
Moro deixa celular na PF para provas contra Bolsonaro, com quem parecia ter aliança sólida, mas se tornou desafeto. Foto: Agência Brasil
Sérgio Moro, ex-juiz federal e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública (MJSP), deixou o próprio celular na Polícia Federal (PF). Quer que o aparelho seja usado como prova contra o presidente da República, Jair Bolsonaro. É lá que estão as mensagens trocadas entre ministro e presidente. O depoimento do ex-ministro, na íntegra, foi revelado esta terça (05/05), pelo repórter Caio Junqueira, da CNN Brasil.
O ex-ministro falou aos delegados federais Christiane Correa Machado e Wedson Cajé Lopes. Ela é chefa e ele integrante do Serviço de Inquéritos da Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado (Dicor). O ato ocorreu na Superintendência da PF em Curitiba (PR). Moro se apresentou espontaneamente, após determinação nesse sentido do ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal de Justiça (STF).
Os procuradores da República Antônio Morimoto Júnior, Herbert Reis Mesquita e João Paulo Lordelo Guimarães Tavares acompanharam o depoimento.
A maior evidência da íntegra do depoimento é a falta de um motivo para as oito horas de duração. O País ficou na expectativa de algo bombástico, mas Moro só confirmou o que já havia dito na saída do ministério.
Ratificou, por exemplo, que Bolsonaro pediu para indicar o superintendente no Rio de Janeiro, tirando Ricardo Saad, e o diretor-geral da PF, saindo Maurício Valeixo. Disse que a finalidade das declarações, na saída, foi preservar a PF e impedir “substituição sem causa”.
Moro negou ter afirmado que o presidente Bolsonaro cometeu crime e disse que quem afirmou foi a Procuradoria Geral da República (PGR). A avaliação desse mérito, segundo o depoimento, cabe às autoridades competentes.
Afirmou também que o presidente da República, em momento algum, pediu relatórios de inteligência que subsidiavam investigações policiais. Disse que nem ele, nem o delegado-geral Valeixo, “jamais violariam sigilo de investigação policial”. Lembrou que Bolsonaro tem acesso aos tais relatórios, via Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin) e Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Na prática, afiançou, o presidente nunca pediu relatório específico.
Moro e Valeixo teriam concordado com a substituição no Rio de Janeiro, mas não gostaram quando Bolsonaro deu declaração pública dizendo que a substituição se deu “por produtividade”. A PF emitiu nota defendendo Saad e Moro afirma que os dados objetivos de produtividade desmentem o presidente.
O substituto no RJ, Carlos Henrique, teria sido escolhido pela própria PF. O presidente, segundo Moro, chegou a dizer que “quem manda” é ele e o escolhido seria Alexandre Saraiva.
Desde janeiro, o presidente havia indicado Alexandre Ramagem, depois outros dois nomes, para delegado-geral. Moro achou que os demais indicados não eram qualificados e Ramagem muito próximo da família Bolsonaro.
“Moro você tem 27 Superintendências, eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro”, teria dito Bolsonaro, em mensagem pelo WhatsApp, quando o ex-ministro estava em viagem oficial a Washington.
O agora desafeto de Bolsonaro, porém, nega que o presidente tenha tido qualquer interferência em inquérito da PF no RJ. Mas relata reclamações quanto ao superintendente de Pernambuco. Negou que as trocas estivessem relacionadas a operações da PF contra pessoas próximas ao presidente ou de seu grupo político.
Moro demonstra, claramente, que ficou chateado com o pito recebido durante a reunião ministerial do dia 20 de abril. “O presidente afirmou que iria interferir em todos os Ministérios”. “Quanto ao MJSP, se não pudesse trocar o Superintendente do Rio de Janeiro, trocaria o diretor-geral e o próprio ministro da Justiça”. São trechos do depoimento publicado pela CNN Brasil.
O ex-juiz federal ressaltou que reuniões ministeriais são gravadas. E lembrou que o presidente, semana passada, ameaçou divulgar um vídeo contra ele, Moro, em uma dessas reuniões.
O ex-ministro conta, no depoimento, que relatou conversa ríspida com Bolsonaro aos generais palacianos Ramos, Heleno e Braga Netto. Eles prometeram tentar demover o presidente da demissão dele, Moro, que tinha esperança de Bolsonaro voltar atrás.
Os três generais chegaram a sugerir o nome de Disney Rosseti, indicado anteriormente por Bolsonaro, no lugar de Alexandre Ramagem, para diretor-geral da PF. Moro confessa que aceitou, mas, logo em seguida, a demissão de Valeixo foi publicada no Diário Oficial.
A demissão do ex-delegado-geral foi feita sem autorização do delegado, acusa, embora tenha sido publicada como “a pedido”. E que também não levou a assinatura dele, Moro, mesmo tendo ocorrido um dia antes da saída do agora ex-ministro da Justiça.
Outra acusação de Bolsonaro, que falou depois de Moro, no dia da demissão, é de que o ministro fez “corpo mole” na investigação de Adélio Bispo. Trata-se do autor do atentado contra o presidente, ainda em campanha, em Juiz de Fora (MG).
Um relatório, que teria sido apresentado ao presidente por Moro, Valeixo e o superintendente da PF em MG, desmente o tal “corpo mole”. “O crime não foi elucidado por decisão judicial que não permitiu examinar o celular de Adélio”, diz o texto. Moro afirma que pediu ao ministro-chefe da Advocacia Geral da União (AGU), André Mendonça, que levantasse o óbice judicial.
O depoente deixou registrado um lamento “por ter repassado mensagens privadas, no WhatsApp”, mas era “para se defender das declarações do presidente de que mentiu”.