
Autor de “Feitio de Paixão” deixou mais de 130 composições e criou com Flávio Pascarelli projeto que aproximou sambistas de Manaus e do Rio. (Foto: Acervo Pessoal)
O sambista e compositor amazonense Paulo Onça completaria 65 anos nesta segunda-feira (31/08). Autor de mais de 130 composições e de sambas que chegaram às vozes de grandes nomes da música brasileira, ele foi lembrado pelo desembargador Flávio Pascarelli, amigo e parceiro de criação, em uma homenagem publicada nas redes sociais.
Paulo Juvêncio de Melo Israel morreu em 26 de maio de 2025, aos 63 anos. A morte ocorreu meses depois das graves agressões sofridas em 5 de dezembro de 2024, após um acidente de trânsito em Manaus. O caso passou a ser tratado como homicídio e um dos acusados foi pronunciado pela Justiça para julgamento pelo Tribunal do Júri.
Na homenagem desta segunda-feira, Pascarelli preferiu celebrar a obra e a amizade construída com Paulo Onça.
“Paulo tinha o samba dentro dele. Talento, irreverência, criatividade e uma maneira muito própria de transformar a vida em música. Sua vida foi interrompida de forma brutal, mas sua obra não foi. Paulo faz muita falta ao samba, à cultura do Amazonas, à família e aos amigos. Faz falta a mim”, escreveu.
O desembargador recordou especialmente o Conexão Samba Rio-Manaus, projeto que desenvolveu ao lado de Paulo Onça e que teve também a participação de Marquinhos Lessa. Segundo Pascarelli, daquela experiência e da parceria entre os compositores nasceram mais de 70 sambas.
“Essas fotos me levam a um tempo muito feliz, quando eu, Paulo e Marquinho Lessa criamos o Conexão Samba Rio-Mao, aproximando Manaus e o Rio de Janeiro pela música. Daquela amizade e daquela aventura nasceram mais de 70 sambas, muitos gravados por grandes nomes da música brasileira”, lembrou.
Criado para aproximar compositores e intérpretes das duas cidades, o Conexão Samba Rio-Manaus levou a produção dos amazonenses a nomes conhecidos do samba nacional.
Entre as gravações do projeto estão “Papo Reto”, interpretada por Xande de Pilares e composta por Paulo Onça, Flávio Pascarelli e Rafael Viana; “Ciência da Separação”, na voz de Toninho Geraes; “Conselho”, gravada por Juninho Thybau; e “Declaração”, interpretada por Dunga. O projeto também reuniu artistas como Neguinho da Beija-Flor, Arlindinho Cruz, Simone Ávila e Marquinhos Lessa.
A parceria entre Paulo Onça e Pascarelli ultrapassou o próprio Conexão. Os dois chegaram a compor “Consegna Sacra”, em italiano, gravada pelo Duo Napolitano.
Pascarelli resumiu a homenagem ao amigo com uma escolha: guardar a vida e a música, não a violência que provocou sua morte.
“Hoje, no dia em que completaria 65 anos, prefiro não lembrar de como ele morreu. Prefiro lembrar de como viveu. E de toda a música que deixou para que a saudade também pudesse cantar”, escreveu.
A obra mais conhecida de Paulo Onça nacionalmente é “Feitio de Paixão”, composta com Paulinho Carvalho e gravada por Jorge Aragão em 1988, no álbum “Raiz e Flor”. O samba atravessou décadas no repertório de Aragão e ganhou sucessivas regravações.
Mas o alcance de Paulo Onça foi muito além. Em parceria com Royce do Cavaco, compôs “Cartilha do Amor”, gravada pelo Exaltasamba no álbum “Eterno Amanhecer”, de 1992, e “É Melhor Refletir”, registrada por Leci Brandão.
Paulo Onça também integrou o grupo de compositores do samba-enredo da Acadêmicos do Grande Rio para o Carnaval de 2017, dedicado a Ivete Sangalo. A própria cantora participou da gravação da obra.
Ao longo de mais de quatro décadas dedicadas à música, suas composições chegaram ainda a intérpretes como Zeca Pagodinho e outros nomes do samba brasileiro.
A trajetória de Paulo Onça também está ligada à música produzida no Amazonas e ao Festival de Parintins. Com Chico da Silva, compôs “Boi Valente”, toada do Garantido lançada em 1991 no álbum “Uma Origem Cabocla”.
A parceria aproximava dois compositores amazonenses que conseguiram estabelecer pontes entre a música regional e o samba brasileiro.
Paulo Onça também foi intérprete de “Amazonas Meu Amor”, composição de Chico da Silva que se tornou uma das canções mais identificadas com o Estado e é frequentemente tratada como um hino afetivo dos amazonenses.
Nascido em 31 de agosto de 1961, Paulo Onça construiu uma trajetória de mais de 45 anos dedicada ao samba. Nesta segunda-feira, a lembrança de Pascarelli devolveu o foco à dimensão que o compositor preferia ocupar: a da música.
“Prefiro lembrar de como viveu”, escreveu o amigo.
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