Por Felix Valois
Catarina Bianca, de dez anos, interrompe minha leitura: “Vô, quem é Flávio Vorcaro?” Surpreso com a pergunta, respondi: “Princesinha, já ouvi falar de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. São pessoas diferentes”. A réplica: “Pois é, vô, mas eu acabei de ver na televisão esse Flávio chamando o outro de irmão. Os irmãos não têm o mesmo sobrenome?” A impecável lógica infantil me conduziu a outro patamar. Disse, então, que deveria ser uma fraternidade de novo tipo, não necessariamente sanguínea. O Daniel, ao que consta, gosta de amealhar, para si próprio, coisas alheias. Com essa atividade levada ao seu mais elevado conceito, ficou rico. Acho que milionário seria o termo mais adequado. Nadava em dinheiro, usufruía do que há de melhor no universo capitalista e se auto intitulou “banqueiro”. É verdade. Tinha um tal de banco Master, que enganou dezenas de milhares de pessoas. Tantas aprontou o Daniel, no terreno das falcatruas, que acabou preso.
O Flávio, por seu turno, conquanto da mesma laia, tem um “modus operandi” um pouco diferente. Quando era deputado, por exemplo, ficava com metade dos salários das pessoas que empregava em seu gabinete. Esse golpe, rasteiro e infame, lhe valeu a alcunha de “Rachadinha”, pela qual é internacionalmente conhecido. Agora, que é senador, seu comportamento não é, na estrutura, muito diferente. Como tem o desplante de pretender disputar a presidência da República, foi aos Estados Unidos e, num servilismo canino, e imitando Calabar, prometeu ao troglodita de lá que, se eleito, entregará de mão beijada todas as riquezas nacionais.
A criança encerrou a conversa, utilizando a linguajar que emprega para caracterizar as personagens de suas historinhas: “Vovô, eles são do mal”.
Quem sou eu para discordar da minha adorável Pequerrucha! Até porque, na verdade, o mal, o ódio, a estupidez, a ignorância e a sandice têm sido as fontes preferidas aonde essa gente vai buscar alimentos para sustentar sua cruzada anti-Brasil. Começou nos idos de 2018, quando a direita brasileira cometeu a asnice de eleger o mais estúpido de seus membros para governar o país. Não é possível que inexistisse alguém, nas hostes reacionárias, um pouco acima daquela abjeta figura que, por quatro anos, conseguiu fazer o Brasil ser ridicularizado no plano internacional. Internamente, deu causa à morte de centenas de milhares de compatriotas, pela maneira irresponsável com que conduziu a política de saúde durante a pandemia. Insatisfeito com a derrota eleitoral, urdiu um golpe de estado. Deu com os burros n’água e, agora, não consegue sequer se comportar com dignidade diante da pena de prisão que lhe foi imposta, como castigo por alguns dos delitos cometidos.
Eis senão quando surge nova ameaça, representada pela pretensa candidatura do primogênito do hediondo Jair. Era só o que nos faltava. O herdeiro nada fica a dever ao pai em termos de boçalidade. Mas há que reconhecer seu hercúleo esforço para suplantar o progenitor. Basta ver essa palhaçada do tal filme longa metragem, com o qual, parece, querem redimir a figura do cafajeste. E foi exatamente nas tratativas para o financiamento dessa produção hollywoodiana que aflorou o vínculo fraternal entre Flávio e Daniel. Ambos desonestos, ambos indignos. Nada mais natural que se procurem: são areia da mesma caçamba. A verdade é que o vocábulos “bolsonaro” e “vorcaro”, além de servirem para uma rima bem vagabunda, passam a integrar a sinonímia de “ladrão” e “meliante”.
“Brava gente brasileira”, mais do que nunca é hora de ativar os alertas de proteção contra a maldade. Os Bolsonaro já mostraram (e continuam mostrando a cada dia) o que são. Se tem razão o ditado de que “errar é humano”, também há de ser verdadeiro que repetir o erro escapa a qualquer tolerância de racionalidade. Mesmo porque, ainda me valendo da sabedoria popular, “gato escaldado tem medo de água fria”.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...