Artigo Felix Valois: Catarina Bianca

Estava eu posto em sossego no começo do sábado passado, 21 de maio, quando fui despertado por um alarido. A hora era absolutamente imprópria: sete da manhã, o que, no entender da boemia ortodoxa, configura alta madrugada, não sendo apropriado entregar-se a outra coisa que não seja o sono ou, nos casos extremos, ao encerramento da noitada. Mas muito que bem. Despertei e, por óbvio, quis saber a causa daquela perturbação extemporânea. Disseram-me com muita singeleza e visível alegria: a Catarina Bianca acabou de chegar, pesa mais de três quilos, mede cinquenta centímetros e já está mamando, como é de seu dever. Esclareço: a tal Catarina é a oitava na linha de sucessão da segunda geração, neste ramo da família. Em síntese, vinha eu de ganhar mais uma neta, elevando para cinco a três o placar em favor das moças, na disputa (que eu espero ainda não tenha terminado) com seus primos e irmãos.

Sonolento ainda, saí em direção à maternidade. Lá estava a figurinha, toda enrolada em panos e toucas, ostentando a indefectível cara de ratinho (ou de joelho, no entender do meu amigo Tadeu Nery) que marca o primeiro dia de qualquer bebê do mundo, nasça ele nesta selva tropical ou na gélida Sibéria. Impressiona a fragilidade. É curioso observar como o ser humano (mesmo com o cérebro desenvolvido do “homo sapiens”) é o único animal que não pode prescindir dos adultos para a sobrevivência. E por longos anos, não sendo de estranhar, portanto, que nos encantem as histórias ficcionais de Mogli, o menino lobo, e de Tarzan, criado por macacos. Ou de Rômulo e Remo, amamentados por uma loba para cumprirem o destino da criação de Roma.

A nova brasileirinha e amazonense vem ao mundo em momento de grave apreensão para seu povo. Por aí afora, os escândalos financeiros estouram com a facilidade de tenros balões, expondo as vísceras de um sistema viciado, em que a ganância e a corrupção tomam conta de governantes e governados. Aqui mesmo, a construção de um estádio de futebol faz avultar as dúvidas sobre o comportamento dos que tiveram a seu encargo a realização da obra. Em lamentável contrapartida, o Estado brasileiro, por intermédio de seus braços armado (a polícia) e togado (o judiciário), deflagra uma suposta guerra contra o crime, cuja marca primordial tem sido o escancarado desrespeito a princípios constitucionais, asseguradores dos direitos e liberdades fundamentais da cidadania. Triste e falsa contradição, que não encontra guarida nos domínios da dialética, pela simples razão de que não opõe contrários, mas, simplesmente, consagra a estultice de que há de prevalecer o mal menor sobre o maior, quando o correto é a busca pela eliminação de todos os males, independentemente de sua dimensão.

Mas aí está Catarina, a iniciar sua caminhada por este vasto mundo, que a oração católica, não sem alguma razão, chama de “vale de lágrimas”. Não posso recorrer ao oráculo de Elêusis para lhe traçar o futuro. Posso apenas esperar (não por muito tempo, é verdade) que ela vá conseguindo afastar espinhos e pedras, no afã de construir uma senda que lhe permita colher e distribuir flores, odorizando e amenizando as agruras inerentes à humana lida. Se a ela lhe fosse dado me entender, o que poderia eu dizer para manifestar minhas esperanças? Muito pouca coisa, talvez, por isso que, para um velho, a juventude absoluta há de ser objeto apenas de maravilhada contemplação (quiçá de inveja?). Uma coisa com certeza lhe diria: foge da inveja, do ódio e do rancor. Foge com todo o vigor de que dispuseres. Afasta-te deles e nunca lhes dês trégua. São inimigos figadais de quem pretenda conhecer o mínimo de felicidade.

Estuda. Isso também diria eu. Estuda, não para a mera satisfação de necessidades ou vaidades culturais, mas sim porque a ignorância é um estorvo grande demais, pesado demais, a se antepor às pretensões de realização como ser humano. Vê, querida Catarina Bianca, o deplorável estado a que foi conduzida a afastada presidente da República. Tudo culpa da ignorância. Tivesse ela estudado mais um pouco, feito pelo menos com regularidade singelos trabalhos escolares, por certo não teria passado pelo vexame de endeusar a bola como marco da civilização, de entoar um canto de louvor à mandioca e, muito menos, de se considerar uma “mulher sapiens”. Triste figura. Usa-a apenas como referência para tudo aquilo que não deves e não podes fazer.

Sê solidária, Catarina. Nunca te esqueças do canto do poeta: “somos todos iguais, braços dados ou não”. E sai pelas veredas do mundo a proclamar essa igualdade, na ânsia de que ela, um dia, se torne real, deixando de ser mero recurso de retórica. Busca que a fome e a miséria sejam banidas de vez. Mas não enganes ninguém dizendo que vais conseguir tal desiderato distribuindo esmolas ou fazendo caridade, seja em forma de bolsa ou de auxílio. Não permitas que as mães brasileiras sejam obrigadas a parir em baldes nem que as doenças de teus compatriotas sejam tratadas com desprezo e escárnio.

Serás grande assim, Catarina. Não sei se vais lembrar do teu avô. Mas, mesmo que se esvaiam de tua memória os traços desta velha figura, tem certeza de uma coisa: renovaste minha esperança e deste-me nova alegria. Auguro-te toda a felicidade do mundo, no momento mesmo em que celebro a tua vinda. Celebro-a invocando outro poeta, dos maiores que vais conseguir ler e que, referindo-se a um rei, proclamou: “Cesse tudo o que a antiga Musa canta/Que outro valor mais alto se alevanta”. Para ti, jovem princesa, digo o mesmo.

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Felix Valois

Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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