26/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Sonho mais ou menos possível

Publicado em 15 de agosto, 2014

A morte não tinha nada que interferir na disputa presidencial brasileira, mas, se resolveu meter o bedelho, deveria pelo menos ter regulado seu GPS para não cometer o brutal erro de endereço ocorrido no acidente aéreo em São Paulo. Eu não iria votar no doutor Eduardo Campos, assim como não vou fazê-lo na sua substituta natural que é a ecologista e evangélica Marina Silva. Isso não pode ser obstáculo a que reconheça o valor do falecido num quadro político em que as forças dominantes esbanjam prepotência e demonstram pouquíssimo escrúpulo no trato com a coisa pública. O ex-governador de Pernambuco era um homem honrado que conseguiu a façanha de servir ao governo petista sem se deixar respingar pelos dejetos do ambiente, responsáveis, entre outras coisas, pelo mensalão e pela derrocada da Petrobrás.

Seu desaparecimento ocorre, pois, em momento de todo em todo inoportuno, por isso que subtrai do povo a oportunidade de, ampliado o leque de escolhas, optar por algo que ponha fim ao tormento de doze anos em que nos debatemos. Estou verdadeiramente cansado dos conchavos e conciliábulos em que o lulopetismo envolveu meu país. Tudo é feito à sorrelfa, tudo tem um odor de coisa ruim, porque tudo visa à manutenção do poder a qualquer preço. Do Partido que surgiu há coisa de trinta anos nada resta, a não ser o nome. Suas bandeiras, seus apregoados ideais e objetivos, tudo foi jogado no lixo como sucata, eis que, atingido o objetivo em 2012, a ética foi colocada para escanteio dando lugar a um jogo em que a única regra é a autopreservação.

O sistema educacional no país é um caso de clínica psiquiátrica. Não dá para entender por maior que seja a boa vontade. Os professores, de qualquer nível, são remunerados de forma aviltante, sem que se lhes proporcione a oportunidade de aperfeiçoamento pedagógico, vindos, eles próprios de uma formação básica deficiente em todos os sentidos. O alunado é mero fator estatístico. Como não dá para disfarçar o alvo puramente eleitoreiro, o que importa é divulgar os números, sempre crescente, de alunos matriculados na rede pública, sem nenhum cuidado com a qualidade do quê supostamente lhes vai ser ensinado. Para manter um artificial nível de eficiência, proíbem-se as reprovações, criando-se a inusitada forma de aprendizado por decreto. Algo assim como um silogismo em que a premissa maior é “quem frequenta a escola, aprende”, a menor é “você foi à escola”, para chegar à síntese admirável e irrepreensível: “logo, você aprendeu”. Admirável.

E vamos assim criando gerações de alienados, pessoas totalmente descompromissadas com o país em que nasceram e em que vivem. É difícil, num cadinho dessa ordem, fazer florescer o verdadeiro patriotismo, aquele que não se esgota no hastear do pavilhão nacional durante o jogo da seleção de futebol, mas aquele que se entranha no íntimo do ser e que deve se apresentar como o maior gerador de orgulho do simples fato de ser brasileiro. Daí a autodepreciação, a falta de perspectivas, tudo a engendrar atitudes negativas, como a que insiste em institucionalizar o tal “jeitinho” ou como a que, diante de um escândalo de proporções nacionais, profere a suprema idiotice: “Isso é Brasil”.

Pode até ser, que uma sociedade sempre haverá de apresentar múltiplas facetas, como enfatizaria sem pudor o Conselheiro Acácio. Mas não é o Brasil com que duzentos milhões de gentios sonham e que devem e podem construir, impedidos de fazê-lo apenas pela incompetência e vícios de governantes deploráveis. Um Brasil que compreenda que, sem uma educação aprimorada, principalmente no setor tecnológico, as opções se encolhem e as esperanças se anulam. Um Brasil em que o governo não faça da miséria e da pobreza instrumentos de sua própria ambição, transformando os miseráveis e os pobres em simples objeto de propaganda política, humilhando-os com as “bolsas” de todos os tipos, símbolo maior da desfaçatez e da incúria. Um Brasil em que os doentes recebam atendimento e tratamento dignos, sem as macas pelos corredores de hospitais e sem mulheres parindo em baldes. Onde o ato de marcar uma consulta médica não se transforme num pesadelo kafkiano de burocracia e onde não se tenha que conversar com as patologias, pedindo-lhes que detenham suas evoluções até que um exame laboratorial seja realizado.

Por tudo isso a morte de Eduardo Campos é ainda mais lamentável, pois ele representava uma alternativa a esse ambiente apocalíptico em que vivemos. A campanha vai prosseguir sem ele e todo cuidado é pouco. A propósito, vi na internet uma charge que retrata o grau de preocupação que se deve ter na hora de votar. Há duas fotos com as legendas: “isto é um penico” e “isto é uma urna eletrônica”. E a advertência: “Faça a cagada no lugar certo”. O linguajar não é elogiável, mas torço para que os brasileiros satisfaçam corretamente suas necessidades fisiológicas. Parafraseio Machado de Assis: “Sonho, não quero outro flagelo”.

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Marcos Santos

Marcos Santos é radialista e jornalista. Começou em rádio, narrando futebol, aos 12 anos, na Rádi...

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.