Nunca vi uma onça bebendo água. Talvez por isso jamais consegui entender por que esse momento é tão importante, a ponto de ser alçado à categoria de dito popular. Afinal, saciar a sede é gesto instintivo e natural, seja o sedento posicionado no topo das espécies, como nos pretendemos, seja ele o próprio exemplo da ferocidade, como é o caso do felino habitante destas vastas selvas amazônicas. Só me cabe especular, imaginando que a onça esteja a exigir água limpa, o que há de determinar o afastamento completo dos outros animais, a fim de que a fonte não seja toldada pela afluência e avidez dos que também a procuram com a mesma finalidade. Assim, parece-me razoável ponderar que “a hora de a onça beber água” é a ocasião em que todos se hão de recolher às suas respectivas insignificâncias, restando-lhes apenas o aguardo de que o ato solene chegue ao fim, sem que prejuízos maiores tenham ocorrido para os não precavidos. É o quê, se me não falha a percepção, está a ocorrer na República, depois de proclamados os resultados eleitorais do último domingo. Estão todos encolhidos, esperando que a onça do civismo sacie sua sede que, quando nada, vem-na atormentando ao longo de doze anos.
Primeiro foi o mensalão. Logo nos albores da era petista, o conluio passou a funcionar com toda a força, implantando um esquema de compra de votos de parlamentares “como nunca se vira antes na história deste país”. O favor era negociado à sorrelfa, como é da essência da ilicitude. O dinheiro das transações jorrava de fontes amplamente diversificadas, de tal maneira que o cofre da “empresa” nunca estivesse desprevenido, pois, sendo vários os pontos de interesse do governo central, eram também variados os segmentos de atuação.
A coisa era de tal porte que o comando das operações funcionava em endereço nobre, gerindo-se as negociatas a partir do próprio Palácio do Planalto, sede de nada menos que o governo da República. O então ministro Chefe da Casa Civil da Presidência veio a ser condenado. Seu gabinete, por motivos óbvios, ficava localizado nas proximidades do lugar de trabalho do Presidente e este, por sua vez, era também o presidente de honra do Partido dos Trabalhadores, pelo qual foi eleito e em benefício do qual eram praticados todos os atos do esquema. Apesar disso, confrontado, o senhor Lula da Silva jurou de pés de juntos que de nada sabia, porque nada vira nem ouvira, passando-se tudo à sua inteira revelia.
Essa ignorância, congênita ao que parece, lhe valeu a reeleição, premiando-se assim a cegueira e a surdez de quem não tinha o direito de ser cego nem surdo em assuntos de interesse da Nação. Foi reeleito, apesar de um dos mensaleiros, inconformado com a injusta distribuição do butim, ter soltado sua estentórea voz aos quatro cantos do Brasil, denunciando a fraude e a corrupção. Foi reeleito e prosseguiu na sua faina de populista e assistencialista, cujo desenvolvimento sempre se deu à custa de dinheiro das estatais, que viam subtraídos e minguados os seus orçamentos.
Reeleito, fez ainda sua sucessora, aquela mesma que fora ocupar o cargo vago com o afastamento do ministro Chefe da Casa Civil, que não resistiu às denúncias nem às evidências. E, então, renovada, a traquinagem tomou fôlego, já agora num estágio superior, eis que, se “o hábito faz o monge”, também é certo que “o uso do cachimbo faz a boca torta”. E vieram a Petrobrás e os Correios.
Os Correios do Brasil chegaram a ter padrão internacional, servindo de parâmetro mesmo para países do chamado primeiro mundo. Hoje, ninguém neles confia e não foi só o avanço da cibernética que está impedindo sejam eles utilizados mesmo para o singelo ato de selar um envelope. Foi entupido de petistas, selecionados apenas pelo fácil método de exibição da carteirinha do Partido e da maior ou menor força do responsável pela indicação para a sinecura. Como consequência, a qualidade técnica foi para as cucuias e os Correios se viram reduzidos a mero instrumento de boicote da propaganda eleitoral de candidatos adversários.
A Petrobrás é um caso de polícia. Tendo ostentado o galardão de ser uma das maiores empresas do mundo, entrou num processo de derrocada depois que seus dirigentes, todos igualmente petistas, inclusive a atual Presidente da República, conseguiram envolvê-la em negócios desastrosos, geradores de prejuízos incontáveis. E de nada adiantaram a autossuficiência nem o pré-sal. A Petrobrás já não faz jus ao orgulho que todos os brasileiros dela tínhamos, na época em que representou a própria voz da nossa soberania.
Por tudo isso, a onça vai beber água no próximo dia 26. Acautelem-se os trambiqueiros e trampolineiros. A hora é de mudar e acabar com esse império de corrupção, desmandos e arrogância que o PT e seus aliados implantaram no Brasil, inclusive no Amazonas. Sou 45. Multiplicando por dois, dá 90. É isso aí.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...