23/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Conhecimento: O bem mais valioso do século XXI

Publicado em 15 de novembro, 2020

Por Francisco Cruz

Esta frase vem ocupando as mídias com frequência, como se novidade fosse. Não foram outros os fundamentos que trouxeram a humanidade até aqui. O diferente hoje são as dinâmicas. Se antes o crescimento seguia um ritmo linear, atualmente é exponencial, o que faz do conhecimento um bem abundante e valioso, mas, ao mesmo tempo, altamente perecível, vítima dessa mesma dinâmica.

No processo de desenvolvimento do nosso país, contudo, e no do nosso estado em particular, o conhecimento não tem sido um protagonista de destaque. Na segunda metade do século passado, por exemplo, Manaus foi premiada com a ZFM, um modelo cujos fundamentos vinculam-se ao conhecimento tecnológico. Festejamos muito, mas sem entender o processo, nos escoramos na política (de onde nunca saímos) e negligenciamos o conhecimento, ferramenta fundamental à independência e consolidação do modelo.

Motivado por essa percepção, em junho de 2001 publiquei artigo na Gazeta Mercantil, edição local, alertando para a necessidade de requalificar a educação tecnológica local, de modo a atender as demandas da ZFM. Um passo à frente, recomendava a contratação de talentos locais, de outros estados e até do exterior, com o fim de desenvolver localmente capacidades tecnológicas capazes de criar uma visão de futuro que pudesse transformar Manaus num “Centro de Excelência Tecnológica”.

Ao atingir esse patamar, Manaus estaria apta a dialogar com o resto do mundo, romper as fronteiras da ignorância e abrir espaço para um   enriquecedor intercâmbio de conhecimentos com o resto do mundo. A soma desses fatores, puxados pelo conhecimento, seriam o imã de atração de empresas que, com o DNA da criação e da inovação, abririam os caminhos à exportação, vencendo a inércia de voltar-se quase que exclusivamente para o mercado interno do país, como acontece hoje.

Esses mecanismos consolidariam o modelo criando um círculo virtuoso de desenvolvimento, capaz de libertar as empresas das incertezas do modelo aprisionador dos incentivos fiscais, para transformar-se na alavanca geradora de riqueza para o estado. Não aconteceu. O modelo fechou-se num casulo, deixou de monitorar o mundo, desconectou-se da realidade e perdeu a visão de futuro, que sequer conseguiu desenvolver.

Do outro lado do mundo a China já tinha enxergado esse futuro duas décadas antes. Abriu suas fronteiras às empresas estrangeiras, ajustou o seu modelo educacional à essa realidade e ao mesmo tempo mandou milhões de jovens em busca de conhecimentos mundo afora. Essas ações mudaram o patamar tecnológico daquele país, conquistou fatias expressivas do mercado internacional, transformou o país e fez ascender mais de 600 milhões de chineses à classe média.

Dez anos depois, em 2011, voltei a bater na tecla do “Centro de Excelência Tecnológica”. Tarde demais. O governo optara pela criação de uma nova universidade, que veio para ensinar mais do mesmo, afastando o estado, definitivamente do conhecimento tecnológico. Além disso, e o mais grave, é que os recursos que irrigaram e irrigam esse caminho, saem dos cofres das empresas que, teoricamente, demandam tecnologia. Dizem que rende votos até hoje. Não levo isso em conta. Prefiro acreditar na falta de visão.

Que todos esses acontecimentos nos sirvam de exemplo, nesse momento em que temos um modelo com baixa oxigenação e surge outro a nos cutucar, diuturnamente, exigindo ações efetivas para aproveitamento da nossa biodiversidade. Diante desse cenário, permito-me refrescar nossas memórias com os exemplos a seguir:

Em 1972, o Brasil era importador de alimentos. Esse foi o motivo que presidiu o governo da época a criar a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA). Primeira decisão da diretoria da empresa:  recrutar milhares de jovens para buscar conhecimentos em universidades e centros de pesquisas no Brasil e no exterior. Das instalações cuidaram depois. Resultado: ao fim de dez anos o país não mais importava alimentos e atualmente é o segundo maior produtor e exportador de alimentos do mundo, é tecnologicamente avançado e persegue com muitas chances o primeiro lugar. Vitória do conhecimento.

Do outro lado, em 2002, o governo de plantão considerou a importância da nossa biodiversidade e criou o Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA). Primeira decisão: construir o prédio-sede. Resultado: depois de 18 anos e muitos milhões gastos na construção e manutenção do suntuoso prédio, não se tem notícias de ações consistentes com a imaginada grandeza da nossa biodiversidade, com os interesses da sociedade e os objetivos da própria criação daquele Centro. Um caso típico de desconexão entre visão e ação, fato que sempre produz muitos gastos e danosas consequências.

Dizem os cientistas que o mundo já vive a “Quinta Onda”. A “Onda Biológica”. A “biodiversidade amazônica”, evidentemente, enquadra-se nessa onda. Como aconteceu com a ZFM, estamos a sonhar com um novo e redentor modelo econômico. Mas é bom não esquecer que ele só se materializará por meio do conhecimento.

Por isso, nos cabe desde logo, procurar respostas às questões da maior importância e gravidade, como: O que conhecemos efetivamente da nossa biodiversidade? Quantos biólogos e outras atividades afins as nossas universidades já formaram? Quantos já se especializaram? Quantos já se ocupam da pesquisa, no CBA, no INPA e nas Universidades? Que conhecimentos já temos em estoque? Quem os protege? Que estratégias foram definidas para passar esse eventual conhecimento para empreendedores, no curto, médio e longo prazos?

Se não houver respostas para essas questões a nossa decantada bioeconomia ainda é mera ficção diante de países como a Alemanha, por exemplo, cuja biodiversidade nem se compara com a nossa, mas já anunciou que em 2030, 25% do seu PIB virá da bioeconomia. E nós? Parece que sequer temos condição de responder as questões acima.

É bom estarmos atentos, pois o mundo está avançando em alta velocidade. Tome-se como exemplo a convergência da Nanotecnologia, Biotecnologia, Informática e Conectividade hoje agrupadas na sigla NBIC, que já operam mudanças em todas, absolutamente todas, as áreas da vida humana.

Em momentos de transformações profundas como a que atravessamos, aumentam as responsabilidades das nossas instituições afins, como: CBA, Universidades e Institutos de Pesquisas. Todos devem sentir esse peso, mas em nenhum deles o peso será maior e do que no INPA, afinal são 50 anos de pesquisa na região. Certamente deve possuir um acervo extraordinário sobre a nossa biodiversidade e outros conhecimentos não deixará passar essa oportunidade de oferecer a sua esperada contribuição ao desenvolvimento do nosso Estado e do nosso País.

 

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Autor
Francisco Cruz

* Francisco R. Cruz é empresário e trabalhou muitos anos na área de tecnologia e, entre 2001 e 20...

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