
Foto: Reprodução/Vídeo
Uma pescaria no Cacau Pirêra, em Iranduba, Região Metropolitana de Manaus, domingo (23/08), mostra uma das cenas mais conhecidas da Amazônia durante a passagem dos grandes cardumes: uma única rede captura grande quantidade de jaraquis. É a fartura proporcionada pela migração dos peixes, fenômeno que o caboclo chama de arribação.
A abundância no rio, porém, contrasta com o preço encontrado pelo consumidor nas feiras e mercados de Manaus. O jaraqui chega a ser vendido a cinco unidades por R$ 20, mesmo no período de grande oferta.
Na outra ponta da cadeia, pescadores relatam que, durante grandes pescarias e diante da necessidade de escoar rapidamente a produção, o cento — 100 jaraquis — pode ser negociado por cerca de R$ 20.
A diferença é expressiva.
Se o cento é vendido por R$ 20, cada jaraqui sai das mãos do pescador por R$ 0,20. Cinco peixes correspondem a R$ 1. Se essas mesmas cinco unidades chegam ao consumidor por R$ 20, o valor foi multiplicado por 20 ao longo da cadeia.
Isso não significa que toda a diferença seja lucro de quem vende o pescado na feira. Entre a canoa e a banca existem custos com gelo, combustível, transporte, armazenamento, perdas, mão de obra e comercialização. Há também diferentes intermediários.
O problema é a falta de transparência sobre a formação do preço e sobre quanto cada etapa acrescenta ao valor final pago pelo consumidor.
O jaraqui está entre os peixes de maior importância alimentar, econômica e cultural do Amazonas. A Embrapa o classifica como espécie migradora, que realiza deslocamentos associados ao ciclo anual das águas. Essa informação pode ser conferida no link www.embrapa.br/en/web/pesca-e-aquicultura/aquagenomica/especies/jaraqui.
A Prefeitura de Manaus, ao promover uma distribuição de jaraqui em julho, informou que a safra tradicionalmente começa em maio e alcança maior abundância entre julho e setembro, durante a vazante. A informação pode ser conferida no link www.manaus.am.gov.br/semcom/distribuicao-gratuita-de-jaraqui/.
É justamente o período atual.
O fenômeno é conhecido pelos pescadores como arribação. Jaraquis e outras espécies, como pacu, aracu, matrinxã, curimatã e branquinha, realizam deslocamentos pelos rios amazônicos relacionados aos ciclos de alimentação e reprodução.
Os cardumes percorrem grandes distâncias pelo rio Negro, Solimões, Amazonas, Madeira e seus afluentes. É um movimento natural que ajuda a renovar os estoques pesqueiros e a distribuir os peixes pelo gigantesco sistema aquático da Amazônia.
No caso do jaraqui, pesquisas científicas registram migrações anuais que podem alcançar entre 1.000 e 1.300 quilômetros considerando todo o circuito migratório. O estudo que apresenta esses dados pode ser consultado no link www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC10289084/.
A reprodução acompanha o ciclo das águas. Ovos e larvas alcançam áreas inundáveis, que funcionam como ambientes importantes para o desenvolvimento dos peixes jovens. Depois, eles se dispersam pelo sistema formado por rios, paranás, lagos e áreas de várzea.
É um processo natural repetido há milhares de anos e essencial para a manutenção da pesca amazônica.
Em qualquer mercado competitivo, o aumento expressivo da oferta tende a pressionar os preços para baixo. No comércio do pescado amazonense, entretanto, a fartura registrada durante a safra nem sempre chega ao consumidor na mesma proporção.
Dados oficiais mostram como o preço do jaraqui pode variar.
Pesquisa da Secretaria de Estado de Produção Rural (Sepror), referente a agosto de 2023, encontrou na Manaus Moderna 15 jaraquis por R$ 20. Em outro ponto pesquisado, eram 12 pelo mesmo valor. O levantamento completo pode ser consultado no link www.sepror.am.gov.br/wp-content/uploads/2023/10/Precos-Pescado-Mao-Manacp-agosto-2023.pdf.
Em julho de 2025, levantamento publicado pela imprensa encontrou 11 jaraquis por R$ 30 na Manaus Moderna.
Agora, em pontos de venda de Manaus, o consumidor encontra cinco jaraquis por R$ 20, apesar da abundância característica desta época do ano.
A questão vai além do preço de uma espécie.
O peixe é um dos principais componentes da alimentação amazonense. Quando o pescado encarece, o impacto chega diretamente ao orçamento das famílias e contribui para elevar o custo da alimentação.
A distância entre o valor recebido pelo pescador e aquele pago pelo consumidor levanta uma questão que precisa ser respondida: o que acontece com o preço entre a canoa e a banca da feira?
O Amazonas possui órgãos estaduais e municipais responsáveis por produção, abastecimento, meio ambiente e defesa do consumidor. Há fiscalização sanitária, regras para captura e comercialização e levantamentos periódicos de preços.
O que falta é tornar mais transparente a cadeia de formação do preço do pescado, principalmente durante os períodos de grande oferta.
Não se trata de defender tabelamento arbitrário de preços. O mercado precisa incorporar os custos reais de transporte, conservação e comercialização. Mas o poder público pode acompanhar preços, identificar distorções, ampliar canais de comercialização direta e estimular maior concorrência entre os agentes da cadeia.
Quanto menor a distância comercial entre pescador e consumidor, maior a possibilidade de melhorar a remuneração de quem pesca e reduzir o preço para quem compra.
A pescaria registrada no Cacau Pirêra expõe essa contradição.
De um lado, a rede cheia de jaraquis mostra a fartura proporcionada pelos rios amazônicos durante a safra.
Do outro, o consumidor de Manaus conta quantos peixes consegue colocar na sacola com R$ 20.
Entre a rede e a feira existe uma cadeia de comercialização cujo funcionamento e formação de preços precisam ser mais transparentes.
Porque, no Amazonas, peixe não deveria ser artigo de luxo. É alimento básico, fonte de renda e parte da própria identidade regional.
#Jaraqui, #PreçoDoJaraqui, #Pescado, #Manaus, #CacauPirêra, #Iranduba, #Arribação, #Piracema, #PescaNoAmazonas, #FeirasDeManaus, #PreçoDoPeixe
Veja mais notícias em Economia