Fui ao velório do doutor Hidelberto Dias, uma grande figura humana que só engrandeceu a advocacia. Era competente e ético, qualidades que, como já disse alhures, não estão muito em voga na profissão, pelo menos nesses tempos escabrosos que vivemos. Com a sua partida, abre-se uma lacuna de difícil preenchimento, uma vez que as peças de reposição estão em falta. Se temos bacharéis saindo aos borbotões das centenas de cursos de direito que pululam pelo país, a contrapartida da qualidade perde de longe, muito longe, para a quantidade.
Mas, como eu ia dizendo, essa atividade de comparecer a velórios é recidivista na minha idade. Alfredo, o médico da família, me pondera entre pesaroso e consolador: “Pai, a média de vida do brasileiro é de setenta e cinco anos. Queres o que”? Nada, é óbvio. Talvez apenas esperar que as estatísticas sofram um pequeno processo de desgaste. Afinal de contas, o Jarbas Passarinho, mesmo tendo assinado o AI-5, quase chegou ao centenário. Sem consciência, é possível, dos males que causou a toda uma Nação. Coisas do imponderável.
Lá, no velório, fumávamos do lado de fora o poeta Dori Carvalho e eu. Depois de eu tecer amorosos elogios a Mozart e suas sonatas, o poeta, influenciado pelo ambiente, disse-me que, um dia desses, se deu à pachorra de escrever algumas pequenas disposições sobre a forma como se devem desenvolver os trabalhos quando chegar sua vez de enfrentar a inimiga das gentes. Não haverá velas, com o que, uma vez cumprido tal desejo, estará inaugurada a nova era do velório sem velas, o que pode parecer contraditório, mas tem lá sua carga de sensatez. Velas são sinistras por definição, sendo possível dizer que o medievo é a lembrança mais saudável que elas trazem à mente.
Atiçou-me a curiosidade a idiossincrasia do bardo. E quanto a mim? Como será quando eu mergulhar na “voluptuosidade do nada”? Arrisco-me, sem o talento ou a inspiração do poeta, a adiantar poucas coisas. Por exemplo: não gastem seu dinheiro com aquelas coroas ridículas. São caras e inúteis, de tal sorte que, em não as encomendando, estarão os sobreviventes dando um alento às suas economias e, ao mesmo tempo, deixando espaço livre para quantos se disponham a participar do fúnebre momento. Na mesma linha, não percam seu tempo assinando aquela folha de papel almaço que (até hoje não descobri a razão) os donos da funerária colocam logo ali, à porta de entrada. Velório, ao que me consta, não tem ata e se realiza com qualquer número de participantes, de maneira que nenhuma necessidade existe de verificação de quórum ou de chamada dos presentes para tomar alguma deliberação.
E os rituais religiosos? Quanto a mim, se me fosse dado opinar (o que, por óbvio, não será possível), estarão singelamente dispensados. Mas não descarto que a tradição de uma família irremediavelmente católica tenha seu peso. Paciência. Mal já não me poderá fazer. Mas que, então, vejam, pelo menos, se dom Luís Soares Vieira estará disponível. Não pela hierarquia de seu posto eclesiástico. Morto não tem vaidade. É que, culto e universal, aquele ilustre prelado haverá de recordar que lhe tenho dito, seguidas vezes, que meu ateísmo rende homenagens à grandeza de sua conduta apostólica. Se assim for, tenho certeza de que ninguém ouvirá algo do tipo “não fiquem tristes; este irmão acaba de ressuscitar para a vida eterna”. Eu mesmo já ouvi isso inúmeras vezes. Mas acredito que o meu cadáver (ele, mais do que ninguém, testemunha de sua irreversível condição), haveria de corar diante de tão piedosa e inofensiva, quanto inverídica, figura de retórica.
Sei que alguns (poucos, espero) se regozijarão com minha partida. “Esse escroto desse Valois já foi tarde”, haverão de dizer. Que o digam. Partindo de quem não presta, a ofensa é elogio e como tal, eu, defunto, receberei o galardão póstumo ofertado por aqueles que, com certeza, nunca puderam ou souberam abrir seus corações para o mundo. Em contrapartida e em compensação, minha memória estará para sempre gratificada se alguma pessoa, uma só que seja, assim se expressar: “Perdi um amigo leal e sincero”. Porque a vida não merece ser vivida se não podemos encará-la como uma permanente troca de sentimentos, seja quando ela se apresenta como “um manso lago azul”, seja quando ela se transmuda em “mar fremente”.
Só mais uma coisa: não esqueçam, por favor, de chamar a Charufe Nasser para cantar Siboney. E cuidem para que o Rinaldo Buzaglo e o Zico a acompanhem com os seus respectivos violões. Quando interromperem a eterna canção do Ernesto Lecuona, que haja uma vitrola (que nome mais antiquado!) para que todos possam ouvir uma outra obra prima: a sonata para violino e piano em mi menor, de Mozart. Se assim for, não haverá “choro nem vela”. O ex eu estarei perfeitamente apto para que quatro (ou seis?) empreendam a caridosa missão dos transportes finais.
Terei ido com a certeza de que amei e honrei minha Pátria e minha família. Que fui amigo sincero e com os inimigos jamais usei da deslealdade. Chorei com a corrupção e me alegrei com as conquistas do meu povo. Que meus filhos e netos de mim não se envergonhem. Fui brasileiro, amazonense, comunista, caprichoso e fastiano. Com muito orgulho. Estarei pronto para o grande final.
Veja mais notícias em Colunas
* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...