
Reflexões sobre o Tempo traz a visão de vida que nasceu de uma frase
* Por Jorge Henrique de Freitas Pinho
Em 1996, tive uma conversa marcante com o então secretário de Estado da Fazenda, Samuel Hanan. Após uma reunião de trabalho, ele me disse algo que ficou gravado em minha memória e que, até hoje, ressoa profundamente em minha forma de viver e refletir sobre o tempo e a experiência humana: “Você é jovem, ainda pode errar muito. Na minha idade, já não tenho muito tempo para corrigir meus erros.”
A simplicidade dessa frase contrasta com sua profundidade. Ela toca em uma verdade universal que transcende eras e culturas: o tempo é um recurso finito, mas sua percepção e utilização variam de acordo com a maturidade, as circunstâncias e, acima de tudo, a sabedoria. Hoje, ao revisitar essa lembrança, é inevitável colocar essa reflexão sob a luz das tradições filosóficas que moldaram minha trajetória – os clássicos ocidentais, os estoicos e os pensadores orientais.
Platão e Aristóteles entenderam o tempo como um meio de realização do telos, o propósito humano. Para Aristóteles, a juventude é uma fase de aprendizado, onde o erro é não só esperado, mas necessário, pois é por meio dele que alcançamos a eudaimonia – a felicidade plena, obtida ao viver de acordo com a virtude. Contudo, Aristóteles também nos lembra que a maturidade exige prudência (phronesis), que nasce da experiência acumulada ao longo dos anos.
Naquele momento, em 1996, eu vivia uma vida intensa, repleta de desafios e decisões difíceis. As palavras de Samuel Hanan soaram como um convite à reflexão: será que eu estava aprendendo o suficiente com os meus erros? Ou estaria eu correndo o risco de desperdiçar a oportunidade de transformá-los em sabedoria?
Os estoicos, como Sêneca e Marco Aurélio, ofereceriam um olhar pragmático sobre essa questão. Para eles, os erros não devem ser vistos como falhas definitivas, mas como parte do processo natural de amadurecimento humano. Sêneca escreveu: “Nenhum vento é favorável para quem não sabe para onde vai.” Essa frase ressoa com a ideia de que o jovem, apesar de errar, tem o privilégio do tempo para ajustar suas velas e corrigir seu curso.
Marco Aurélio, por sua vez, nos lembra em suas Meditações que a verdadeira força reside na capacidade de aprender com cada situação, mesmo aquelas que nos causam dor ou vergonha. A juventude, então, é um campo fértil para erros, mas também para a resiliência e a construção de um caráter sólido.
Enquanto as tradições ocidentais muitas vezes veem o tempo como linear, as filosofias orientais, como o taoísmo e o budismo, enxergam o tempo como um ciclo contínuo. Lao Zi, em sua obra Tao Te Ching, nos lembra da importância de agir em harmonia com o fluxo natural da vida: “Aquele que é flexível permanece inteiro.”
Para o jovem, errar é parte desse fluxo, uma oportunidade de aprender a se adaptar às mudanças inevitáveis da existência.
O budismo, por sua vez, nos ensina sobre a impermanência (anicca) e o desapego. Quando aplicamos esse conceito aos erros, entendemos que eles não nos definem, mas são transitórios, se estivermos dispostos a desapegar da culpa e nos concentrarmos no aprendizado.
Durante aquele período da minha vida, a agitação pessoal e profissional me fazia tropeçar, mas, como aprendi mais tarde, o verdadeiro erro seria não usar essas experiências como combustível para meu crescimento.
Quando penso naquele período, é impossível não lembrar do momento transformador em que apliquei os ensinamentos da Cabala Judaica, especialmente do livro O Poder da Kabbalah, de Yehuda Berg. Durante um voo de Manaus ao Rio de Janeiro, consegui transformar a raiva em amor. Esse processo me mostrou que os erros e as emoções intensas que os acompanham não são obstáculos, mas convites à transformação.
A conversa com Samuel Hanan foi um primeiro despertar. Seus conselhos ganharam significado com o passar dos anos, à medida que aprendi a equilibrar o desejo de agir com a necessidade de refletir. Hoje, vejo o tempo não como um inimigo, mas como um mestre paciente, que nos dá as lições que precisamos, na medida certa.
Este artigo é uma homenagem àquele que, com uma frase, plantou em mim mais uma importante semente de reflexão, que floresceu ao longo de décadas. Samuel Hanan, com sua visão madura e sensível sobre o tempo, me mostrou que errar faz parte da juventude, mas aprender com os erros é o privilégio da maturidade.
Acredito que sua frase carrega um legado poderoso: todos nós, em diferentes momentos da vida, temos a oportunidade de olhar para trás, corrigir o que for possível e, acima de tudo, encontrar o equilíbrio entre agir e refletir. Esse equilíbrio é, talvez, o verdadeiro segredo para viver uma vida plena e significativa.
Que esta reflexão inspire outros, especialmente os mais jovens, a perceberem o valor do tempo, dos erros e do aprendizado. E que o legado de Samuel Hanan continue a iluminar os caminhos daqueles que, como eu, ainda estão aprendendo a navegar as águas da vida.