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Romero Jucá (MDB) desistiu nesta terça-feira (18) de disputar uma vaga de deputado federal por Roraima, três dias depois de conseguir no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Superior Tribunal de Justiça (STJ) decisões que afastaram provisoriamente sua inelegibilidade. Aos 71 anos e sem mandato desde 2019, a retirada interrompe mais uma tentativa de retorno ao Congresso e deixa mais distante a retomada da carreira eleitoral de um dos políticos mais influentes de Brasília entre as décadas de 1990 e 2010.
Jucá chegou a registrar a candidatura no sábado (15), depois de o ministro Flávio Dino, do STF, suspender os efeitos da condenação a 9 anos, 10 meses e 15 dias de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. No mesmo dia, o ministro Messod Azulay Neto, do STJ, também havia suspendido os efeitos da inelegibilidade.
Três dias depois, porém, Jucá decidiu sair da eleição.
“Contudo, a disputa baixa e vil não cabe mais na minha vida. Portanto, é com muita responsabilidade e com o apoio da minha família que decidi não participar da disputa eleitoral deste ano”, afirmou em mensagem divulgada nesta terça.
Em entrevista ao Roraima em Tempo, o ex-senador ampliou a explicação. Disse que não desistiu por falta de votos, alegou estar bem colocado em pesquisa eleitoral e afirmou que não está disposto a pagar o que chamou de “preço” político da campanha atual. Também fez acusações contra adversários em Roraima, atribuindo a eles práticas eleitorais ilícitas. As declarações são de Jucá e não foram apresentadas pelo ex-senador, na entrevista, acompanhadas de novas provas.
A desistência ganha peso pela dimensão da trajetória de Jucá. Durante 24 anos consecutivos no Senado, ele atravessou governos de diferentes partidos, comandou negociações de interesse do Palácio do Planalto e construiu a reputação de operador político capaz de conversar tanto com governo quanto com oposição.
Nascido no Recife em 30 de novembro de 1954 e formado em Economia, Jucá chegou ao primeiro escalão federal antes de construir sua carreira eleitoral em Roraima. Presidiu a Fundação Nacional do Índio (Funai) entre 1986 e 1988 e, naquele ano, foi nomeado pelo presidente José Sarney governador do então Território Federal de Roraima.
Com a transformação de Roraima em estado pela Constituição de 1988, permaneceu no governo até 1990. Naquele ano, tentou conquistar o cargo pelo voto, mas foi derrotado.
O caminho que o transformaria em personagem nacional seria aberto quatro anos depois.
Jucá foi eleito senador pela primeira vez em 1994 e tomou posse em 1995. Depois, conquistou duas reeleições consecutivas e permaneceu no Senado até janeiro de 2019. Foram três mandatos e 24 anos praticamente ininterruptos no centro das decisões do Congresso.
Sua força política não se media apenas pelo mandato. Jucá especializou-se na engrenagem legislativa: orçamento, medidas provisórias, negociação de votações e articulação entre o Executivo e as bancadas.
Foi relator-geral do Orçamento da União três vezes e ocupou duas vezes a vice-presidência do Senado. Também presidiu comissões e exerceu sucessivamente postos de liderança parlamentar.
A característica mais singular de sua trajetória foi sobreviver politicamente às mudanças no Palácio do Planalto.
Jucá foi líder do governo no Senado durante as administrações de Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer — presidentes de três campos políticos distintos. Em 2003, durante o primeiro governo Lula, deixou o PSDB e ingressou no então PMDB.
A capacidade de atravessar governos transformou o senador de um dos menores estados brasileiros em um dos principais negociadores do Congresso.
Jucá também ocupou ministérios em dois governos, mas as duas experiências foram breves e terminaram sob desgaste político.
Em março de 2005, Lula o nomeou ministro da Previdência Social. Ficou no cargo até julho, cerca de quatro meses. Sua saída ocorreu em meio à repercussão de denúncias relacionadas a empréstimos concedidos pelo Banco da Amazônia à Frangonorte, empresa da qual havia sido sócio. Jucá negou irregularidades. O STF chegou a autorizar diligências em inquérito sobre o caso.
Onze anos depois, voltou ao Executivo como ministro do Planejamento do governo Michel Temer.
Desta vez, permaneceu apenas 12 dias.
Em maio de 2016, a Folha de S.Paulo revelou uma conversa gravada pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado na qual Jucá discutia a crise política, o impeachment de Dilma Rousseff e a Operação Lava Jato.
Na conversa, Jucá falou na necessidade de um “pacto”. A divulgação ficou marcada sobretudo pela expressão “estancar a sangria”, associada à discussão sobre os efeitos da Lava Jato. Jucá negou que estivesse propondo impedir as investigações e afirmou que se referia à necessidade de conter a crise econômica e separar culpados de inocentes.
