11/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

WO

Publicado em 10 de julho, 2014

Nos meus tempos de criança, era comum um time de futebol não comparecer para a partida. Tudo era amadorista, os clubes desorganizados, de forma que às vezes não dava nem para completar a equipe. Ausente um dos competidores, o árbitro dava formalmente início ao jogo e imediatamente o encerrava, ficando consignado que o faltoso havia perdido por WO, sigla inglesa para “walkover”, algo como “fugiu”, numa tradução bem simplista. Como a seleção brasileira não entrou em campo na última terça-feira, não sei por que estão chorando tanto com os sete a um que o placar eletrônico consignava. Para mim, depois do quinto gol, a coisa deixou de ter qualquer importância e fui tranquilamente sorver meu “red label”, já que, não vendo nenhum jogador brasileiro em campo, o que aconteceu foi um simples WO.

Triste fiquei, é claro. Afinal, uma equipe milionária, movida a dólares e a euros, devia ter o mínimo de vergonha na cara e não proporcionar aquele papelão ridículo diante de um público de quase duzentos milhões de pessoas. Fomos todos condicionados, desde pequenininhos, a gostar de futebol. Salvo as exceções de praxe para a confirmação da regra. Era compreensível, portanto (mais que compreensível, era natural), que estivéssemos na expectativa de ganhar e ganhar bem. Ouvimos as marchinhas da seleção, reunimos os parentes e amigos, gelamos cervejas e refrigerantes e, na hora agá, nada, absolutamente nada. O Brasil não apareceu para jogar.

E onde se teria escondido esse time tão badalado? Aí é que a porca torce o rabo. Já quando do jogo contra o Chile, a coisa não parecia estar nos trilhos corretos, nem dentro dos limites de velocidade exigidos e compatíveis. Estava eu em Parintins, na casa de meu querido amigo Alfredo Santana, e não consegui acreditar que tivéssemos complicado uma partida tão simples. Os pênaltis foram uma tortura inquisitorial e conseguimos passar adiante por obra de puro e simples acaso. Uma bola na trave nos deu sobrevida, enquanto nossos atletas desandavam em histéricas crises de choro, derramando lágrimas que talvez não fosse de crocodilo, mas eram de uma imbecilidade estratosférica, na medida em que qualquer profissional que se preze, não importa seu ramo de atividade, há de estar preparado emocionalmente para adversidades e êxitos.

Aí talvez se encontre a primeira pista para descobrir onde se localizou o esconderijo da seleção. Na creche de luxo, conhecida como Granja Comari, há de haver toda a parafernália tecnológica que permita proporcionar conforto e aconchego a bebês com problemas de adaptação. Se o bebê chora muito (qualquer pai normal o sabe) é sinal mais que evidente de que algo não vai bem, impondo-se a adoção de providências imediatas ao fito de fazer com que as coisas voltem ao normal. É perfeitamente possível que tenha ocorrido algo pelo estilo. Enquanto Júlio Cesar chorava, e muito, Hulk, com aquele monumental traseiro de garota popozuda, pode ter sido acometido de preocupante diarreia, ao mesmo tempo em que o pediatra de plantão anotava significativo aumento dos batimentos cardíacos do Fred, possivelmente por conta da falta de brilhantina para lhe untar o bigode.

Pronto. Estava instalado o pânico. Com Neymar na UTI e Oscar fazendo um enorme esforço para lembrar as lições básicas que havia aprendido ainda na escolinha de futebol, ficou difícil, impossível mesmo, reunir onze jogadores para formar um time, como exige a regra do “association”. Solução, ditada pelo diretor da creche: vamos todos ficar em casa mesmo e, já que é para chorar, vamos chorar na cama que é lugar quente. Se assim foi dito, melhor foi feito e a seleção canarinho simplesmente se deixou ficar na creche, enquanto no Mineirão só os germânicos deram o ar de sua graça.

Mas o nosso bom diretor, o professor Luís Felipe Scolari, fechou com chave de ouro a tragicomédia. Ele, que parece andar tomando aulas de arrogância e prepotência com o ministro Joaquim Barbosa, declarou enfaticamente que não houve erros e que, pessoalmente, assumia toda a responsabilidade pelo acontecido. Quanta coragem cívica! E de quem mais haveria de ser a tal responsabilidade? Minha? Eu, que gastei meu rico dinheirinho para ornamentar minha casa, transformando-a na “toca do canário”? Era só o que faltava. Ou sua, meu caro leitor, que vestiu a camisa verde e amarela e saiu por aí certo de que ainda sabíamos jogar futebol, esperando ver um time à altura de nossas tradições?

Diz a sabedoria popular que “em casa em que falta pão, todos gritam e ninguém tem razão”. Acho que é por aí. Faltou o pão da vergonha, mergulhado numa pitada de humildade. Faltou a consciência de que história não ganha jogo e de que cada partida, à semelhança de eleição, é diferente da anterior. Faltou a visão de mundo que permitisse compreender que não somos uma ilha, sabendo que os outros também gostam de ganhar. Sobraram-nos apenas a vergonha e a decepção.

Depois dessa, vou tirar três semanas de folga. Até breve.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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