
14,6% da população de Manaus tem ou já teve coronavírus, aponta estudo EPICOVID19-BR. Foto: Clóvis Miranda/DPE-AM
Estudo coordenado pelo Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel) revelou um aumento de 53%, em apenas duas semanas, na proporção da população com anticorpos para o novo coronavírus nos principais centros urbanos brasileiros.
O dado é resultado da segunda fase da pesquisa “Evolução da Prevalência de Infecção por Covid-19 no Brasil: Estudo de Base Populacional (Epicovid19-BR)”, financiada pelo Ministério da Saúde.
Conforme a pesquisa, no Amazonas foram feitos testes em habitantes de quatro cidades: Manaus, Lábrea, Parintins e Tefé. Em todas foram realizadas 250 pesquisas com testes, sendo que Manaus teve 31 positivos para o grupo, com 14,6% de pessoas que tem ou já tiveram o Covid-19.
Considerando a população da capital estimada em 2.182.763 (IBGE 2019), mais de 318 mil pessoas teriam sido infectadas ou estariam com o vírus.
A cidade com maior índice foi Tefé, que teve 43 positivos, com 20,2%. Lábrea teve 8 confirmados e taxa de 3,7%, e Parintins apresentou 24 infectados no grupo, com 11,3%.
As diferenças entre as capitais do Brasil foram marcantes. Em Boa Vista (RR), a proporção da população que tem ou já teve coronavírus foi estimada em 25%,ou seja, um de cada quatro habitantes da cidade está ou já esteve infectado.
Foi possível testar 200 ou mais pessoas em 26 das 27 capitais. Entre estas, seis apresentaram resultado superior a 10%: Boa Vista (RR), Belém (PA), Fortaleza (CE), Macapá (AP), Manaus (AM) e Maceió (AL). Das 10 capitais com percentuais mais altos da população com anticorpos, 4 são da Região Norte, 5 são da Região Nordeste e 1 da Região Sudeste.

Os pesquisadores avaliam que esse aumento de 53% foi estatisticamente significativo e é inédito em estudos similares. Na Espanha, um estudo semelhante indicou aumento de apenas 4% entre as duas etapas da pesquisa. Para chegar a este resultado, a pesquisa considerou as 83 cidades em que puderam ser testadas e entrevistadas pelo menos 200 pessoas nas duas fases da pesquisa para estabelecer uma base de comparação.
“Esse aumento lança um alerta sobre a velocidade com que a doença continua se espalhando pelo Brasil. Somos, hoje, o país em que a Covid-19 se expande de forma mais acelerada em todo o mundo”, disse o coordenador geral do estudo e reitor da UFPel, Pedro Hallal.
A segunda fase do EPICOVID19-BR, realizada entre os dias 4 e 7 de junho, traz resultados inéditos. Durante quatro dias de coleta de dados em 133 cidades espalhadas por todos os estados do Brasil, os pesquisadores concluíram 31.165 entrevistas e testes para o coronavírus.
Em 120 cidades, incluindo 26 das 27 capitais (com exceção de Curitiba), foi possível testar pelo menos 200 pessoas, todas selecionadas por sorteio. Para fins de comparação, na primeira fase da pesquisa, ocorrida entre 14 e 21 de maio, foram entrevistadas e testadas 25.025 pessoas, sendo que em 90 cidades foi possível testar 200 ou mais participantes.
“Esse avanço metodológico talvez seja o grande destaque da segunda fase da pesquisa. Com um maior número de entrevistas realizadas e de cidades incluídas nas análises, aumenta a nossa capacidade, enquanto epidemiologistas, de interpretar os dados sobre coronavírus no Brasil”, avalia o coordenador geral do estudo, Pedro Curi Hallal.
Em 83 cidades, foram entrevistadas e testadas 200 ou mais pessoas nas duas fases da pesquisa. Nessas cidades, a proporção da população com anticorpos aumentou de 1,7% na fase 1 para 2,6% na fase 2 (podendo variar de 1,5% a 1,8% na fase 1 e de 2,4% a 2,8% na fase 2 pela margem de erro da pesquisa).
No conjunto das 120 cidades que alcançaram 200 ou mais entrevistas na fase 2 da pesquisa, a proporção de pessoas com anticorpos, que significa que já tiveram ou têm o coronavírus, foi estimada em 2,8%, podendo variar de 2,6% a 3,0% pela margem de erro da pesquisa.
Esses dados já levam em consideração a taxa de falsos positivos e falsos negativos do teste rápido utilizado. Essas 120 cidades correspondem a 32,7% da população nacional, totalizando 68,6 milhões de pessoas, entre as quais,1,9 milhão(margem de erro de 1,7 a 2,1 milhões) estão ou já estiveram infectadas.A única cidade que não autorizou a realização da segunda fase da pesquisa foi Santo Antônio de Jesus, na Bahia.
Os resultados dessas 120 cidades não devem ser extrapolados para todo o país, nem usados para estimar o número absoluto de casos no Brasil, pois são provenientes de cidades populosas, com circulação intensa de pessoas e que concentram serviços de saúde.
A dinâmica da pandemia, portanto, pode ser distinta da observada em cidades pequenas ou em áreas rurais.No entanto, os pesquisadores voltam a afirmam que a contagem de pessoas com anticorpos no Brasil certamente já está na casa dos milhões, e não mais dos milhares. A comparação do número de pessoas com anticorpos estimado pela pesquisa com os números oficiais de casos confirmados aponta para uma grande disparidade.
No dia 3 de junho, véspera do início da pesquisa, essas 120 cidades somadas contabilizavam 296.305 casos confirmados e 19.124mortes. Os dados do EPICOVID19-BR estimam que, para cada caso confirmado de coronavírus nessas cidades, existem 6 pessoas com anticorpos na população.
Os resultados da segunda fase do EPICOVID19-BR para a segunda cidade mais populosa do Brasil, Rio de Janeiro, com 6,7 milhões de habitantes e 7,5% da população com anticorpos, estimam que 503 mil pessoas têm ou já tiveram o coronavírus na cidade.
Em algumas cidades, as diferenças entre os resultados da primeira e da segunda fase foram acentuadas. No Rio de Janeiro, por exemplo, a proporção estimada de pessoas com anticorpos para o coronavírus aumentou de 2,2% para 7,5%. Em Maceió, o aumento foi de 1,3% para 12,2%. Em Fortaleza, o aumento foi de 8,7% para 15,6%.
O EPICOVID19-BR é um estudo coordenado pelo Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Universidade Federal de Pelotas. O financiamento para a pesquisa é do Ministério da Saúde.
O estudo conta também com apoio do Instituto Serrapilheira, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), da Pastoral da Criança,e contou com doação do programa da JBS Fazer o Bem Faz Bem. A coleta de dados é de responsabilidade do IBOPE Inteligência
Veja mais notícias em Cidade