É uma coisa no mínimo estranha essa história de matar periquitos às centenas, como aconteceu ali pelas bandas da Avenida Ephigênio Sales. Estavam as avezinhas postas em sossego, apenas buscando alimento e fazendo barulho, eis senão quando uma fúria avassaladora sobre elas se abateu, levando-os a um óbito prematuro e, acima de tudo, desnecessário e perigoso. Isto porque, não se tendo notícia de que um periquito (ou vários deles) possa causar algum tipo de mal à espécie humana (muito pelo contrário), tem-se que se tratou de um periquiticídio sem motivo, ou motivado por algum interesse fútil ou torpe, o que, no plano elevado do direito penal, haveria de promover a conduta à condição de qualificada, tornando-a mais grave.
Afinal, que tipo de gente pode nutrir tanto ódio contra os periquitos? É assunto da mais alta indagação, a exigir elucubrações psicanalistas, de forma a definir o perfil do periquiticida em série e de tal maneira que a ele se chegue por meio de investigação rigorosamente científica. E tal providência é absolutamente necessária, já que a ordem pública está a exigir que seja retirado de circulação, com as cautelas de praxe, o indivíduo de extrema periculosidade que parece disposto a acabar com todos os periquitos desta aprazível cidade de São José do Rio Negro. E isso, não preciso enfatizar, seria uma tragédia de dimensões impensáveis.
Com efeito, como poderíamos viver sem os nossos periquitos? Impossível, é a sintética e firme resposta que se impõe. Não mais os ver pela manhã, ao acordar, em bandos que se deslocam com rapidez, de árvore em árvore, em busca do alimento que não puderam obter durante a noite. Não mais ouvir a gritaria persistente com que os indivíduos da espécie saúdam a porção ínfima do alimento ingerido, que, afinal de contas, periquito também come (muito, alguns e às vezes), já pertencendo ao cancioneiro popular brasileiro a certeza de que “o periquito da madame come milho, come arroz, come feijão”. Diz a canção que esses periquitos famintos podem sofrer de indigestão, o que é lamentável, pois um periquito doente não faz a alegria de ninguém.
Uma simples vista d’olhos no Dicionário Houaiss mostra a variedade de periquitos encontradiços nas terras e ares brasileiros. Pelo que a imprensa publicou a mortandade se abateu sobre os periquitos-de-asa-branca, assim definidos: “periquito amazônico (Brotogeris versicolurus), de até 21,5 cm de comprimento, que possui plumagem verde com secundárias e respectivas coberteiras de cor amarelo-pálida; periquito-da-campina, periquito-das-ilhas, periquito-de-asa-amarela, periquito-estrela”. Como se vê, a sinonímia é vasta para as vítimas do tresloucado gesto, não se sabendo ainda a razão de o furor deletério se ter voltado para esse tipo especificamente.
Poderia ter alcançado os periquitos-da-cabeça-suja. Trata-se de “periquito amazônico (Aratinga weddellii) de até 28 cm de comprimento, plumagem verde, cabeça cinza-azulada, ventre ger. amarelado e cauda parcialmente azul; guirri”. Ou o periquito-rei, sendo este “periquito de ampla distribuição no Brasil (Aratinga aurea), que atinge 27 cm de comprimento e possui testa e região perioftálmica amarelas e ventre amarelado; ararinha, jandaia”. Mas, não. O maluco concentrou sua insânia no pobre asa-branca que, assim, passou a ser a estação terminal dos delírios de um sociopata.
Já li (onde e quando não me lembro) que ninguém pode ser doido por completo. No caso de que se cuida existe, por exemplo, a observação de que, nutrindo tanto ódio pelos periquitos, o criminoso desloca sua preferência para outro tipo de animal. É um complicado processo psicológico que funciona como uma espécie de sistema de freios e contrapesos, de tal maneira que o ódio seja compensado, em outro campo, por extrema dedicação e afeto. Aqui, sendo o objeto da raiva os periquitos, o lado bom do indivíduo que os odeia se deslocaria para outro tipo de ave, especificamente as pombas, “designação comum a várias aves columbiformes da fam. dos columbídeos, com ampla distribuição no mundo, granívoras, que possuem bico com a base coberta por uma cera, plumagem macia e rica em pó e pés ger. vermelhos; picaú”.
Fica aí essa sugestão gratuita para a polícia ambiental: procure alguém que seja louco por pombas e estará, quase com certeza, no caminho indicado para identificar o inimigo dos periquitos. Pode ser pomba-amargosa, pomba-cabocla ou pomba-cascavel, ou ainda pomba-de-bando, pomba-de-espelho ou pomba-de-santa-cruz. Seja lá o que for, pomba-do-cabo, pomba-do-sertão ou pomba-galega, o certo é o procurado há de ter um imenso pombal, onde cobre de carinho e amor o objeto de seu afeto, tratando-o com especial deferência, como sói acontecer com os pombamaníacos. Que ele seja identificado, podendo levar para a cadeia tantas e quantas pombas bem entender e sejam elas do tipo que forem. Contanto que deixe em paz nossos periquitos que nós outros, também por uma questão de preferência, tanto amamos e reverenciamos.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...