A morte não tinha nada que interferir na disputa presidencial brasileira, mas, se resolveu meter o bedelho, deveria pelo menos ter regulado seu GPS para não cometer o brutal erro de endereço ocorrido no acidente aéreo em São Paulo. Eu não iria votar no doutor Eduardo Campos, assim como não vou fazê-lo na sua substituta natural que é a ecologista e evangélica Marina Silva. Isso não pode ser obstáculo a que reconheça o valor do falecido num quadro político em que as forças dominantes esbanjam prepotência e demonstram pouquíssimo escrúpulo no trato com a coisa pública. O ex-governador de Pernambuco era um homem honrado que conseguiu a façanha de servir ao governo petista sem se deixar respingar pelos dejetos do ambiente, responsáveis, entre outras coisas, pelo mensalão e pela derrocada da Petrobrás.
Seu desaparecimento ocorre, pois, em momento de todo em todo inoportuno, por isso que subtrai do povo a oportunidade de, ampliado o leque de escolhas, optar por algo que ponha fim ao tormento de doze anos em que nos debatemos. Estou verdadeiramente cansado dos conchavos e conciliábulos em que o lulopetismo envolveu meu país. Tudo é feito à sorrelfa, tudo tem um odor de coisa ruim, porque tudo visa à manutenção do poder a qualquer preço. Do Partido que surgiu há coisa de trinta anos nada resta, a não ser o nome. Suas bandeiras, seus apregoados ideais e objetivos, tudo foi jogado no lixo como sucata, eis que, atingido o objetivo em 2012, a ética foi colocada para escanteio dando lugar a um jogo em que a única regra é a autopreservação.
O sistema educacional no país é um caso de clínica psiquiátrica. Não dá para entender por maior que seja a boa vontade. Os professores, de qualquer nível, são remunerados de forma aviltante, sem que se lhes proporcione a oportunidade de aperfeiçoamento pedagógico, vindos, eles próprios de uma formação básica deficiente em todos os sentidos. O alunado é mero fator estatístico. Como não dá para disfarçar o alvo puramente eleitoreiro, o que importa é divulgar os números, sempre crescente, de alunos matriculados na rede pública, sem nenhum cuidado com a qualidade do quê supostamente lhes vai ser ensinado. Para manter um artificial nível de eficiência, proíbem-se as reprovações, criando-se a inusitada forma de aprendizado por decreto. Algo assim como um silogismo em que a premissa maior é “quem frequenta a escola, aprende”, a menor é “você foi à escola”, para chegar à síntese admirável e irrepreensível: “logo, você aprendeu”. Admirável.
E vamos assim criando gerações de alienados, pessoas totalmente descompromissadas com o país em que nasceram e em que vivem. É difícil, num cadinho dessa ordem, fazer florescer o verdadeiro patriotismo, aquele que não se esgota no hastear do pavilhão nacional durante o jogo da seleção de futebol, mas aquele que se entranha no íntimo do ser e que deve se apresentar como o maior gerador de orgulho do simples fato de ser brasileiro. Daí a autodepreciação, a falta de perspectivas, tudo a engendrar atitudes negativas, como a que insiste em institucionalizar o tal “jeitinho” ou como a que, diante de um escândalo de proporções nacionais, profere a suprema idiotice: “Isso é Brasil”.
Pode até ser, que uma sociedade sempre haverá de apresentar múltiplas facetas, como enfatizaria sem pudor o Conselheiro Acácio. Mas não é o Brasil com que duzentos milhões de gentios sonham e que devem e podem construir, impedidos de fazê-lo apenas pela incompetência e vícios de governantes deploráveis. Um Brasil que compreenda que, sem uma educação aprimorada, principalmente no setor tecnológico, as opções se encolhem e as esperanças se anulam. Um Brasil em que o governo não faça da miséria e da pobreza instrumentos de sua própria ambição, transformando os miseráveis e os pobres em simples objeto de propaganda política, humilhando-os com as “bolsas” de todos os tipos, símbolo maior da desfaçatez e da incúria. Um Brasil em que os doentes recebam atendimento e tratamento dignos, sem as macas pelos corredores de hospitais e sem mulheres parindo em baldes. Onde o ato de marcar uma consulta médica não se transforme num pesadelo kafkiano de burocracia e onde não se tenha que conversar com as patologias, pedindo-lhes que detenham suas evoluções até que um exame laboratorial seja realizado.
Por tudo isso a morte de Eduardo Campos é ainda mais lamentável, pois ele representava uma alternativa a esse ambiente apocalíptico em que vivemos. A campanha vai prosseguir sem ele e todo cuidado é pouco. A propósito, vi na internet uma charge que retrata o grau de preocupação que se deve ter na hora de votar. Há duas fotos com as legendas: “isto é um penico” e “isto é uma urna eletrônica”. E a advertência: “Faça a cagada no lugar certo”. O linguajar não é elogiável, mas torço para que os brasileiros satisfaçam corretamente suas necessidades fisiológicas. Parafraseio Machado de Assis: “Sonho, não quero outro flagelo”.
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Marcos Santos é radialista e jornalista. Começou em rádio, narrando futebol, aos 12 anos, na Rádi...