13/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Jurados chegam. Serão confinados. Só saem para julgar festa de R$ 30 milhões

Publicado em 23 de junho, 2011

Marcos Santos, Manaus – Eles ainda não sabem, mas, a partir de agora, estarão mais vigiados que presidiários de penitenciárias de alta segurança. O momento mais tenso do Festival Folclórico de Parintins, que consiste em “pegar no laço” nove “especialistas em folclore”, em Estados sorteados alguns dias antes, convencê-los a viajar para a Ilha Tupinambarana e deixar nos representantes do “boi contrário” a impressão de que são “neutros”, chegou ao fim na tarde desta quinta-feira, por volta das 18h.

Uma multidão se acotovelava no aeroporto Júlio Belém. Integrantes de Garantido e Caprichoso, sob o comando dos presidentes Telo Pinto e Márcia Baranda disputavam cada fresta do olhar dos ungidos. Um forte esquema de segurança foi armado para evitar que essas frestas existissem.

Para frustração geral – embora isso se repita todos os anos – o grupo entrou num micro-ônibus e saiu pelo portão lateral do aeroporto Júlio Belém, sob escolta da PM, direto para a “Casa dos Jurados” – que precisa ser grafada com alta e baixa, por favor –, no bairro Santa Marta.

Celiene Pedroso, pelo Garantido, e Marlessandra Fernandes, ex-cunhã-poranga, pelo Caprichoso, farão o primeiro turno de vigília dos presidi…, digo, dos jurados, mas serão substituídas ao longo dos três próximos dias, enquanto durar o confinamento. Eles só podem sair, direto para o Bumbódromo, para julgar o espetáculo de mais de R$ 30 milhões, entre investimentos públicos e privados.

Não seria melhor se essa papagaiada toda não existisse? Se os jurados fossem conhecidos desde sempre e tivessem que dar satisfação, no dia seguinte, se fizessem alguma barbaridade, como tem sido comum na história da festa? Como é que alguém submete uma tradição do tamanho do Festival de Parintins a um grupo de desconhecidos que, por mais iluminado que seja, pego assim de supetão, jamais conseguirá entender o significado mais profundo dos bumbás, justamente o que há de mais caro para os parintinenses? E como alguém pode vibrar com uma vitória construída por alguém que julgou dando todos os pontos para si e nada para o outro, numa festa em que os dois são tão iguais?

O fanatismo justifica coisa demais. Uma vez, vi um sujeito comemorando porque ganhou em seu item, após receber nota 10 de um jurado que deu 0 para o concorrente. Pergunta que não quer calar: existe algum item no boi bumbá que mereça derrotar por essa margem o oponente? Nem o consagrado David Assayag, enfrentando o inexperiente Sebastião Júnior, ano passado, conseguiu esse feito. Mas já existiu e não duvido nada que volte a existir barbaridades assim.

A ideia que vem sendo defendida, e rechaçada, anualmente, para tornar mais transparente o julgamento, é que se forme um grupo de jurados, entre pessoas notáveis e honradas, de Manaus e Parintins, para remunerar – sai mais barato que essa correria louca, que não pode se dar ao luxo de poupar gastos com “coisinhas”, inclusive jatinhos – e profissionalizar o corpo de jurados.

Existem sim pessoas que preenchem esse critério. Imaginem alguém chegando no Renan Freitas Pinto e propondo que se corrompa para fazer um bumbá ganhar? Ou num Frederico Arruda? Ou num Nelson Fraiji? Por mais que alguém discorde ideologicamente deles e que tenham preferência por um bumbá, eles têm toda uma história de vida que não vão jogar na lata de lixo por dinheiro algum.

Sou Caprichoso. Do tipo que só comemora título que meu bumbá mereça ganhar.

 

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