10/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

A admiradora de Mussolini que rejeita rótulo de fascista será 1ª mulher a governar a Itália

Publicado em 26 de setembro, 2022

A admiradora de Mussolini que rejeita rótulo de fascista será 1ª mulher a governar a Itália

Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, o próximo líder da Itália deve vir da extrema-direita. A líder de extrema-direita Giorgia Meloni, do partido Irmãos da Itália (Fratelli d’Italia), venceu as eleições na Itália, de acordo com as pesquisas de boca de urna, e está a caminho de se tornar a primeira mulher premiê do país.

Se os dados da boca de urna se confirmarem, Meloni deverá ter entre 22% e 26% dos votos, à frente de seu rival mais próximo, Enrico Letta, de centro-esquerda. Os dados são da pesquisa do instituto Rai.

Várias pesquisas que acabaram de ser publicadas deram uma liderança dominante à coalizão de direita da qual Meloni faz parte – os partidos do grupo juntos devem ter entre 41-45% dos votos. Isso daria aos três partidos o controle de ambas as casas eleitas do parlamento e a possibilidade de formar um governo.

Cabe ao presidente Sergio Mattarella nomear o próximo primeiro-ministro, mas é provável que ele escolha a coalizão vencedora.

A centro-esquerda ficou bem atrás com 25,5%-29,5% dos votos. O comparecimento foi dramaticamente baixo, de 64,7%, disse o Ministério do Interior da Itália. Os níveis de votação foram especialmente baixos nas regiões do sul, incluindo a Sicília.

As eleições foram convocadas depois que o governo de coalizão liderado pelo premiê Mario Draghi entrou em colapso.

Quem é Giorgia Meloni?

Fundada em 2012, a legenda de Meloni tem suas raízes políticas no Movimento Social Italiano (MSI), que surgiu das cinzas do fascismo de Mussolini. O partido mantém o logotipo dos partidos de extrema-direita do pós-guerra: a chama tricolor, muitas vezes interpretada como o fogo queimando no túmulo de Mussolini.

Mas o rótulo fascista é algo que Giorgia Meloni rejeita com veemência. Falando em inglês, espanhol e francês em um vídeo recente, ela insistiu que deixou a ideologia no passado.

Porém, a história é parte do problema em um país que passou por um processo diferente da desnazificação da Alemanha após a 2ª Guerra, permitindo que os partidos fascistas se reformassem.

“Giorgia Meloni não quer abandonar o símbolo porque é a identidade da qual ela não pode escapar; é sua juventude”, diz Gianluca Passarelli, professor de ciência política da Universidade Sapienza de Roma.

“O partido dela não é fascista”, explica. “Fascismo significa tomar o poder e destruir o sistema. Ela não vai fazer isso e não poderia. Mas há alas no partido ligadas ao movimento neofascista. Ela sempre jogou de alguma forma no meio.”

A juventude de Giorgia Meloni esteve, de fato, ancorada na extrema-direita, mas com origens humildes, algo que é chave para sua imagem de mulher do povo.

Nascida em Roma, ela tinha apenas 1 ano quando seu pai, Francesco, abandonou a família e se mudou para as Ilhas Canárias. Francesco era de esquerda, sua mãe Anna era de direita, levando a especulações de que seu caminho político foi motivado em parte pelo desejo de se vingar de seu pai ausente.

A família mudou-se para Garbatella, um bairro operário no sul de Roma que é tradicionalmente um bastião da esquerda. Mas lá, aos 15 anos, ela se juntou à Frente Juvenil, ala juvenil do neofascista MSI, tornando-se depois presidente do ramo estudantil do sucessor do movimento, a Aliança Nacional.

Herdeiros de Mussolini

Em seu livro de 2021, I Am Giorgia, ela ressalta que não é fascista, mas se identifica com os herdeiros de Mussolini: “Peguei o bastão de uma história de 70 anos”.

Ao contrário de seus aliados de direita, ela não tem tempo para o russo Vladimir Putin e é pró-Otan e pró-Ucrânia, embora muitos eleitores da direita sejam indiferentes às sanções ocidentais.

Além dos cortes de impostos, sua aliança quer renegociar o enorme plano de recuperação para a covid-19 da União Europeia e ter o presidente da Itália eleito por voto popular. Para mudar a constituição, ela precisaria de uma maioria de dois terços no Parlamento.

Adotando um velho lema controverso, “Deus, pátria e família”, ela faz campanha contra os direitos LGBT, por um bloqueio naval da Líbia para impedir que barcos de imigrantes cheguem à Europa e alertou repetidamente contra os migrantes muçulmanos.

Ela também busca uma “posição italiana diferente” em relação ao órgão executivo da UE. “Isso não significa que queremos destruir a Europa, que queremos deixar a Europa, que queremos fazer coisas malucas”, diz ela.

Depois de formar seu próprio partido em 2012, ela ganhou apenas 4% dos votos na última eleição em 2018.

Agora, como o único grande partido que ficou de fora do governo de coalizão de unidade nacional de Mario Draghi, ela liderou as pesquisas de opinião e deve ser a escolhida, segundo as pesquisas de boca de urna.

Maioria

Sua aliança de direita com Silvio Berlusconi e o partido de extrema-direita Liga, do ex-ministro do Interior Matteo Salvini, também teve maioria.

Mas mesmo que ela tenha procurado tranquilizar os aliados ocidentais da Itália, por exemplo, apoiando fortemente a linha pró-Ucrânia do governo Draghi, suas políticas sociais conservadoras de linha dura estão preocupando muitos.

“Meloni não é um perigo para a democracia, mas um perigo para a União Europeia”, diz o professor Passarelli, que a coloca lado a lado dos líderes nacionalistas na Hungria e na França.

“Ela está do mesmo lado que Marine Le Pen ou Viktor Orban. E ela quer uma ‘Europa das nações’, então todos estão basicamente sozinhos. A Itália poderia se tornar o Cavalo de Tróia de Putin para minar a solidariedade, então ela permitiria que ele continuasse enfraquecendo a Europa.”

Agora, na esperança de se tornar a primeira mulher primeira-ministra da Itália, ela afirma sua identidade feminina, mas Passarelli acredita que o faz de uma maneira machista e política: “O domínio da família italiana é a ‘mamma’. Ela é a figura machista que controla a cozinha. Meloni usa isso de forma inteligente porque vai diretamente para o núcleo do nosso sistema.”

Para seus aliados que agora aspiram à vitória, a líder de 45 anos representaria a mudança política radical de que a Itália precisa, dada sua longa estagnação econômica e uma sociedade liderada por políticos de idade elevada.

Veja mais notícias em Geral

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.