19/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Periculosidade no atacado

Publicado em 22 de novembro, 2016

Com a prisão quase simultânea de dois ex-governadores, cuja sede do governo é a metrópole brasileira de maior projeção mundial e que foi palco da última olimpíada, revela que o encarceramento de políticos deixa a esfera dos cargos eletivos proporcionais e passa a orbitar sobre aqueles que tiveram cargos majoritários. É interessante isto, primeiro porque os delitos cometidos evidenciam que a corrupção é muito mais organizada e deletéria quando está centrada no poder executivo. Porém, o foro privilegiado, na forma concebida no ordenamento jurídico brasileiro, serve de guarida para toda sorte de bandidos que buscam um cargo eletivo para fugir da justiça. Não obstante, voltando ao caso citado, ambos somente foram presos porque ostentam “ex” antes do substantivo que os caracterizam na cena política, remetendo-os a vala comum que nós pobre mortais estamos sujeitos: o foro de justiça de primeiro grau. Desta forma, aqueles que estão no topo do poder temem mais perder o mandato que a própria justiça, revelando um esdrúxulo e obsceno privilégio que alimenta a impunidade.

Em uma democracia séria o homem com um mandato eletivo deve ter somente sua imunidade de voz garantida, para que não esteja sujeito a ser intimidado por expressar sua opinião. Em termos práticos, face às evidências de um delito de seus pares, até poder nomeá-los por bandidos sem ter receio que possa ser processado por injúria ou difamação. Isto é necessário, pois os corruptos tendem a amealhar poder econômico e podem utilizar a justiça para calar e intimidar qualquer um menos abonado. Além do mais, os ricos tendem a construir redes de relacionamentos nas altas esferas da sociedade e catapultar ainda mais seus privilégios, mesmo quando pegos em flagrante delito. Isto é tão verdade que está proibido algemar criminosos de colarinho branco, pois os juízes do supremo parecem entender que somente o reles ladrão de quinta categoria, esse que aparece exibido nos programas mundo cão de final de tarde, merece ser subjulgado e algemado por oferecer real perigo à sociedade. Ledo engano, a menor periculosidade não é aquela quando o marginal age no varejo roubando o celular ou carteira do cidadão, mas quando atual no atacado e rouba a esperança de um atendimento digno nos hospitais, subtrai a oportunidade de uma boa educação pública e tira da sociedade recursos que ajudaria a proteger-nos desses tão periculosos ladrões de quinta.

Essa classe política que enriqueceu na vida púbica, age como novos ricos desvairados com o luxo que o dinheiro pode comprar e nada se distancia dos marginais “vida louca” que vão para as redes sociais ostentar o tênis de marca e a roupa de grife. Esses bandidos de colarinho branco ostentam viagens cinematográficas, restaurantes de luxo, carros importados, mansões nababescas e o cinismo estampado na cara. Invariavelmente também tem ao seu redor um séquito obsequioso que os chamam de “doutor”, porque essa subserviência também faz parte do jogo de poder que garante votos. Não estão na política para resolver nada, mas para perpetuar a miséria humana, pois dela se alimentam como abutres na carniça.

A cidade maravilhosa sangra como jamais sangrou e hoje pode ser considerada o reflexo do grande espelho de corrupção que cobre o Brasil, pois não há um mísero rincão deste país que não contenha políticos metástase dessa estirpe maligna. Basta olhar ao redor.

Nossas cidades, nossos estados e o nosso país não merecem tal sorte.

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Autor
João Lago

* João Lago é professor universitário, mestre em Administração (Estratégica / Marketing), tem 10 ...

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