A repercussão foi suficiente para derrubá-lo do Ministério do Planejamento. Ele deixou o cargo em 23 de maio, tornando-se a primeira baixa do governo Temer, apenas 12 dias depois do início da administração interina.
Jucá, entretanto, continuou no Senado e permaneceu no núcleo político do governo. Também assumiu a presidência nacional do MDB em 2016, posto que conservou até a escolha de Baleia Rossi para o comando partidário em 2019.
O poder eleitoral começou a mudar em 2018.
Depois de três mandatos consecutivos, Jucá tentou conquistar um quarto período no Senado. Naquela eleição, Roraima escolhia dois senadores. Chico Rodrigues ficou com a primeira vaga e Mecias de Jesus com a segunda.
Jucá terminou em terceiro.
A derrota foi apertada: Mecias recebeu 85.283 votos, contra 84.849 de Jucá na apuração registrada pela Agência Senado, diferença de pouco mais de 400 votos. Era o fim de 24 anos consecutivos de Jucá no Congresso.
O mandato terminou em janeiro de 2019.
Mas a derrota não encerrou sua tentativa de voltar.
Quatro anos depois, Jucá disputou novamente o Senado. Desta vez havia apenas uma cadeira em jogo.
Hiran Gonçalves venceu com 118.760 votos, ou 46,43% dos válidos. Jucá ficou em segundo lugar, com 91.431 votos, equivalentes a 35,75%.
Assim, há uma correção importante em relação à trajetória frequentemente resumida do ex-senador: Jucá perdeu a tentativa de reeleição em 2018 e, em 2022, fracassou na tentativa de retornar ao Senado.
A eleição de 2026 representaria uma mudança de estratégia. Em vez de buscar novamente uma das três cadeiras de Roraima no Senado, decidiu concorrer a deputado federal, uma das oito vagas do estado na Câmara.
Antes que a campanha começasse efetivamente, porém, surgiu um novo obstáculo judicial.
Em julho deste ano, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) reformou decisão de primeira instância que havia absolvido Jucá e o condenou a 9 anos, 10 meses e 15 dias de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
O processo envolve R$ 150 mil repassados pela Odebrecht ao MDB de Roraima e destinados à campanha de Rodrigo Jucá, filho do ex-senador e candidato a vice-governador em 2014. Para a acusação acolhida pelo TRF-1, o dinheiro correspondia a propina relacionada à atuação parlamentar de Jucá em medidas provisórias de interesse da empreiteira. Jucá nega ter cometido os crimes.
A condenação produziu efeitos sobre sua elegibilidade.
Na sexta-feira (14), às vésperas do prazo para os registros eleitorais, Flávio Dino suspendeu os efeitos do acórdão. O ministro entendeu, em decisão liminar, que havia fundamento na alegação da defesa de que o TRF-1 não seria competente para julgar o processo e determinou a remessa do caso ao Supremo. A medida também suspendeu provisoriamente a inelegibilidade.
O STJ concedeu outra liminar favorável a Jucá. Com os dois obstáculos judiciais provisoriamente removidos, ele registrou a candidatura no sábado.
Parecia aberta a porta para mais uma tentativa de retorno.
Durou três dias.
A desistência de 2026 não significa, juridicamente, aposentadoria da política. Jucá continua presidente do MDB em Roraima e não anunciou que abandonará a atividade partidária.
Mas a sequência dos fatos altera a perspectiva de sua trajetória eleitoral.
Jucá está sem mandato há mais de sete anos. Depois de permanecer 24 anos no Senado, perdeu a eleição de 2018 por margem mínima. Tentou voltar em 2022 e perdeu novamente, desta vez por mais de 27 mil votos. Em 2026, aos 71 anos, mudou o projeto para a Câmara, enfrentou uma condenação que ameaçou barrar sua candidatura, recuperou provisoriamente a elegibilidade nas cortes superiores e, quando finalmente estava autorizado a concorrer, decidiu retirar-se.
É esse conjunto — e não apenas a desistência desta terça-feira — que torna a decisão um possível marco de encerramento de sua carreira nas urnas.
Jucá poderá continuar exercendo influência partidária, articulando candidaturas e comandando o MDB de Roraima. Também poderá, juridicamente, voltar a concorrer no futuro se mantiver seus direitos políticos.
O fato concreto, porém, é outro: pela terceira eleição nacional consecutiva, o político que durante quase um quarto de século representou Roraima no Senado não retornará ao Congresso.
Desta vez, não porque perdeu nas urnas.
Decidiu não chegar até elas.
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