Por Augusto Bernardo Cecílio
O clima da Terra está mudando rápido demais. As alterações climáticas não são uma previsão para daqui a 100 anos. Elas já estão acontecendo agora, em forma de ondas de calor recordes, secas mais longas, chuvas intensas, incêndios florestais e derretimento de geleiras.
A ciência é clara: a principal causa é a ação humana, sobretudo a queima de carvão, petróleo e gás e o desmatamento. O desafio é entender o tamanho do problema e agir antes que os impactos se tornem irreversíveis.
Desde a Revolução Industrial, a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera disparou. Metano, CO2 e óxido nitroso prendem calor, como um cobertor ao redor do planeta e 75% das emissões vêm da energia: termoelétricas, carros, aviões e indústria. A agropecuária responde por grande parte do metano, com gado e arroz. O desmatamento, principalmente na Amazônia e no Cerrado, tira florestas que absorvem carbono e ainda solta o carbono guardado nas árvores.
Sabemos que o problema não é o carbono em si. É a velocidade com que estamos jogando-o no ar. A natureza não consegue absorver no mesmo ritmo. E as consequências estão aí nos noticiários diários ou bem perto da gente, atingindo de formas diferentes cada região:
Ondas de calor mais frequentes e intensas. No Brasil, cidades registraram 40°C+ fora de época. No mundo, verões com 50°C. Do outro lado, tempestades mais fortes porque ar quente segura mais umidade. Isso explica enchentes como as do Rio Grande do Sul e de São Paulo.
Secas prolongadas esvaziam reservatórios e afetam agricultura e energia hidrelétrica. Ao mesmo tempo, chuva concentrada causa deslizamento e alagamento. O ciclo da água está desequilibrado.
O mar está mais quente e mais ácido. Isso mata corais, muda a pesca e faz o nível do mar subir. Estima-se 30 a 60 cm de elevação até 2100. Cidades litorâneas, ilhas e comunidades ribeirinhas são as primeiras a sentir.
Espécies não conseguem se adaptar na mesma velocidade. Corais branqueiam, animais migram ou desaparecem. Na Amazônia, seca + fogo + desmatamento empurram a floresta para um ponto de não retorno. As consequências se multiplicam: mais dengue, malária e doenças respiratórias por causa do calor e da fumaça. Aumento de internações em dias de calor extremo. Fome e insegurança alimentar porque plantações perdem produtividade.
Na economia, perda de safra, destruição de infraestrutura, seguros mais caros e pessoas deixando áreas inviáveis. O Banco Mundial estima dezenas de milhões de “migrantes climáticos” até 2050. O mais preocupante são os efeitos em cadeia. Uma seca no Brasil afeta preço de alimento no mundo. Um incêndio na Amazônia afeta chuva no Sudeste. O clima conecta tudo.
Mas nem tudo está perdido. Temos soluções, mas elas exigem três frentes ao mesmo tempo: cortar emissões, se adaptar e restaurar a natureza. Vejamos:
Trocar carvão e gás por sol, vento, hidrelétrica e nuclear. O custo da energia solar eólica caiu 80% em 10 anos. Países e empresas já estão migrando. Mais transporte público, trens, bicicletas e carros elétricos. Combustíveis sustentáveis para avião e navio. Aço verde, cimento com menos carbono, hidrogênio verde e economia circular para gerar menos lixo.
Reduzir desperdício de alimentos também é uma sugestão. O mundo joga fora 1/3 da comida produzida. Dietas com menos carne e mais vegetais cortam metano. Agricultura regenerativa que recupera solo e guarda carbono. Desmatamento zero também seria um sonho. Pagar para floresta ficar de pé. Reflorestamento e restauração. No Brasil isso significa combater grilagem, garimpo e dar renda para quem vive da floresta.
A meta global é chegar a emissões líquidas zero até 2050. Isso significa emitir só o que a natureza e a tecnologia conseguem absorver. Mesmo zerando emissões hoje, o planeta ainda vai esquentar nas próximas décadas. Precisamos nos adaptar. As cidades teriam que ter mais áreas verdes, drenagem e alerta de tempestade. A agricultura teria que ser resistente à seca, com seguro agrícola e bancos de sementes. O sistema de saúde teria que se preparar para o calor e para as doenças tropicais. Além disso, teríamos que ter uma verdadeira gestão das águas, com reuso, reservatórios e proteção de nascentes, mesmo sabendo que os países pobres precisam de financiamento para isso.
Governo e sociedade teriam papéis importantes a desempenhar: Os governos, com política pública, metas claras, fiscalização e investimento. As empresas: descarbonizar cadeia, transparência e produtos que poluem menos. O Cidadão, votando conscientemente, reduzindo o consumo, evitando o desperdício etc. Pequenas ações não salvam o clima sozinhas, mas criam cultura e pressionam o sistema.
Por fim, as alterações climáticas são o maior teste coletivo da humanidade. Não é sobre salvar o planeta. O planeta vai continuar. É sobre salvar as condições que tornam a vida humana possível como conhecemos. A boa notícia é que já temos a tecnologia e sabemos o que fazer. O que falta é velocidade e vontade política.
*Auditor fiscal e professor.
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* Auditor fiscal da Sefaz, coordena o Programa de Educação Fiscal no Amazonas.