Fui falar da Casa Dias e as memórias da Manaus d’antanho afloraram vivas nos amigos que, por mera gentileza, se dão à pachorra de ler estas mal traçadas. Elas não revelam nenhuma pretensão literária, que seria tolice alimentar alguma, na idade em que viver tranquilo talvez seja o único desejo legítimo. De difícil realização, reconheço, já que a vida é em si mesma um trambolho, mas de viável persecução, até porque o singelo sorriso de um neto é suficiente para satisfazê-lo nas vezes em que a monotonia do cotidiano se mostra mais pesada do que as burras que se encheram com a caudal de dinheiro derramada dos escândalos na Petrobrás.
Mas deixa isso pra lá que as eleições estão à porta e não quero ser acusado de fomentar cizânia nas hostes dos que tudo podem e nada sabem, porque saber seria confissão de culpa, mas poder é indispensável para continuar não sabendo e fazendo. É melhor falar das lembranças que me foram avivadas com a publicação anterior. Por exemplo: Alberto Petrônio Benevides de Carvalho, exemplo marcante de que ser policial não implica necessariamente em ser grosseiro e/ou mal educado, recorda que na Curva da Morte, aquela ali da Cachoeirinha, ocorria o Arraial dos Cachorros. Como sinceramente não me lembro do evento, fico a imaginar que o nome decorra do fato de que o “footing” atraísse considerável número de indivíduos da espécie canina, que, sem conhecer a carrocinha, haveriam de dar vazão aos seus instintos libertários.
É o mesmo Petrônio que, jocosa e maldosamente, afirma de maneira textual: “E para refrescar a memória de alguns, no Canto do Quintela havia uma estância em terreno ocupado posteriormente por Casas do Óleo, e ali residia um certo Luís Cangalha, massagista pederasta (ou fiu-fiu) que, fosse onde fosse a lesão, procurava sempre massagear o entorno do tronco da coxa”. Cruz, credo, como diria minha avó. Juro de pés juntos que nunca tinha ouvido falar do Cangalha e por isso, só por isso, não o mencionei na crônica antecedente. Não posso, pois, falar das habilidades do nosso bom massagista, até porque, nestas épocas de caça às bruxas, só me faltava algum debiloide me vir imputar a pecha de homofóbico, logo eu que, hetero por natureza e convicção, jamais zombei do gosto, bom ou ruim, de quem quer que seja. Quem quiser maiores explicações, deve procurar o próprio delegado Petrônio, o qual, lhano e de fino trato, haverá de revelar de que baú foi desencavar tamanha concupiscência, deixando patente, com o “alguns” do seu texto, o quanto foi atrasada a primeira cerimônia de casamento homossexual.
Sem abordar detalhes íntimos de tal natureza, o doutor Mário Conhago me ralha solenemente: “Faltou o cine Guarany, o cachorro quente do Mudinho, o Polytheama e o bar dos pés inchados, Jaú, ao lado deste cine”. Não foi esquecimento, querido Mário, apenas falta de espaço e, o que é infinitamente mais grave, de talento. Qual moleque da minha geração poderia esquecer o Guarany? Eram fortes os festivais de desenho animado nos aniversários da casa e as sessões das treze horas eram praticamente imperdíveis com os disparos e cavalgadas de Rock Lane e Durango Kid, lutando contra índios e malfeitores. É certo, e cuido que a memória não me trai, que a galeria do cinema, nas sessões noturnas, não gozava de reputação das mais ilibadas, sendo, ao que consta, frequentada pelos amigos do massagista do doutor Petrônio.
O Mudinho era patrimônio de todos os estudantes do Colégio Estadual e de quantas mais escolas houvesse no entorno. Desafiando o imperialismo norte-americano, inventou ele o primeiro cachorro quente sem salsicha. O pão vinha recheado com um picadinho delicioso, cujo tempero fazia lembrar, ainda que de longe e sem nenhuma heresia, o sabor da tartaruga, daquela verdadeira, feita sem azeitona nem ovo de galinha, mas apenas com alfavaca, chicória e cheiro verde, como rezava o cânone número um do manual culinário de dona Lucíola. E essa beleza era feita e servida a partir de um carrinho estacionado precisamente em frente ao Guarany. Não existiam nem a Anvisa nem o Ibama. Ainda bem. O Polytheama ficava bem ao lado, ambos os cinemas na esquina da Sete de Setembro com a Getúlio Vargas. Lembro-me de que, na sua reinauguração, lá pelo começo dos anos sessenta, me enfarpelei todo para assistir à exibição de “Guerra e Paz”. Pertencia à família Carreira e, tal como seu vizinho, tinha frisas laterais, no melhor estilo de teatro. Era ali que, de tempo em tempos, se promoviam umas sessões denominadas “só para homens”. O que se exibia então eram fitas que, comparadas com a tecnologia de alta definição, poderiam ser classificadas como pornografia de péssima qualidade.
E ao lado, bem colado no Polytheama, ficava o paraíso dos pinguços, o Bar do Jaú. A bebida mais suave que rolava pelo balcão e pela calçada era a Cocal, familiarmente conhecida como “cinco letras que choram”. Ali, as noites não tinham começo nem fim. Era sempre a tranquilidade do êxtase. Coisas de Manaus.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...