Por Felix Valois
Tenho para mim que, salvo em situações excepcionais, a pessoa não deve manter na sombra seus pensamentos. Explico a ressalva: na ditadura, por exemplo, os de que esquerda não podíamos demonstrar nossos pontos de vista, salvo se quiséssemos fazer um convite direto à tortura, ao desaparecimento ou à morte. Pensar ao contrário dos militares era, por incrível que pareça, crime contra a segurança nacional. Essa mesma segurança que, agora, parece ter virado questão de somenos nas palavras e nos gestos dos que passam a vida prestando subserviência ao imperialismo americano.
Vigentes, porém, as franquias e garantias individuais do direito burguês, nenhuma razão se apresenta para que ideias e conceitos não possam ser expostos e debatidos. É até uma questão básica do processo civilizatório esse confronto, na medida em que do choque dos contrários é que há de surgir o novo.
Infelizmente, as coisas, na prática, não se apresentam ou desenvolvem com tamanha singeleza. A intolerância, ao contrário, tem sido lugar-comum, mormente quando o assunto é política. Uma radicalização irracional e improdutiva tem dado a voz de comando nos debates eventualmente travados sobre o tema.
Tiro por mim mesmo. Tenho uma coluna semanal no Diário do Amazonas e publico o mesmo texto no Facebook. É de clamorosa obviedade que, em escrevendo, não posso e não devo expressar o pensamento alheio. Hei de me cingir àquilo que tenho como patrimônio cultural e, na proporção exata da minha capacidade argumentativa, defender o que considero correto. E acho que não tenho feito nada além disso.
Ora, pois, muito que bem! Por isso, e só por isso, não tenho conseguido ficar livre de agressões e ofensas, a maioria delas banais e grosseiras. Alguns cometem erros primários. São aqueles que me chamam de “comunista”, pensando que estão proferindo algo que me abalará profundamente. Ledo engano! Com tenros dezoito anos, estava eu filiado ao Partido Comunista Brasileiro, o glorioso Partidão. De lá até hoje, tenho muito orgulho de proclamar que jamais me afastei dos ideais marxistas. Tenho como indispensável a igualdade entre os seres humanos e não consigo evitar o sentimento de revolta ao ver homens e mulheres venderem sua força de trabalho e receberem, em contrapartida, apenas o que é resultado da mais deslava exploração. Também me atinge brutalmente saber que, com todo o desenvolvimento, ainda que pessoas que não têm onde morar ou, o que é mais grave, passam fome. Acho que ninguém pode ser censurado por lutar contra tais absurdos.
Muitos tentam me apedrejar, ao argumento de que sou um lulista fanático. Não é verdade. Em outros tempos, já escrevi textos com acerbas críticas ao atual presidente, até porque, como todos nós, ele não é infalível. Mas querem o quê, essas gralhas de ocasião? Que eu me manifeste a favor do bolsonarismo? Só pode ser brincadeira ou estupidez. Um homem que, como eu, abriu seu coração para o mundo, não pode estar ao lado do que existe de mais retrógrado, ultrapassado e pernicioso no processo político. Bolsonaro e seus adeptos lograram o feito de reconduzir o Brasil ao nazifascismo dos anos trinta e, o que é pior, buscaram perpetuar o sistema por via da odiosa prática do golpismo. Ora, o confronto, então, não é entre pessoas (Lula x Bolsonaro). Antes disso, trata-se da gravíssima opção de decidir entre a civilização e a barbárie.
Para rematar o argumento de como anda grave essa intolerância, vou relatar um episódio curioso e engraçado. Na semana passada, coloquei no Facebook o seguinte: “Já que os bolsomínions se metem mesmo nas minhas postagens, vou deixar uma pergunta para eles: o que fez o Bozo pelo Brasil, nos seus quatro anos de desgoverno?” Muitos se esforçaram, educadamente, para responder com objetividade, o que, de resto, é impossível mesmo, já que o único feito do homem foi aumentar o número de sepulturas.
Quanto ao resto, dá para imaginar, então, o vendaval de agressões, ofensas e tolices que caiu sobre mim. Entre todas elas (e esse é o meu ponto), uma me fez rir às gargalhadas. Como glorioso feito do seu mito, o homem, que não conheço, escreveu: “Fez tu virar viado”. É ou não engraçado? Não resisti à tentação e respondi assim “Pelo menos tente ofender em português. Acho difícil, mas veja se consegue assimilar o correto: FEZ-TE VIRAR VEADO”. Como não virei nada (nem jacaré, apesar de vacinado), temos a confirmação de que nada também foi o que fez a sinistra figura.
E assim segue a nau.
Veja mais notícias em Colunas
* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...