência dos números. Agradeço a ela. Sem nunca ter conseguido superar totalmente essa incompatibilidade, pelo menos compreendi que, para seguir em frente, era indispensável estudar mesmo aquilo que nos parece esotérico e incompreensível.

A língua portuguesa era função do professor João Chrisóstomo de Oliveira. Dedicado mestre. Suas aulas não se limitavam à exposição de regras e modismos gramaticais, por isso que eram muito mais profundas. Quantas vezes me vi tendo que elaborar, em cartolina, um quadro de radicais gregos e latinos! Era uma forma mais que eficiente de fixar no aluno as origens da língua, permitindo-lhe compreender a etimologia e o significado das palavras. Professor Chrisóstomo criou os “Grêmios de Estudo e Defesa da Língua Pátria – GEDELPA”, constituídos por alunos e que tinham inclusive seus mini jornais mimeografados, abordando temas de interesse do vernáculo.

Geografia era com a professora Mirtes Trigueiro e História, território ocupado pelo professor Armando Menezes e pela professora Neuza Ferreira, enquanto as Ciências Naturais tinham o comando da professora Nazaré Nogueira e do professor Garcitylzo do Lago e Silva. Não posso deixar de mencionar o ensino do francês, com a ternura da professora Liberalina da Veiga Weil. Eram todos responsáveis, todos dedicados. Eram professores.

Na direção, no início, a austera figura da professora Eunice Serrano Telles de Souza e, ao depois, a simpatia da professora Lila Borges de Sá. Com a primeira, pouco convivi, já que a aposentadoria a levou ao afastamento. Dona Lila me ficou mais na memória. Ela e sua tia, a professora Vivizinha, tentavam que compreendêssemos os rudimentos da música, numa cadeira há muito desprezada e que se chamava Canto Orfeônico.

Velho Instituto! Tenho-te saudades. Contigo aprendi os fundamentos da educação e a ti devo lembranças que a passagem do tempo consegue enevoar, mas não suprimir. Quantas gerações te devem o mesmo! Que continues para sempre.

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.