“A simplicidade tende ao desenvolvimento, a complexidade à desintegração”
Era final dos anos oitenta quando percebi que havia uma nova família morando próximo da nossa casa no Japiim, onde passei boa parte de minha vida. Não tardaria para que os novos garotos do bairro Eri e Paulo se tornassem nossos amigos inseparáveis. Nós os chamávamos de “menudos”, devido aos cabelos de gosto duvidoso e eles nos apelidavam de “pelados” pelos mesmos motivos.
Naquele período havia uma forte migração das famílias do interior rumo a capital do Estado. Eri vinha de Coari (virou até música!) com mãe e irmãos, enquanto o pai continuava na cidade natal. Coari era o maior produtor de bananas do Amazonas e a festa da banana saudava a colheita do produto que movia a economia da cidade. Praticamente toda a banana consumida em Manaus vinha de lá.
O tempo passou e muitas coisas mudaram. Umas para melhor e outras nem tanto. O Eri, por exemplo, continua sendo meu amigo, daqueles que você sabe que pode contar. Vivemos juntos momentos bons e ruins – como quando perdi minha mãe ou quando ele foi violentamente impedido de trabalhar por bandidos. Continuamos muito próximos, diria quase irmãos e disso muito me orgulho.
Por outro lado, a cidade de Coari transformou-se para pior. Não estou falando de seu povo – sempre honrado e hospitaleiro. Mas ao longo dos anos, na medida em que jorra petróleo do subsolo de suas florestas, aumenta a corrupção e desvios de recursos públicos naquela cidade, enquanto diminui a autoestima e a capacidade produtiva de sua agricultura.
O Município que outrora foi o maior produtor de banana do Amazonas hoje vê seu povo a mercê de um sistema econômico e político cruel: apesar da cidade de Coari apresentar o maior PIB do interior do Amazonas, sua qualidade de vida é vergonhosa e não condiz com sua história e suas riquezas naturais.
Iludida pelo dinheiro de royalties do petróleo, Coari negligenciou sua vocação natural para a agricultura familiar – que traz ganhos e autonomia para os produtores. É preciso usar os recursos do petróleo – que são bem vindos, mas são finitos, em pesquisa e incentivar novamente o plantio naquele município. Assim resgata-se a produção de banana no Amazonas e, quem sabe, a altivez do povo coariense.
* Júnior Brasil é Perito em Contabilidade e Finanças, especialista em administração Pública e Mes...