Com a prorrogação da Zona Franca por mais cinquenta anos vem-me a certeza de que terei uma morte tranquila. Não se trata de qualquer arroubo de amor exacerbado pelo meu Estado ou pela minha cidade, o que seria mera manifestação de pieguice. É certo que ambos moram no meu coração, mas é claro que a simples aprovação de uma Emenda Constitucional a eles vinculada não teria como refletir no cenário em que se desenvolverá o meu passamento. Por que afirmo isso, então?, haverá de perguntar alguém afeito à lógica do raciocínio. E respondo com singeleza: é que, pelo resto da minha velhice, não mais terei que aguentar a chatice, anualmente repetida, sobre a necessidade de prorrogação dos incentivos fiscais.
Era tão sistemático como as cheias e vazantes dos grandes rios da bacia amazônica. Chegava uma determinada época e a mídia, sem exceção, iniciava um processo repetitivo de informações sobre os prós e contras da medida a ser adotada. E um tom apocalíptico marcava as ameaças terríveis que pairavam sobre nossas cabeças, na hipótese de não aprovação de alguma providência que tivesse o condão de destruir a besta, de fauce horrenda. “Visite o Amazonas antes que a Zona Franca acabe”. “Sem a Zona Franca vamos voltar a ser porto de lenha”. “Eu te amo, Zona Franca, e sem ti não consigo viver”. Eram, se me não falha a já combalida memória, algumas das manifestações apaixonadas que permeavam conversas e adesivos de automóveis.
Paralelamente era também travada uma guerra particular sobre a paternidade do modelo e da sua continuidade. Tão acirrada que nem o mais sofisticado laboratório de análises, com especialização em exame de ADN (ácido desoxirribonucleico), conseguiria suplantar as dúvidas estabelecidas pela disputa entre os inúmeros pais-da-pátria a reivindicar a façanha genética. “Sem o meu apoio – esbravejava um influente prócer – a Zona Franca já era”. “É – replicava outro –, mas fui eu que passei duas horas no Palácio do Planalto convencendo os altos escalões da República de que a nossa Zona Franca é intocável”. Assim, sem jamais saber com certeza a quem estender a mão para pedir a bênção, a Zona Franca recebe a afirmação clínica de que chegará ao centenário. Tomara e que os meus bisnetos e tetranetos não tenham que engolir a metástase da doença.
Já lhes vai bastar (e dessa aí, felizmente, não há jeito de fugir) a permanente encenação das campanhas eleitorais. Felizmente, é claro, pelo lado institucional, já que a outra opção seria a ditadura (cruz, credo). Mas não que seja muito diferente da questão anterior em matéria de aporrinhação e descaramento. Com regularidade sazonal as promessas se renovam. E não são cumpridas, ou, se o são, são-no à custa de uma dinheirama que não caberia nas instalações físicas do Forte Knox. Isso sem falar no aspecto mais trivial do assunto, a se expressar pela forma como a propaganda se desenvolve. Na bola do Parque 10, por exemplo, ali na frente do conjunto Eldorado, caminho obrigatório para este velho advogado, é constrangedor ver diariamente o poder econômico humilhar centenas de jovens, incumbidos de desfraldar e acenar bandeiras, que nada dizem porque nada simbolizam.
Mas não ouvi até hoje, e pelo visto jamais ouvirei, uma palavra que fosse na tentativa de justificar (ou pelo menos explicar) a demolição do estádio Vivaldo Lima. Vou repetir o que já disse inúmeras vezes: se o Vivaldão não tinha condições de ser adaptado às exigências da FIFA para o campeonato mundial, que se construísse outro estádio. Estaria, pelo menos, poupado o dinheiro público empregado na destruição e que não foi nenhuma bagatela dessas que se depositam na bacia das almas. “Ora, mas a Arena está tão bonita”, há de ser a ponderação de um esteta otimista. Que esteja linda de morrer e nem discordo disso. Acontece que não pago meus impostos (inúmeros e pesados) para vê-los em orgias de desnecessário esbanjamento.
Há uma novidade, porém. Pela primeira vez na história eleitoral brasileira surge uma acusação de que a máquina do poder público estaria sendo usada na campanha. Fiquei estarrecido. Nunca, nos meus setenta e um anos de vida, tinha eu ouvido falar de que tamanha aberração fosse possível ou imaginável. Sempre soube que todos os detentores do poder, em todas as épocas, se comportaram como magistrados irreprocháveis durante o período eleitoral, mesmo estando em jogo seus interesses pessoais. Há de ser alguma sandice dessas que se debitam ao fator emocional. Os próprios acusadores, que também já detiveram o poder, sabem que isso não se faz. E nunca fizeram, como seriam capazes de jurar de pés e mãos juntos, afastando qualquer possibilidade de hipocrisia.
É isso aí. Esquecendo os dez a um que a seleção tomou em dois jogos, o resto é curtir a pândega.
Veja mais notícias em Colunas
* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...