Um jovem casal me procurou esta semana no escritório. Felizmente não era nada que exigisse conhecimentos, mesmo rudimentares, de direito penal. O rapaz e a moça (não mais de vinte anos cada um) queriam apenas realizar tarefa determinada por seu professor de história e foram à cata de alguém que, tendo vivido a ditadura militar, lhes pudesse falar sobre o período. Entraram, cumprimentaram, recusaram o cafezinho e ligaram máquina belíssima para gravar a entrevista. Primeira pergunta: “O que o senhor acha da ditadura militar”. Minha resposta: “Foi a pior merda que poderia ter acontecido ao nosso país”. Olharam-me espantados, talvez pela ênfase da afirmativa, talvez pelo suave palavrão que em nada se compara à grandeza de um debate na Câmara dos Deputados. Expliquei: a ditadura me alcançou quando em tinha vinte e um anos e cursava a quarta série da faculdade de direito. Ou seja, durante duas décadas que poderiam ter sido as mais férteis da minha vida, estive eu sob o jugo da opressão e da intolerância.
Quiseram saber se eu tinha sido vítima de tortura. Disse-lhes que não. De fato, não sofri nenhum dano físico imediato, causado por agentes do regime. Mas lembrei a eles a figura de Thomás Meireles, o amazonense que desapareceu de uma prisão militar e cujo corpo até hoje não foi encontrado, supondo-se que tenha sido atirado nas águas do Oceano Atlântico, conforme já registrou neste jornal o magnífico escritor que é José Ribamar Bessa Freire. E mencionei também a saudosa figura de Nestor Nascimento, o nosso querido Nego Nestor, cuja audição era de uma precariedade só comparável aos serviços das atuais telefônicas. Relação de causa e efeito, talvez, já que a surdez era decorrente dos amáveis “telefones” que lhe aplicaram nos ouvidos, em um porão ditatorial.
Contei-lhes, igualmente, que, fluindo já o ano de 1965, um jipe da polícia civil foi me apanhar na casa materna. Gentis, os dois agentes incumbidos da missão explicaram que o major Souza Carvalho, do exército brasileiro, os havia incumbido de me transportar até o quartel do Grupamento de Elementos de Fronteira – GEF, que ficava na ilha de São Vicente, onde hoje funcionam dependências da Marinha do Brasil. Diante da indagação sobre se era para levar escova de dentes e outros apetrechos de higiene pessoal, disseram-me que nada sabiam sobre isso. No caminho, apanharam outro contemporâneo de escola. E lá fomos nós. Por volta das duas da tarde, colocaram-nos em uma sala do quartel, onde fez sua entrada triunfal o inquisidor. Era jovem ainda o major. Tinha manchas violáceas pela face, o que lhe dava um aspecto razoavelmente sinistro. Foi uma sessão de inutilidades e sadismo psicológico. A questão toda é que pairava sobre aqueles perigosos moços, há pouco entrados na idade adulta, a terrível e brutal suspeita de serem eles comunistas e estarem a serviço de Moscou. Nunca pude esquecer a peroração do oficial: “Se eu confirmar que vocês são comunistas, vou mandar matá-los”.
Confesso que tremi nas bases. Como poderia eu escapar de sentença de morte tão sumária e friamente proferida, se desde os dezoito anos integrava uma das Organizações de Base do Partido Comunista Brasileiro? Já me via diante do pelotão de fuzilamento, imaginando se eu aceitaria a misericordiosa venda ou se, altivamente, receberia os tiros fatais de olhos bem abertos. Tudo besteira. Já escrevi aqui mesmo neste espaço: ou o serviço de inteligência do major era de uma deficiência acachapante ou ele próprio se condoeu da minha sina e me deu seu magnânimo perdão. Não há alternativa possível, porque comunista eu já era e hoje estou velho, mas ainda respirando.
Não sei se satisfiz as necessidades dos meus entrevistadores. Disse-lhes apenas o que sinto e penso, tendo acrescentado, é certo, que, por tudo o que viveu o povo brasileiro, não há nada que me deixe mais estarrecido do que ver, atualmente, que ainda existe alguém que proponha a volta da ditadura. Perguntaram-me os moços: “A que o senhor pode atribuir esse tipo de postura”? Só pude responder o seguinte: tenho que se trata, na melhor das hipóteses, de uma criminosa falta de conhecimento histórico e, na pior, de casos patológicos de estupidez e/ou debilidade mental. Com efeito, não me é dado entender que, tendo vivenciado a ditadura ou apenas dela tendo conhecimento pelos relatos históricos, alguém possa sentir saudades de trecho tão sombrio. Não, mil vezes não. É dever de todo patriota renegar a ditadura e jamais baixar a guarda na luta para impedir seu retorno. Seja ela de que viés for, militar ou judiciário. Será sempre ditadura. E quando, ao argumento de combate à corrupção, desprezam-se princípios constitucionais garantidores das liberdades individuais, o que se tem é nada mais nada menos que uma prática ditatorial disfarçada.
P.S. – Perdi, esta semana, um outro querido colega. Partiu para a viagem sem volta o doutor Fued Cavalcante Semen. Foi meu contemporâneo na Faculdade e meu colega no serviço jurídico do Banco do Brasil. Era profissional da maior competência e advogado que sempre honrou e respeitou o nosso Código de Ética, hoje tão desprezado. Aos seus familiares, minha solidariedade na tristeza e a certeza de que com eles choro a ausência do querido companheiro e amigo.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...