Depois que me tornei conhecido, pela frequência ao Fórum, as pessoas passaram a me abordar. Nos corredores e até nas ruas. Sempre atendi tanto no escritório como em minha residência. Mantinha uma saleta com porta de entrada, por onde as pessoas transitavam sem entrar em casa.
No interior, as pessoas acordam cedo, mas os moradores do hinterland, praticamente, madrugam. Batem na porta da gente antes das 7h.
Nunca cobrei por consultas ou pareceres. Nem, também, pelo patrocínio de ações de alimento de mães e de crianças abandonadas. Certa vez, atendi um pastor evangélico que me pediu orientação para um fiel de sua igreja que o acompanhou ao escritório. Advoguei uma questão de terras para a então Prelazia, que ganhamos em 1ª e 2ª instância.
As pessoas pobres do interior, de quem nada cobrava, às vezes deixavam um frango ou um pato em casa. Uma senhora muito pobre, que atendi em uma viagem que fiz a Urucará, deu-me de presente um enorme papagaio-moleiro – que já falava! Um fazendeiro, do Paraná do Caldeirão, presenteou-me com dois perus adultos. Um japonês, do Paraná do Ramos, a quem prestei orientação trabalhista e nada cobrei, mandou deixar em casa uma capoeira com várias galinhas. Marinila cuidou das galinhas, que logo passaram a abastecer a casa com ovos.
A propósito da Rádio Alvorada, tive um caso interessante que merece ser contado aqui. Tratava-se do gado de minha mãe que, desde o falecimento de meu pai, assim como seus terrenos rurais, passaram a ser cuidados por mim. Embora nascido em uma pequena fazenda de gado, tornei-me adulto e me distanciei dessa área. As poucas noções que tinha recebi foram de meu irmão Luiz, que dedicou sua vida a todos os desdobramentos da pecuária: cria, recria, engorda, comercialização, preparação de pastagens etc. Mas, admito que não se tratam de questões difíceis de entender. Por isso, acabei aceitando o encargo.
Por volta do ano de 1976, comecei a receber denúncias de que o gado vinha sendo roubado por vizinhos. Solicitei ao nosso vaqueiro que investigasse o problema e ele me trouxe nomes e detalhes, número de cabeças, lugar e hora do roubo, inclusive testemunhas presenciais. De posse desses dados, redigi um “aviso” que foi transmitido pela Rádio Alvorada, dizendo ao vaqueiro que eu já estava a par de tudo, quem era o ladrão, número e espécie das reses, e terminava dizendo que estava indo lá com a polícia para prender os ladrões.
O efeito foi fulminante e inesperado: o ladrão mandou um parente no meu escritório, confirmou a história e indenizou as cabeças de gado que tinha roubado!
Foi um santo remédio, que beneficiou não somente o gado de minha mãe, mas, também, o de outros vizinhos daquela região, que há muito se queixavam da diminuição de seus rebanhos. Na verdade, desbaratou-se uma quadrilha composta pelos ladrões e receptadores envolvidos, que estava equipada com embarcações e agia em todo o interior do Município de Parintins.
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* Paulo Lobato Teixeira é advogado e procurador do Estado aposentado.