
Delegado Péricles, ainda no hospital, após cirurgia, com o otimismo sempre presente
O delegado Péricles Nascimento, alvejado durante troca de tiros com suspeitos de roubo de picape, volta a Manaus dia 20/12. Familiares e amigos preparam uma recepção de herói. Ele sobreviveu ao disparo que estilhaçou a mandíbula, após cirurgia em São Paulo. Mas a história tem vários outros desdobramentos, como você verá a seguir.
Péricles Rodrigues do Nascimento, titular da Delegacia de Roubos e Furtos de Veículos (DERFV), vivia um dia de rotina. Tentava recuperar uma picape S10 e descobriu que dois suspeitos estavam no bairro Campos Sales. Chegando ao local, na rua Paraíso 2, o grupo foi recebido a tiros. Um dos disparos atingiu a mandíbula do policial.
Péricles foi levado ao hospital Delphina Aziz e depois ao Pronto-Socorro João Lúcio. Os policiais mantiveram o cerco ao endereço e houve nova troca de tiros. Cliffer Lourival Grangeiro Figueiredo, 32, que já havia sido preso por assalto, foi morto no local. O noticiário dizia que ele havia sido o autor do disparo que atingiu o delegado. Não foi. Esse é um capítulo à parte da trágica novela que envolve o jovem policial.
O verdadeiro autor do disparo está vivo. A polícia não revela o nome dele por questão de segurança. Foi monitorado quando se escondia na comunidade Manairão, na rodovia AM-352 (Manacapuru-Novo Airão), após o crime. Pretendia “sumir” por dois meses e depois fugir para o Pará.
Usuário de drogas, porém, ele não suportou as crises de abstinência e resolveu assaltar um mercadinho, em Manacapuru. O assalto ocorreu no dia 16 de outubro, no bairro de São Francisco. Na hora da fuga do acusado e um comparsa, a moto não pegou. Os dois quase foram linchados por populares. E, ironicamente, ambos foram salvos, muito machucados, por policiais militares.
A saga do acusado pelo disparo não termina aí.
Dia 26 de outubro, uma rebelião tomou conta do presídio de Manacapuru. Foi preciso diversas unidades serem deslocadas de Manaus para conter os ânimos. E 15 presos foram transferidos para a capital. Entre eles estava o suposto assassino, que foi para a Unidade Prisional do Puraquequara (UPP).

Péricles, em uma das entrevistas coletivas por roubos solucionados
O delegado Péricles, enquanto isso, lutava pela sobrevivência no hospital Osvaldo Cruz, em São Paulo.
Antes, ainda em Manaus, familiares conseguiram contatos com dirigentes do Sírio-Libanês, também na capital paulista. Ficou tudo acertado para que fosse transferido para lá. Mas aí surgiu a informação de que o Governo do Amazonas deve milhões ao melhor hospital do País.
O tempo passava e a família encontrou o caminho do hospital Albert Einstein, também na linha dos melhores do Brasil. Outra vez, as dívidas, acumuladas por pacientes enviados pelo Governo do Estado, inviabilizaram a transferência.
Um médico, buco-maxilo, condoeu-se com o drama da família e indicou o caminho do hospital Osvaldo Cruz, também muito bom. Lá, finalmente, o delegado pode ser recebido.
Removido com urgência de Manaus para São Paulo, os exames mais detalhados, já em solo paulista, revelaram que o problema era maior. Um estilhaço da bala se alojou na carótida, causando uma espécie de queimadura e ameaçando rompê-la.
O risco era grande. Se houvesse sido feita cirurgia do maxilar, como sugerido em Manaus, sem conhecimento do problema na carótida, Péricles dificilmente sobreviveria.
Amigos policiais, civis e militares, perceberam que a burocracia para liberar recursos e socorrer o delegado podia demorar. Criaram uma conta, fizeram vaquinhas e conseguiram mais dinheiro até do que a família precisaria.
A necessidade traz a providência.
No meio do drama de Péricles, Freud Vanderberg dos Santos, Grupo Fera, foi alvejado na Base Anzol, em Tabatinga. Ele estava num grupo que tentava conter traficantes, a caminho de Manaus.
A família do delegado, sabendo que Vanderberg tinha necessidades maiores, transferiu o dinheiro da “vaquinha” para o policial. O recurso do Estado chegara a tempo de socorrer Péricles. O investigador Freud conseguiu pagar o tratamento médico e ainda ajudou um outro colega policial.
O delegado ferido foi, finalmente, operado. Os médicos reconstruíram o que puderam da mandíbula e inseriram a safena femoral na carótida. Valente e lúcido, ele chegou a trocar mensagens com amigos. Incentivava mais do que era incentivado. Mas a situação era difícil.
Os médicos, finalmente, deram alta ao delegado guerreiro. Ele tem, no entanto, vários problemas ainda por superar.
O rosto ainda está muito inchado. O tiro – ou os estilhaços dele – atingiram alguns músculos e nervos. Um deles, na base do pescoço, é responsável pela sustentação do olho esquerdo e não poderá ser recomposto. O estilhaço, que “fritou” de raspão a carótida, ficará onde está. Tentar retirá-lo é mais perigoso que deixá-lo quieto.
Péricles continua sendo acompanhado por aquele médico benfeitor, e deverá retornar a São Paulo, em janeiro, para continuar o tratamento.

Delegado Péricles com o irmão, tenente-coronel PM Rosses, após homenagem pela Rota paulista
Rosses Nascimento, tenente-coronel da Polícia Militar, irmão do delegado Péricles, viveu todo esse drama ao lado dele. Lutou por oferecer os melhores meios. Confortou os demais familiares. Foi muito forte… até o momento que se viu frente a frente com o atirador.
Foi num encontro, os dois sozinhos, dentro de uma cela.
Rosses simplesmente desabou. Chorou muito. Preparado para o confronto, bom atirador e lutador de artes marciais, não contava com aquilo. Diante dele, no lugar de um oponente à altura, estava um drogado, dependente químico, um completo desvalido.
O treinamento policial permitiu a Rosses conter os instintos e chegar a rápida avaliação: aquele farrapo tem ainda poucas capacidades humanas. Uma delas, a de apertar o gatilho e tirar de atividade um dos policiais mais eficientes do Amazonas.

Delegado Péricles após as cirurgias
No meio de toda a batalha pela vida, uma coisa ficou clara: Péricles tem um espírito vencedor. Isso foi reconhecido pelos policiais das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota), ainda em São Paulo. De alta do hospital, Péricles foi chamado para ser homenageado. “Sinônimo de respeito a um herói baleado em combate”, ouviu. Estava diante do batalhão, reunido para saudá-lo.
Os familiares e amigos que vão recebê-lo com festa no aeroporto Eduardo Gomes, dia 20/12, por volta das 22h, verão um sujeito valente. O rosto está inchado. Marcas da cirurgia e dores ainda persistem. Familiares garantem, mesmo assim, que ele está disposto a lutar sem parar, todas as lutas que ainda estão por vir e em qualquer trincheira.
Veja mais notícias em Cidade