
A admiradora de Mussolini que rejeita rótulo de fascista será 1ª mulher a governar a Itália
Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, o próximo líder da Itália deve vir da extrema-direita. A líder de extrema-direita Giorgia Meloni, do partido Irmãos da Itália (Fratelli d’Italia), venceu as eleições na Itália, de acordo com as pesquisas de boca de urna, e está a caminho de se tornar a primeira mulher premiê do país.
Se os dados da boca de urna se confirmarem, Meloni deverá ter entre 22% e 26% dos votos, à frente de seu rival mais próximo, Enrico Letta, de centro-esquerda. Os dados são da pesquisa do instituto Rai.
Várias pesquisas que acabaram de ser publicadas deram uma liderança dominante à coalizão de direita da qual Meloni faz parte – os partidos do grupo juntos devem ter entre 41-45% dos votos. Isso daria aos três partidos o controle de ambas as casas eleitas do parlamento e a possibilidade de formar um governo.
Cabe ao presidente Sergio Mattarella nomear o próximo primeiro-ministro, mas é provável que ele escolha a coalizão vencedora.
A centro-esquerda ficou bem atrás com 25,5%-29,5% dos votos. O comparecimento foi dramaticamente baixo, de 64,7%, disse o Ministério do Interior da Itália. Os níveis de votação foram especialmente baixos nas regiões do sul, incluindo a Sicília.
As eleições foram convocadas depois que o governo de coalizão liderado pelo premiê Mario Draghi entrou em colapso.
Fundada em 2012, a legenda de Meloni tem suas raízes políticas no Movimento Social Italiano (MSI), que surgiu das cinzas do fascismo de Mussolini. O partido mantém o logotipo dos partidos de extrema-direita do pós-guerra: a chama tricolor, muitas vezes interpretada como o fogo queimando no túmulo de Mussolini.
Mas o rótulo fascista é algo que Giorgia Meloni rejeita com veemência. Falando em inglês, espanhol e francês em um vídeo recente, ela insistiu que deixou a ideologia no passado.
Porém, a história é parte do problema em um país que passou por um processo diferente da desnazificação da Alemanha após a 2ª Guerra, permitindo que os partidos fascistas se reformassem.
“Giorgia Meloni não quer abandonar o símbolo porque é a identidade da qual ela não pode escapar; é sua juventude”, diz Gianluca Passarelli, professor de ciência política da Universidade Sapienza de Roma.
“O partido dela não é fascista”, explica. “Fascismo significa tomar o poder e destruir o sistema. Ela não vai fazer isso e não poderia. Mas há alas no partido ligadas ao movimento neofascista. Ela sempre jogou de alguma forma no meio.”
A juventude de Giorgia Meloni esteve, de fato, ancorada na extrema-direita, mas com origens humildes, algo que é chave para sua imagem de mulher do povo.
Nascida em Roma, ela tinha apenas 1 ano quando seu pai, Francesco, abandonou a família e se mudou para as Ilhas Canárias. Francesco era de esquerda, sua mãe Anna era de direita, levando a especulações de que seu caminho político foi motivado em parte pelo desejo de se vingar de seu pai ausente.
A família mudou-se para Garbatella, um bairro operário no sul de Roma que é tradicionalmente um bastião da esquerda. Mas lá, aos 15 anos, ela se juntou à Frente Juvenil, ala juvenil do neofascista MSI, tornando-se depois presidente do ramo estudantil do sucessor do movimento, a Aliança Nacional.

Em seu livro de 2021, I Am Giorgia, ela ressalta que não é fascista, mas se identifica com os herdeiros de Mussolini: “Peguei o bastão de uma história de 70 anos”.
Ao contrário de seus aliados de direita, ela não tem tempo para o russo Vladimir Putin e é pró-Otan e pró-Ucrânia, embora muitos eleitores da direita sejam indiferentes às sanções ocidentais.
Além dos cortes de impostos, sua aliança quer renegociar o enorme plano de recuperação para a covid-19 da União Europeia e ter o presidente da Itália eleito por voto popular. Para mudar a constituição, ela precisaria de uma maioria de dois terços no Parlamento.
Adotando um velho lema controverso, “Deus, pátria e família”, ela faz campanha contra os direitos LGBT, por um bloqueio naval da Líbia para impedir que barcos de imigrantes cheguem à Europa e alertou repetidamente contra os migrantes muçulmanos.
Ela também busca uma “posição italiana diferente” em relação ao órgão executivo da UE. “Isso não significa que queremos destruir a Europa, que queremos deixar a Europa, que queremos fazer coisas malucas”, diz ela.
Depois de formar seu próprio partido em 2012, ela ganhou apenas 4% dos votos na última eleição em 2018.
Agora, como o único grande partido que ficou de fora do governo de coalizão de unidade nacional de Mario Draghi, ela liderou as pesquisas de opinião e deve ser a escolhida, segundo as pesquisas de boca de urna.
Sua aliança de direita com Silvio Berlusconi e o partido de extrema-direita Liga, do ex-ministro do Interior Matteo Salvini, também teve maioria.
Mas mesmo que ela tenha procurado tranquilizar os aliados ocidentais da Itália, por exemplo, apoiando fortemente a linha pró-Ucrânia do governo Draghi, suas políticas sociais conservadoras de linha dura estão preocupando muitos.
“Meloni não é um perigo para a democracia, mas um perigo para a União Europeia”, diz o professor Passarelli, que a coloca lado a lado dos líderes nacionalistas na Hungria e na França.
“Ela está do mesmo lado que Marine Le Pen ou Viktor Orban. E ela quer uma ‘Europa das nações’, então todos estão basicamente sozinhos. A Itália poderia se tornar o Cavalo de Tróia de Putin para minar a solidariedade, então ela permitiria que ele continuasse enfraquecendo a Europa.”
Agora, na esperança de se tornar a primeira mulher primeira-ministra da Itália, ela afirma sua identidade feminina, mas Passarelli acredita que o faz de uma maneira machista e política: “O domínio da família italiana é a ‘mamma’. Ela é a figura machista que controla a cozinha. Meloni usa isso de forma inteligente porque vai diretamente para o núcleo do nosso sistema.”
Para seus aliados que agora aspiram à vitória, a líder de 45 anos representaria a mudança política radical de que a Itália precisa, dada sua longa estagnação econômica e uma sociedade liderada por políticos de idade elevada.
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